segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

 

          Junto uma história do Ex-Alferes Rui Felício, da CCAÇ2405 (que foi a 1ª Companhia a ser instalada no Dulombi, tendo um Grupo de Combate em Mondajane, uma então tabanca, entre a nossa picada para Galomaro e o Quirafo-Saltinho, que mais tarde seria abandonada e já não existia no nosso tempo). A CCAÇ2405, foi uma das companhias que teve muitas baixas no célebre desastre do Che-Che, na travessia do Rio Corubalo, na retirada de Madina do Boé.

          Isto para referir que, alguns anos depois, mais concretamente em 11 de Março de 1972, na 1ª operação, no dia a seguir à partida da CCAÇ2700, o 2º Gr. e o 3º Gr de Combate, reforçados com 1ª Secção de Milícias, iniciaram a Operação "Alma Forte" e deu no seguinte, praticamente na mesma zona em que a CCAÇ2405 teve o contacto com o IN.

A CCAÇ 2405

Uns dias antes o Dulombi tinha sido atacado com rockets, morteiros 82, canhões sem recuo e armas ligeiras por um bigrupo, pelas 22 horas.
As balas tracejantes que antecederam o ataque, serviram para indicar o alvo naquilo que parecia ser  o desencadear de um fogo de artifício em festas da Rainha Santa  [em Coimbra, onde o Rui nasceu, viveu e estudou].
A Companhia respondeu ao fogo com as armas de que dispunha, designadamente morteiros 81 e 60, metralhadoras HK, Borsig e espingardas G3.
Desde que a região do Boé ficou sem efectivos militares por decisão estratégica do Comando Chefe, a retracção do dispositivo originou o que se esperava. Ou seja, a guerrilha avançou as suas forças para norte do rio Corubal e as flagelações a quartéis como o Saltinho, Dulombi, Mondajane, Cansamba, Cancolim e outros começaram a ser mais frequentes.
Uma semana depois foi planeada e executada uma operação de patrulhamento com origem no Dulombi, ficando apenas no quartel o Victor David e o seu Grupo de Combate. (O Victor David [1944-2024], instalado a poucos kms, em Mondajane, teve que se deslocar com a sua tropa para guarnecer o quartel do Dulombi, enquanto a Companhia arrancava de madrugada para o dito patrulhamento.)
Toda a restante Companhia iniciou o percurso por sueste com o objectivo de contornar Paiai Lemenei, onde se supunha que se acoitassem os guerrilheiros como base para aproximação ao nosso aquartelamento.
Ao 2.º dia à tarde, sem encontrarmos sinais do inimigo, iniciámos o regresso.
Tínhamos tido a preocupação de fazer todo o patrulhamento fora dos trilhos de pé posto, para que a nossa presença não fosse detectada,  o que implicava um maior esforço e atenção redobrada na progressão, orientada quase exclusivamente por bússola, pontos de cota geográficos de referência e linhas de água constantemente referenciadas na carta topográfica.
E é verdade que a nossa presença não foi detectada,v como adiante se verá.
Já no regresso, ao fim do dia, depois de andarmos perdidos no meio da mata, encontrámos finalmente a picada que ligava Dulombi à base de Paiai Lemenei.
Exaustos pela difícil caminhada, mas contentes, foi decidido pararmos para descanso de alguns minutos ficando a cabeça da coluna na picada e o resto da tropa espalhada pelo mato.
Mandei dois soldados afastarem-se para um dos lados da picada e outros dois para o outro lado, vigiando qualquer eventual movimento anómalo.
Reunidos na picada, sentados e conversando, estavamos o Capitão [Jerónimo], o  [Jorge] Rijo, o  [Paulo] Raposo e eu, isto é, todos os oficiais, para além de alguns furriéis como o Ribas, o Veiga e o Esteves.
E pedi ao furriel Esteves para se posicionar atrás de nós, vigiando a nossa retaguarda.
Nisto, os dois soldados destacados para fazerem a segurança próxima a norte da picada, efectuaram algumas rajadas de G3 e correram ao nosso encontro já debaixo de fogo do inimigo.
 
Um deles, cujo nome já se me varreu da memória, mas cuja imagem ainda conservo bem nítida, progredia cambaleante agarrado à barriga ensanguentada onde tinha sido atingido.
Felizmente, foi evacuado para Bissau e depois para Lisboa, tendo-se salvo.
Percebemos então que uma coluna de guerrilheiros fortemente armada se dirigia em direcção ao Dulombi para executar um ataque ao quartel ao cair da noite.
Tinham sido apanhados de surpresa pela presença inesperada da nossa Companhia naquele local,  ainda afastado do aquartelamento.
Durante mais de meia hora o combate foi violento e percebia-se que os rockets choviam ininterruptos, especialmente na direcção do local onde estávamos porque era dali que irradiavam as vozes de comando.
Um dos rockets acertou mesmo em cheio no sitio onde estava o Capitão e os Alferes.
Ao meu lado um estilhaço acertou na cabeça do soldado que estava mesmo ao meu lado e que veio a morrer no próprio local.
Ainda auxiliei no seu transporte durante uns dois quilómetros. O cheiro a sangue no meu braço ainda hoje o sinto quando recordo.
Era o soldado [Lucídio]  Rasinhas [, natural de Resende]… Lá ficou…
Rui Felício (***)

E COM A CCAÇ3491

Em 11 de Março, o 2º e 3º GC (do Alf. Farinha), reforçados por 1 Secção do PELMIL288, iniciaram a Operação "Alma Forte", comandada pelo Alferes L. Dias, com a duração de dois dias (Sábado e Domingo), com a finalidade de reconhecer e armadilhar os pontos de passagem do IN no Rio Corubalo. Nesse dia, depois de invertermos a marcha, pelas 18h00, quando parámos para descansar junto ao Rio Lemenei/Paiai Lemenei, uma zona de mato denso e bastante arborizada, tivemos o nosso primeiro contacto/emboscada com o IN, estimado em 40/50 elementos. Nos primeiros momentos de troca de tiros houve alguma dificuldade na resposta ao fogo do adversário, que utilizava armas automáticas e roquetes/morteiros, em especial na utilização dos nossos morteiros e dos dilagramas, devido às condições adversas do local. Só quando conseguimos sair daquela mata e depois de lançarmos várias granadas de morteiro 60mm, que terão atingido fortemente o adversário, é que este iniciou a retirada, a coberto da noite que, entretanto, tinha caído.

      Devemos salientar nesta emboscada/contacto a actuação do Furriel do 2ºGC, Espírito Santo, que fixou com a sua Secção o fogo inimigo, permitindo a saída do restante pessoal e a actuação do soldado At. Manga Camará do 3º GC, que tomando conta do morteirete de 60mm, colocou-o à barriga (um feito difícil de acreditar para quem não viu) e lançou um par de granadas que mudaram o rumo dos acontecimentos. Também de salientar a actuação do 1º Cabo Amílcar Costa do 2ºGC, que, alertado por um camarada (o "Amarante"), avistou um elemento IN e foi o primeiro elemento da nossa companhia a efectuar fogo sobre os guerrilheiros, com a sua Met. Lig. HK 21, só parando quando a mesma se encravou por problemas na fita alimentadora.

      Do confronto resultou para o IN, pelos vastos vestígios de sangue encontrados, pelo material diverso abandonado e pela rádio do PAIGC (que confirmou baixas, o que era raro), sofreu mortos não controladas e a apreensão de 11 granadas de RPG7/RPG2, entre outro material e equipamento. As nossas forças sofreram dois feridos ligeiros e de outros elementos terem recebido tiros que lhes atravessaram os cantis, as camisas ou dólmens e acertaram nos carregadores. Enfim, uma grande sorte!!!

      Pelo reconhecimento feito posteriormente ao local, julgamos que o IN estava naquela zona a descansar para, mais tarde, ir flagelar o quartel do Dulombi e, ao aperceber-se da nossa presença, iniciou manobras de envolvimento para nos atacar, mas foram avistados.

      Esta acção mereceu das diversas cadeias de comando as seguintes referências elogiosas:

-Do Cmdt BCAÇ 3872 msg nº70/03:"Felicito êxito obtido. Transmita pessoal dessa minha satisfação";

-Do Cmdt CAOP2 (Agrupamento de Batalhões daquela área) msg nº952/0:"Felicito tão auspicioso começo";

-Do Cmdt Chefe -REP OPER msg nº984/C: "Cmdt Chefe felicita essa reacção à emboscada do In durante OP "Alma Forte", reveladora de determinação".

      O 2º GC, passou a utilizar como lema, posto no seu "crachá", o nome da operação que provocou o 1º contacto com o IN - "Alma Forte".

        

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