quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O DULOMBI ACTUAL VISTO DO AR


O Dulombi visto do ar. Para além da tabanca propriamente dita, podemos observar do lado direito da foto, restos do que foi o nosso aquartelamento e a picada que nos trouxe àquele lugar e que também nos levou de regresso.

domingo, 10 de setembro de 2017

O DESASTRE DA JANGADA DO RIO CORUBAL




Viaturas a serem transportdas na jangada, bem como tropas a utilizarem a mesma (fotos obtidas do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, com a devida Vénia)

A TRAJÉDIA DA TRAVESSIA DO RIO CORUBAL (UMA HISTÓRIA DA CCAÇ2405, A 1ª COMPANHIA QUE, FORMALMENTE, VEIO A OCUPAR A TABANCA DO DULOMBI)

DEPOIS DE FORM ADAS AS COMPANHIAS É QUE VIMOS A TRAGÉDIA”
(45 CAMARADAS DE DUAS COMPANHIAS AFOGADOS NO RIO CORUBALO, NA REGIÃO DE MEDINA DO BOÉ)

A CCAÇ2405 formou batalhão em Abrantes (BCAÇ2852), tendo embarcado em Julho de 1968 para o Comando Territorial Independente da Guiné (CTIG).

“Passados 5 meses em Mansoa, deslocámo-nos para Bambadinca. E, no início de Fevereiro (1969), fomos mobilizados para a operação de evacuação da guarnição de Medina do Boé, junto à fronteira com a Guiné-Conacri.
A companhia que lá estava (CCAÇ1790) era flagelada quase todos os dias. A operação foi comandada pelo então Tenente-coronel Hélio Felgas (Comandante do Agrupamento 1247 de Bafatá). Como a operação tinha 10 dias de duração, quando passámos por Bafatá, meti no correio um aerograma para os meus pais, para que não ficassem preocupados com a ausência de notícias. O aerograma era muito singelo e a minha mãe desconfiou de algo.
No dia seguinte, formou-se uma grande coluna e avançámos para Medina do Boé. Quando Chegámos ao Cheche, juntom ao Rio Corubal, encontrámo-nos com um destacamento a nível de grupo de combate, comandado pelo Alferes Dinis. Para a atravessia do rio havia uma jangada que levava um carro pesado de cada vez. Nós fomos os primeiros a travessar para montar a segurança na outra margem.

O DIA MAIS TRAUMATIZANTE
Fizemos a pé o percurso de 40km até Medina do Boé. A estrada parecia um cemitério de Unimog e de GMC. Quando anoite começou a cair entrámo no quartel em pequenos grupos. Se o inimigo andasse por perto, tinha-nos apanhado à mão. Ainda rebentádos da véspera, mandaram-nos ainda mais para sul, para junto da fronteira, para fazer a protecção avançada. Ali passámos 24 horas, o tempo necessário para as viaturas chegarem e serem carregadas. O IN andava por perto. Bem os ouvíamos no nosso rádio.
De madrugada deram-nos ordem para fechar a coluna que já estava a serpentear na estrada. Foi assim que a posição de Madina do Boé foi abandonada. A nossa progressão até ao rio Corubal foi penosa. Estacionámos na margem sul com a companhia de Madina (CCAÇ1790), durante toda a noite para proteção. De madrugada a jangada foi transportando para a outra amrgem todas as viaturas. O dia seguinte (6 de Fevereiro de 1969) foi o mais traumatizante. Passados todos os carros foi a nossa vez de atravessar o rio. A nossa companhia passou para a frente da de Madina e o meu grupo de combate para a cabeça. A companhia dirigiu-se para a jangada, mas só coube o meu grupo. A jangada regressou para ir buscar o resto do pessoal. Todos os que estavam na outra margem subiram para a jangada que, a poucos metros adornou para um dos lados. Por falta de peso, a embarcação cedeu para o outro lado, atirando outros tantos ao rio. Depois ficou meio submersa. Uma vez formadas as companhias é que demos conta da tragédia, 45 camaradas afogados, de ambas as companhias.
Com as botas, o peso das cartucheiras, das granadas e a responsabilidade de não perderem as armas, os soldados, à medida que caiam na água, iam logo ao fundo, agarrando-se uns aos outros. Vi-os morrer à minha frente, no Rio Corubal, na região de Madina do Boé, seis meses depois de ter chegado. A minha mãe, assim que soube da notícia, associou ao meu aerograma e ficou aflita. Telefonei-lhe de Nova Lamego.
Tive ainda outras missões: trazia sempre comigo 2 granadas, uma para o inimigo e outra para mim, no caso de ser capturado. Regressámos em Maio de 1970, no Carvalho Araújo, mas falharam 20 camaradas ao embarque.
Ex-Alferes Milº At.Infª (especialidade em Minas e Armadilhas), Paulo Raposo, da CCAÇ2405
Revista Domingo do Jornal CM, do dia 10 de Setembro de 2017

Sobre estes tão trágicos acontecimentos alguns apontamentos sobre o acontecido, retirados do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, com a devida vénia

Excerto da brochura Os Anos da Guerra, vol 10, pp. 23-24:
1969 – Os Acontecimentos (…) Fevereiro, 6
Desastre do Cheche na travessia do rio Corubal, durante a retirada das forças portuguesas do quartel de Madina do Boé, na Guiné
Esta operação [Op “Mabecos Bravios”] tinha em vista retirar as forças portuguesas da posição insustentável de Madina do Boé, cercada pelo PAIGC e depois ocupada logo a seguir, no mesmo dia.
A companhia que estava em Madina do Boé havia 13 meses era a Companhia de Caçadores 1790, comandada pelo capitão José Aparício. Depois de saírem de Madina, pelas nove da manhã do dia 6 de Fevereiro de 1969, as forças portuguesas perderam meia centena de homens e grande quantidade de material, quando a jangada que fazia a travessia do rio Corubal, se virou. Aparentemente por excesso de peso, ou pela sua má distribuição, agravado por uma detonação que provocou o pânico.
Na sequência da retirada e do desastre, o PAIGC ocupou Madina do Boé, Mejo e Cheche, tendo sido o facto alvo de exploração junto da opinião pública mundial por parte dos serviços de informação e propaganda do PAIGC. O Exército justificou a retirada daquela região em consequência do reordenamento populacional, que exigia que aquelas populações fossem transferidas para aldeias de maior progresso económico e social.
De facto, o abandono do quartel de Madina do Boé fazia parte da reorganização do dispositivo militar que Spínola estava a levar a cabo desde que tomara posse do cargo de Comandante-Chefe e Governador, em 20 de Maio de 1968.
Madina era, juntamente com o Destacamento de Beli (já desactivado em Junho de 1968) e com Cheche, uma posição muito difícil de defender, por estar na fronteira da Guiné-Conacri, numa zona semidesértica e a uma cota inferior à dos morros do Futa Djalon, separada dos outros postes portugueses pelo rio Corubal, o que tornava esta localidade muito difícil de reabastacer ou mesmo de socorrer.
In: Carlos de Matos Gomes e Aniceto Afonso – Os Anos da Guerra Colonial – Vol 10: 1969 – Acreditar na vitória. Matosinhos: QuidNovi. 2009. pp. 23-24.

Comentário de Luís Graça:
Como repetidamente temos aqui escrito, o nosso blogue não é (nem nunca será, se isso depender só de mim) nenhuma espécie de tribunal da história da guerra colonial. Não julgamos, não condenamos, até por que, mal ou bem, todos fomos actores no TO da Guiné, plurais, contraditórios, dilacerados. O que nos move é apenas a vontade de lutar contra o esquecimento, o branqueamento, a indiferença, a manipulação, a falsificação, a ignorância, o cinismo, o conformismo... Privilegiamos as histórias de vida, as narrativas, os testemunhos presenciais, a pequena história, a fotografia, o documento... De um lado e do outro. Não estamos do lado do politicamente correcto.  Nem do pensamento único. Não queremos nem defendemos o unanimismo.  Procuramos a triangulação de fontes, muito embora tenhamos muitas limitações no acesso a documentos de arquivo, oficiais ou oficiosos.  Não somos historiadores.Não fazemos investigação científica. Procuramos separar factos e opiniões, sentimentos, emoções, etc., muito embora saibamos que não há texto sem contexto. Nem há conto sem contador, mesmo quando quem conta um conto, acrescenta um ponto...
Madina do Boé, a sua retirada, o desastre do Cheche... nada disto tem uma leitura única. Mesmo aqueles que estiveram no cerne dos acontecimentos, têm (ou podem ter) diferentes versões, parcelares, dos acontecimentos. O comandante da operação, Cor Hélio Felgas, não estava na jangada, mas uns meses antes de morrer insistia na teoria do bode expiatório, neste caso, o elo mais fraco da cadeia hierárquica, que era o Alf Mil Dinis (camarada do cadete Torcato Mendonça, no COM, em Mafra, em 1967)... O Rui Felício, que estava na jangada e foi ao fundo com os seus homens, não tem dúvidas quanto ao diálogo entre o Alf Mil Dinis, responsável pela segurança da jangada, e o comandante da CCAÇ 1790... Cada um de nós tem o díreito a ter opinião,  mas não pode emitir juízos de valor, não fundamentados, em público, e nomeadamente no nosso blogue. Não incentivamos, nem apoiamos, não desejamos esse tipo de comportamento.
Há membros do nosso blogue que acham que há assuntos-tabu... O desastre do Cheche seria um deles. Alegam que nunca iremos saber a verdade... Ou que a verdade é dura demais para se dizer e ouvir... Quanto a nós, não há razão para fechar o dossiê, prematuramente... Os membros do nosso blogue são livres de abriir e reabrir este tipo de dossiês temáticos (que são as nossas séries), desde que possam haver factos novos ou índícios que sugiram factos novos...
E também há membros, mais recentes, do nosso blogue que pura e simplesmente nunca tinham ouvido falar do desastre do Cheche nem da sua gravidade. Eis mais uma razão para o lançamento desta nova série, Ainda o desastre do Cheche... LG

O desastre da jangada visto por Hélio Fargas, comandante da operação “Mabecos Bravios”
Cerca das 9 ou 10 horas da manhã apareceu um helicanhão que sobrevoou demoradamente toda a zona. Depois pousou e eu fui ter com ele procurando informar-me do que a tripulação tinha visto. Mal tinha chegado, apareceu um soldado correndo para mim a gritar que a jangada se estava afundando, logo após ter partido da margem sul. Pedi imediatamente ao piloto para... [linha inteira cortada na fotocópia] depois para a margem do Cheche onde eu estava. Parecia vir normalmente carregada com homens e material.
(ix) Um comandante também chora
Quando chegou é que eu soube que diversos homens tinham caído ao rio, não aparecendo mais. Verifiquei tratar-se do pessoal que realizava a última travessia. Quando se fez a chamada, viu-se que faltavam quarenta e tal homens, seis dos quais nativos. Não consegui controlar-me e desatei a chorar, tal como aliás vi muitos valorosos militares a fazerem. Foi assim que me encontrou o General Spínola que nesse dia também quisera ir ter comigo.
Aguardámos horas, com o helicóptero sobrevoando o local na esperança de localizar alguns dos desaparecidos. Dois ou três bons nadadores também mergulharam na zona onde acorrera o acidente. Nada foi encontrado. Interroguei diversos militares mas alguns nem podiam falar. Outros disseram-me que a jangada, logo após ter partido da margem sul, tinha-se afundado um bocado, ficando o estrado rés-vés com a água. Este afundamento era aliás natural desde que não fosse excessivo. O estrado, como dissemos atrás, ficava a cerca de um metro da água quando a jangada estava vazia. Esta distância diminuía conforme o peso do carregamento mas o estrado normalmente nunca chegava a ser coberto pela água.
Segundo parece, alguns dos homens que seguiam junto às vedações laterais assustaram-se quando alguma água começou a cobrir o estrado. Teriam então descido para o rio procurando segurar-se às travessas laterais do estrado e continuar assim a travessia. Desta forma o peso da carga diminuiria e a jangada subiria. Só que não se lembraram de que com o equipamento e as munições cada um pesava mais de cem quilos.
Foi desta forma que uma operação que decorrera sem qualquer baixa (ao contrário do que inicialmente se esperava), viu o seu final tragicamente enlutado. Durante toda a noite, desde as seis da tarde da véspera até às 10 ou 11 da manhã seguinte, as jangadas tinham trabalhado sem qualquer anomalia. Fizeram dezenas de travessias. E o azar logo havia de aparecer na última e de forma tão dolorosa. Nem o facto de na altura terem ocorrido acidentes semelhantes (ou talvez ainda mais graves), com jangadas em Moçambique, podia servir de lenitivo para o que nos sucedera na Guiné. Dezenas de homens que tinham vivido longos meses sob bombardeamentos quase diários, acabaram por morrer afogados. (...)
Texto de Teresa Fimino (Jornal Público)
Durante horas a fio, as duas jangadas no rio Corubal fizeram vezes sem conta a travessia para a margem norte. A companhia de caçadores 1790 estava a abandonar o quartel de Madina do Boé, onde tinha sido constantemente flagelada pelo inimigo ao longo de 13 meses, e era apoiada por homens de outras companhias. (...)
Até ali, tudo tinha decorrido sem incidentes. Para trás, tinham ficado os 30 quilómetros entre Madina de Boé e Cheche, e o rio começou a ser transposto na margem sul ao fim da tarde de 5 de Fevereiro de 1969. Passaram toda a noite naquilo. Só podia seguir uma viatura pesada de cada vez. Eram 28, mais 100 toneladas de munições e equipamentos, três auto-metralhadoras Daimler e à volta de 500 militares, conta-nos o então capitão José Aparício, comandante da companhia 1790 em Madina do Boé.
Ao início da manhã de 6 de Fevereiro, só restava na margem sul um grupo de homens: dois pelotões da companhia 2405, outros dois daquela que estava em retirada. "Eram entre 100 a 120 pessoas", diz José Aparício.
Toda a gente entrou na última jangada, que assim levava o dobro da sua lotação de segurança. Era feita por um estrado de madeira, assente em canoas e bidões de gasóleo vazios, puxada por um barco com motor fora de borda. José Aparício ia naquele grupo de homens. O alferes miliciano Rui Felício (que comandava um pelotão da companhia 2405) também.
De repente, a jangada adornou para um lado, atirando vários homens à água. Depois, balançou para o outro e cuspiu outros tanto. Ficou meio submersa, mas não foi ao fundo. José Aparício conseguiu manter-se na embarcação. Rui Felício caiu no rio.
"Estava a ir ao fundo. Percebi - se calhar muitos não perceberam - que tinha muito peso. Atirei a espingarda fora, que pesava cinco ou seis quilos, e a cartucheira à cintura, com outros cinco ou seis quilos. Descalcei as botas e nadei para a jangada." Ouviam-se gritos? "Não, não ouvi ninguém a pedir socorro, a gritar. Nada."
(...) Paulo Lage Raposo, alferes miliciano da companhia 2405, atravessou o rio na viagem anterior. "Vimos que caíram uns para um lado e outros para o outro. Não houve gritos, nem esbracejares, nem coisa nenhuma. Carregados com as armas, as granadas, as botas, iam para o fundo como um prego." Muitos não sabiam nadar, o que agravou tudo. Mas naquele momento a dimensão do acidente passou despercebida.
"Só soube que tinha morrido gente - estou a arrepiar-me a contar isto - quando cheguei à margem e pedi a um furriel para formar o pelotão. Ao fim de dez minutos, fui ralhar com ele porque achava tempo demasiado para ainda faltar gente. Só percebi que se passava alguma coisa porque vi vários a chorar. Aí é que me apercebi que morreu gente. Do meu pelotão, foram 13", recorda Rui Felício.
"É uma coisa que marca para toda a vida. Tive coisas infelizes que já esqueci, mas esta não se esquece nunca. Lembro-me da data. Foi entre as nove as dez da manhã. Há pormenores que nunca mais saem da cabeça. Sei que estava um dia de sol."
(...) [47 é o número de mortos] referido, por exemplo, por José Aparício, tendo em conta os elementos que recolheu: "Morreram no desastre 25 militares da minha companhia e 22 da companhia de caçadores 2405, o que perfaz um total de 47 europeus. Morreram ainda na travessia mais cinco guineenses de um pelotão de milícias que fazia parte da guarnição de Madina do Boé. Felizmente, não morreu nenhum dos cerca de 100 elementos da população que ali viviam connosco e que foram evacuados para a então Nova Lamego, hoje Gabú. Fizeram a travessia em viagens anteriores."
(...) Duas semanas depois do naufrágio, foi organizada uma operação de recolha dos corpos por fuzileiros e mergulhadores. Muitos desapareceram para sempre. Na série de documentários A Guerra, de Joaquim Furtado, podem ver-se imagens aéreas de alguns corpos a boiar, recolhidas pelo piloto da Força Aérea José Nico. "Os [corpos] recuperados foram sepultados nas margens do rio, com as honras militares próprias", relata Joaquim Furtado. (...)
(...) Que a jangada naufragada no rio Corubal tinha excesso de peso,  não suscita grandes dúvidas. Mas o que desencadeou a queda à água de soldados é alvo de versões desencontradas. Os alferes milicianos Rui Felício e Paulo Lage Raposo (o primeiro ia na jangada, o segundo fez a travessia na viagem anterior) dizem que foi o peso a mais, tendo ficado desequilibrada. Com capacidade para dois pelotões (uns 60 homens), fazia a travessia com os últimos quatro pelotões, de duas companhias. "Às vezes facilitamos demais", diz Paulo Raposo. "Para mim, a jangada virou-se porque tinha excesso de peso, embora haja relatos diferentes", diz Rui Felício.
Um desses relatos é o do capitão José Aparício (comandante da companhia 1790, em retirada do quartel de Madina do Boé), também na jangada. Diz que se ouviram tiros de morteiros e, em reacção, o barco a motor que puxava a jangada acelerou demais e fez cair homens.
Não houve tiros de morteiro, dizem Raposo e Felício. "Havia uma paz absoluta naquele rio", lembra Felício. "Estávamos habituados a ouvir tiros. Não era com uns tiros que nos assustávamos", junta Raposo. No documentário A Guerra, de Joaquim Furtado, dá-se voz às diversas versões e suas nuances. "Os morteiros existiram. Não tenho dúvidas", diz José Aparício a Furtado. "Há pessoas que disparam armas e sabe-se quem foi. Esta gente foi ouvida." Estava previsto dispararem-se morteiros para a margem sul do rio, quando todos tivessem deixado essa margem, no fim da operação.
É mostrado um filme feito pelo piloto José Nico, que filmava a penúltima travessia mas recebeu indicações para ir filmar os morteiros. Vêem-se os disparos das armas: "É durante esta filmagem que recebe a notícia do naufrágio da última jangada", ouve-se Furtado a dizer. "Imediatamente a seguir, José Nico filma estas imagens que mostram a jangada acidentada no meio do rio, enquanto alguns militares tentam as primeiras operações de socorro." Este acidente deixou a operação Mabecos Bravios (cães selvagens) tristemente célebre. (...)

A versão de quem esteve na jangada e perdeu 11 homens do seu pelotão – o Ex-Alferes Miliciano, da CCAÇ2405, Rui Felício
A verdade do que sucedeu
Mas então, o que se passou realmente naquela manhã de 6 de Fevereiro [de 1969]?
A CCAÇ 2405, comandada pelo Cap Mil Inf Novais Jerónimo, integrava a coluna militar que tinha partido na manhã do dia anterior de Madina do Boé, rumo ao Cheche, e tinha como missão escoltar a Companhia de Caçadores [1790] evacuada daquele aquartelamento e que era comandada pelo Cap Inf Aparício (que, após o 25 de Abril, veio a assumir a função de Comandante Geral da PSP de Lisboa).
Ao fim desse dia, a coluna chegou às imediações do rio Corubal, junto ao local de cambança para o Cheche. E durante toda a noite a jangada fez contínuas viagens transportando pessoal de apoio e, sobretudo, equipamentos militares e de transporte.
Ao amanhecer, as viagens de transporte entre as duas margens continuaram consecutivamente, até que chegou o momento em que na margem sul do rio Corubal já só restavam quatro grupos de combate, todos eles comandados pelos respectivos alferes, bem como os capitães Aparício e Novais Jerónimo. Além destes, encontrava-se o 2º Comandante da Operação [Mabecos Bravios], um major cujo nome já não recordo.
Segundo a rotina estabelecida e as instruções recebidas pelo responsável pela condução da travessia (Alf Mil Diniz), esperávamos na margem do rio que este responsável mandasse entrar metade do pessoal ainda ali estacionado, ou seja, dois dos quatro pelotões acima referidos. É que a jangada, segundo bem explicou o alferes Diniz, tinha uma lotação de segurança de um máximo de 60 homens (2 pelotões). E o alferes Diniz assim fez, à semelhança do que tinha já feito dezenas de vezes ao longo da noite, zelando para que a carga da jangada não excedesse os limites de segurança estabelecidos.
Mandou entrar o meu pelotão e o do Alferes Rijo, ficando na margem para a viagem seguinte, os dois pelotões da Companhia do Capitão Aparício. Subitamente porém, assisti a uma conversa entre o 2º Comandante da Operação e o Alferes Diniz, em que este foi intimado pelo referido 2º Comandante a mandar embarcar os dois pelotões restantes, dado que não se podia atrasar mais a operação. Apesar dos argumentos do Alf Diniz, tentando que em vez dos 4 pelotões embarcassem apenas dois, prevaleceu a autoridade da patente militar mais alta e assim acabaram por embarcar os 4 pelotões, para a derradeira viagem da jangada...
E foi de facto a sua derradeira e trágica viagem... Ainda não estavam percorridos 10 metros e já a jangada submergia e, de seguida, se virava projectando para a água quantos nela seguiam... E não me recordo de ter ouvido qualquer disparo de morteiro, antes do desastre... E não me lembro de ter detectado antes qualquer sinal de pânico entre os soldados... Aliás, a sua experiência operacional no teatro de guerra era já apreciável e não entrariam em pânico por um simples disparo de morteiro que estou seguro que não existiu.
Houve alguns disparos de morteiro, é verdade, mas após o desastre e feitos pelas NT, no intuito de prevenir qualquer aproveitamento do IN que eventualmente estivesse emboscado nas imediações. Exceptuando os militares que infelizmente pereceram afogados no Corubal, passados poucos minutos, todos restantes retornavam à jangada que, pouco depois, se reequilibrou e retomou a sua viagem para a margem norte do rio. E eu fui um deles... Depois de me ter libertado da espingarda, das cartucheiras, das botas e das granadas, cujo peso me puxava inexoravelmente para o fundo...Em nenhum momento descortinei qualquer tipo de pânico quando regressei à jangada e, talvez nervosos ainda do desastre, todos sorriamos e aceitávamos o banho forçado como uma dádiva divina depois de vários dias de sede e calor.
Ninguém se apercebeu de nenhum camarada em aflição ou pedindo socorro. Ninguém sequer sonhou que a tragédia tivesse atingido as proporções que tomou. Só na margem norte do rio, quando mandei formar o meu pelotão e o vi reduzido a quase metade é que tive consciência da desgraça que tinha acontecido. E foi então que, algo descontrolado, me dirigi à margem do rio que engolira os meus soldados na esperança de ainda ver alguém... Mas a tragédia estava consumada de forma silenciosa, definitiva e rápida.
Em resumo e concluindo:
(i) O desastre do Cheche ficou a dever-se, em minha opinião, ao excesso de peso entrado na jangada;
(ii) E ela é corroborada por todos aqueles que, como eu, viajavam na jangada e que em conversas a seguir ao desastre manifestaram a mesma opinião;
(iii) Note-se que a mesma jangada tinha já feito dezenas de travessias sob as ordens directas do Alf Diniz sem nunca se ter detectado qualquer problema;
(iv) Esse problema surgiu de forma trágica na última travessia, ou seja, naquela em que o responsável Alf Diniz não pôde efectivamente proceder segundo o que estava estabelecido, deixando entrar na jangada o dobro da sua capacidade, por ordem do 2º Comandante da Operação a que, pela natureza da hierarquia militar, não poderia opor-se;
(v) Mas fê-lo, e disso dei testemunho no âmbito do inquérito que se seguiu, advertindo previamente o seu superior hierárquico para o facto de estar a infringir as determinações que tinha sobre a forma de fazer a travessia do rio e da lotação definida para a embarcação;
(vi) E estou convencido que a rapidez do desaparecimento das vítimas nas águas calmas, escuras e profundas do Corubal, se ficou a dever ao facto de todos transportarem consigo pesado equipamento de guerra que lhes tolheu os movimentos e os conduziu para o fundo do rio, de forma tão rápida, com a agravante de que a maior parte deles não sabia nadar;
(vii) Finalmente, não posso deixar de fazer referência ao que o José Martins diz ter ouvido de "alguém que esteve no centro do acontecimento" de que as águas tomaram um tom avermelhado.
(viii) Sei da existência de crocodilos naquele troço do rio Corubal.
(ix) Sei que alguns dos corpos de soldados encontrados dias mais tarde, apresentavam sinais de terem sido dilacerados por crocodilos.
(x) Mas sei também que as águas, naquele dia, e após o acidente, apenas apresentavam o tom natural verde escuro de um rio calmo e profundo e tenho dúvidas que os crocodilos tivessem estado presentes naqueles momentos, com o ruído de helicópteros sobrevoando as águas a baixa altitude, na tentativa de encontrar e socorrer algum soldado em dificuldades.
(xi) Não devemos dramatizar mais o que só por si já foi suficientemente dramático (2)...
4. Breves dados sobre a CCAÇ 2405 (1968/70)
Composição da CCAÇ 2405:
A CCAÇ 2405, à data dos acontecimentos, tinha a sua sede em Galomaro (3).
Comandante: Cap. Mil. José Miguel Novais Jerónimo
1º Grupo de Combate – Alf Mil Jorge Lopes Maia Rijo
2º Grupo de Combate – Alf Mil Vitor Fernando Franco David
3º Grupo de Combate – Alf Mil Rui Manuel da Silva Felício
4º Grupo de Combate – Alf Mil Paulo Enes Lage Raposo
O 2º Grupo de Combate, comandado pelo Alf Mil Vitor David, não integrou a Companhia na operação de evacuação de Madina do Boé, ficando na sede da Companhia em Galomaro, onde porém a acompanhou através dos meios rádio.
As baixas resultantes do desastre do Cheche foram sofridas pelos 1º e 3º Grupos de Combate, que viajavam na jangada na altura do acidente.
Rui Felício
(Ex-alf mil inf CCAÇ 2405
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terça-feira, 30 de maio de 2017

Opinião do Presidente da República sobre os Combatentes

https://www.noticiasaominuto.com/pais/804038/herois-das-forcas-armadas-nao-tem-sido-bem-tratados

FOTOS DO 18º CONVÍVIO

CAMARADAS E AMIGOS

Realizou-se no passado dia 27 de Maio, o 18º Convívio da CCAÇ 3491/BCAÇ 3872, em comemoração da “estadia” na Guiné, entre Dezembro de 1971 e Março de 1974. O encontro teve lugar no Restaurante Parque, situado no Parque de Campismo de Sarzedo/Arganil e foi organizado pelo Ex-Furriel, Mário Castanheira e Ex-Furrriel, Engº Manuel Rodrigues.

A festa desenrolou-se conforme o previsto e contou com a participação de 70 pessoas, sendo que 37 delas eram operacionais da nossa companhia. Depois dos habituais abraços entre camaradas e de meterem a conversa em dia, passou-se aos aperitivos e entradas no jardim do restaurante, com uma vista priviligiada sobre a vila e à foto da praxe, tirada por fotográfo profissional. Depois seguimos para o sal~ºao de refeições, muito bem arranjado onde, numa das paredes, projectaram-se diapositivos de fotos sobre a nossa companhia e deu-se início ao repasto que decorreu da melhor  forma e com a habitual boa disposição de todos os presentes.
Depois da abertura do bolo (muito bonito aliás e saboroso) e do discurso do organizador, apresentou-se o nosso camarada, José Pereira da Silva, conhecido pelo bonito alcunha  de “Grijó”, que se ofereceu para organizar o 19º Convívio, a ter lugar em Grijó (possivelmente no Mosteiro de S. Salvador), em Gaia.

Um dos momentos interessantes do convívio foi o de ter aparecido o célebre “canhangulo” que existia no Dulombi, e que, segundo a “lenda”, serviu antigamente para os africanos caçarem búfalos. Havia uma foto minha com esta arma, que pesa bastante, diga-se de passagem, tirada em 1972 no quartel. A arma (que se encontra inoperacional) foi trazida pelo Ex-Furriel, Manuel Rodrigues e encontra-se a cargo de um mini-museu situado na zona (infelizmente, porque parece que não têm o cuidado e interesse que o objecto merece).

Ficámos contentes de rever o camarada Carlos Ferreira, de alcunha, “Nunca falha”, que manifestamente nos pareceu ter melhorado da sua saúde. Foi geral o pesar pelo falecimento do nosso amigo Ex-Alferes, Engº Mário Vasconcelos, que partiu recentemente. Soube-se da doença que acometeu o Sr. Coronel, Moreira Campos (nosso 2º comandante), tendo os convivas desejado a sua rápida recuperação.

Foi sentida a falta de muitos camaradas e amigos que por razões da sua índole pessoal, não puderam estar presentes, mas que para o ano devem-se apresentar ao “serviço”. Não é Dr. Rui Coelho, Ex-Furrieis Almeida, Nevado. Lourenço, Carvalho, Rocha e Reis, Ex-1ºs Cabos, Amílcar, Rocha, Veiga, Melro, Avelino, Arrepia, Rebordões e Ex-Soldados Nogueira, Notas, Madureira, Alves e tantos outros? Vamos lá rapaziada quantos mais melhor e, claro, tragam as respectivas famílias e amigos, se quiserem, porque todos são benvindos.

Algumas das fotos que postamos em seguida foram tiradas pelo nosso Ex-1º Cabo, Manuel Pedro (o nosso homem da Berliet), que usamos com a devida vénia e o nosso obrigado.

Abraço a todos os camaradas e até para o ano, se Deus quiser.
Luís Dias

O pessoal operacional da CCAÇ 3491

Um dos organizadores do evento, Mário Castanheira (à esq) e á Dta Manuel Parente
Os organizadores Mário Castanheira (esq) e Manuel Rodrigues

Em 1º plano (à dta) Reis, de seguida Sousa

Manuel Pedro e Mário Castanheira


Costa (Esq) e Sousa(um dos nossoa apontadores do mort. 81mm)

Cap. Pires (à Esq) e Soares

Manuela (Esq) e Maria Carvalho
Em baixo:Aspecto do pessoal a atacar as entradas



Vista sobre a Igreja de Sarzeda

O Bolo da praxe.
A tatuagem do Neves Corneteiro

A tatuagem do Norberto (Charlot)

A colher de pau, símbolo deste convívio

Alf. Dias, no Dulombi com o Canhangulo

Na festa o Dias com o mesmo canhangulo
Dias (à esq) com Norberto

Local do Convívio

Carlos Ferreira ("Nunca Falha") e Norberto




sexta-feira, 28 de abril de 2017

18 CONVÍVIO DA C CAÇ 3491

18º CONVÍVIO DA COMPANHIA DE CAÇADORES 3491 (CCAÇ 3491)
GUINÉ 1971-74

Fui incumbido da organização do 18º  convívio da CCAÇ 3491, que será em 27 de Maio de 2017. Para o efeito envio-te este convite.
Se recordas os bons e maus momentos passados na Guiné e, acima de tudo, não esqueceste os amigos/camaradas, vem juntar-te a nós, em são e fraterno convívio. Traz a família e amigos, que pouco sabem do que lá passámos, contacta outros camaradas que não temham recebido igual convite.
Vem visitar uma zona que, eventualmente, não conheces e serás recebido em família. Prometo dar o meu melhor para não te defraudar.
Senão és da nossa companhia, podes comparecer que serás bem recebido.
Achei por bem suprimir algumas lembranças, a fim de pode fazer um preço mais moderado para todos: 25 Euros por adulto.

PROGRAMA
Concentração junto ao Restaurante Parque, situado no parque de campismo de SARZEDO, Lugar da Malhadinha (Sarzedo-Arganil), a partir das 11H00.

EMENTA
BUFFET D ENTRADAS: Bacalhau com broa; Salada de orelha de porco; Feijão frade com atum; Enchidos grelhados; Bucho recheado à Arganil e Salgadinhos diversos.

SOPA: Sopa à lavrador

CARNE: Cabrito assado no forno, com migas, batata assada e arroz de miúdos ou Lombo de porco (por opção).

SOBREMESAS: Tijelada; Pudim; Arroz doce; Leite Creme; Mousse de chocolate e Abacaxi.

BEBIDAS: Vinho branco e tinto; Cerveja; Refrigerantes,; Águas e Café e Licor da Região.

BOLO COMEMORATIVO: Espumante natural e digestivos a gosto.

Para uma melhor organização, comunica, por favor, a tua presença até ao dia 17 de Maio deste ano, para os números de telefone: 235 711 416 ou 231 922 473 e para o telemóvel 964 040 416.

Lisboa via Coimbra pela A1, com saída em Coimbra Norte para Viseu, pela IP 3, passando por Penacova, virando em seguida para a IC6, em direcção a Sarzedo/Arganil.(246 km)
Porto via A1 até Coimbra, saindo em Coimbra Norte para Viseu, pela IP 3 passando por Penacova, virando em seguida para a IC6, em direcção a Sarzedo/Arganil. (155km)

Restaurante Parque, entrada Norte em Arganil, antes da ponte, pegado ao Parque de Campismo
GPS: Latitude: 40. 241757616911684 e Longitude: 8.067886233329773

 O organizador
Mário Castanheira (Ex-Furriel Milº)


sábado, 15 de abril de 2017

UM CAMARADA QUE PARTIU!


Foi com grande tristeza que tomámos conhecimento de que faleceu ontem, o nosso amigo e camarada Mário Vasconcelos, Ex- Alferes miliciano, do Batalhão de Caçadores 3872/CCS. 
O Mário era o responsável pela área de transmissões do Batalhão, mas era, sobretudo, um amigo do coração. Conhecemo-nos melhor quando a nossa companhia foi transferida, em grande parte, para a sede do batalhão, em Galomaro, onde convivemos diariamente e onde pode apreciar as suas qualidades humanas.
Era uma presença assídua dos convívios da nossa companhia, sendo considerado já um elemento do nosso grupo.
À família enlutada apresentamos as nossas sentidas condolências.
Caro Mário, que possa a tua alma descansar em paz e um dia iremos nos encontrar no grande Olímpo dos combatentes. Até sempre!

Luís Dias
 O Camarada Mário Vasconcelos a caminho de um almoço convívio
À esquerda o Alf. Mário e à direita o Alf. Dias, sentados à porta da messe de oficiais de Galomaro, em 1973