terça-feira, 8 de julho de 2008

"ESTORIETAS" DO DULOMBI E DE GALOMARO

O GAGO DO DULOMBI
Para além de cmdt do 2º Gr. Comb, e de 2º cmdt de Companhia, eu era ainda o responsável pelo armamento da CCAÇ 3491. Um belo dia, no nosso aquartelamento do Dulombi, um elemento operacional veio ter comigo informando-me que tinha um dilagrama que não estava em condições e pedia autorização para o destruir. Como era usual nessas situações, disse-lhe para informar as sentinelas dos dois torreões (postos de vigia elevados) que estavam virados para a zona de onde aconteciam, normalmente, os ataques do IN, bem como os elementos das casernas dessa área e que atirasse o dilagrama a seguir ao heliporto, isto depois de se apurar senão havia alguém da população por perto.
Depois de obter o ok de que não estavam elementos da população na área – o que seria raro, pois as zonas de cultivo eram no lado oposto ao quartel, foi lançado o dilagrama. Minutos após a explosão, surgiu um elemento da população a correr para o quartel mal conseguindo dizer que o queriam matar, pois a granada tinha caído junto dele.
Tratava-se de um elemento da população que era gago e que se encontrava a tomar conta da sua plantação de amendoim, para evitar que os babuínos a destruíssem e embora não fosse normal estarem elementos da população daquele lado, ele tinha plantado a “mancarra” no lado do IN e a sentinela não o vira passar.
Deslocando-me ao local onde a granada explodira é que me apercebi da sorte que o homem teve e a nossa. Ele encontrava-se sentado num tronco de uma árvore caída no chão, bastante largo e a granada projectada através da G3, tombara do outro lado da árvore, praticamente a seu lado, mas a explosão, tendo a barreira da árvore, lançara os estilhaços como um efeito dirigido, deflectindo-os para o lado contrário do indivíduo, cravando nas árvores e vegetação em redor os respectivos estilhaços - incrível!
Deste modo, para além do grande susto e de ter ficado um pouco aturdido pela explosão, o elemento da população não teve quaisquer ferimentos (!!!) e…..ficou, segundo pensamos, um pouco mais gago do que já era, enfim, podemos dizê-lo, um mal menor….face aos estragos que produziam, como se sabe, as nossas granadas defensivas, com aquela espiral de metal que, no rebentamento, resultavam em pequenos estilhaços. Coitado do homem….e o dobro do turno para o sentinela, é claro.

O DIA EM QUE O PAU DA BANDEIRA DE GALOMARO SE DOBROU PERANTE NÓS
Na nossa companhia havia o são costume de que, quando alguém fazia anos e se lhe competisse ir para o mato ou efectuar qualquer outro tipo de acção operacional, era dispensado. Esta situação manteve-se durante o tempo que estivemos na guerra, quer no Dulombi, quer em Galomaro e sempre que fomos de intervenção para outras zonas.
Mas se era fácil dispensar um praça, ou mesmo um furriel, quando se tratou de um alferes e estando a CCAÇ 3491 na sede do Batalhão, a partir de 9 de Março de 1973, a coisa iria ser diferente, como eu iria sentir.
Faço anos em Dezembro e organizei o petisco para comemorar com os camaradas nesse dia de 1973. Mas estas coisas são mesmo assim e pimpa lá estava o meu grupo de combate, juntamente com outro com uma operação marcada para se iniciar no meu dia de anos.
- Porra! Azar do car……..! Tinha de ser neste dia!
Falei com o capitão e ele disse-me logo que ali tinha de ser o Cmdt. de Batalhão a decidir, porque a op. era organizada pelo Chefe de Operações – o Capitão Pamplona. Pensei logo que estava quilhado, porque o Tenente-Coronel Castro e Lemos era “tramado”, mas decidi expor-lhe a situação. Disse-lhe o que era o nosso costume, que já no ano anterior estava longe da companhia, no Curso das Unidades Africanas, em Bolama, que o outro alferes podia comandar os dois grupos de combate, como acontecia, quando um estava de férias, etc. …..Bem, vim de lá com as orelhas a arder, sem conseguir a dispensa, embrulha e vai para o mato, que não há nada para ninguém.
Disse aos camaradas graduados, capitão, alferes e furriéis da companhia, bem como alferes e furriéis da CCS, que a festa ficava adiada 2 dias, mas fazia-se e mesmo que eu não voltasse, podiam comer o petisco à minha conta (nunca sabíamos o que podia acontecer). Combinei as coisas com os cozinheiros e no meu dia de anos, pelas 06h00 lá fui para o mato, na Acção “Escape” (eu bem queria escapar!), que durou 36h00, na zona do Corubalo, embora, felizmente, sem quaisquer problemas.
No regresso, à noite, o maralhal lá se juntou para o real petisco e para beber umas bazookas, primeiramente, e depois passámos ao melhor artigo e usual costume, que era enfiar um pedaço de gelo num terrina de sopa, despejar-lhe uma garrafa de Whisky e completar com Coca-cola e íamos passando uns aos outros, para beberem todos pela terrina. Quando acabava, torna a abrir mais uma garrafa e por aí fora……
É claro que nos oficiais presentes não estavam os elementos do Estado-Maior do Batalhão, embora eu tivesse uma excelente relação com o 2º Cmdt, o então Major Moreira Campos, um oficial muito apreciado por todos nós (felizmente ainda vivo e que esteve presente, em 17 de Maio último, no almoço da nossa Companhia).
Bebida vai, bebida vem…..o fresco do gelo ……o calor a pedir mais e mais... Enfim já todos sabemos como, normalmente, as coisas acabam, ou seja, muitos de nós estavam, obviamente, com os copos.
Pela madrugada o grupo veio para a parada do quartel para tentar apanhar algum fresco da noite e alguém referiu que o Alf. R. C. estava bem bebido, ao que ele retorquiu que não senhor e que era capaz de, inclusive, subir ao pau da bandeira. Estimulado pelos outros, lá se atreveu a iniciar a árdua tarefa, que ia cumprindo com dificuldade, perante o riso dos restantes.
A determinada altura, quando o Alf. R.C. já ia para lá do meio do mastro, este, com o seu peso, dobrou-se até nós, parecendo querer cumprimentar-nos. Debandada geral.....!!!
No dia seguinte, logo pela manhã, ouvia-se os impropérios do nosso Cmdt.
- Quem foi o f.d.p..!!!! Quem fez esta mer…!!! Sacanas….!!!!
O homem ficou num desespero, sabendo perfeitamente que tinha havido uma festa e que muito provavelmente teriam sido os participantes os seus autores e eu….., muito especialmente, o culpado. Embora, nunca me tivesse perguntado nada, andou uns dias a olhar-me de soslaio. Mal sabia ele que o autor material (e nós cúmplices) era, possivelmente, o único que ele não pensaria que fosse - o nosso médico, o Alferes Rui Coelho, que tinha vindo substituir, uns tempos antes, o anterior, o Dr. Pereira Coelho, que tendo sido evacuado por doença, já não regressara ao Batalhão, porque depois foi nomeado Director do Hospital de Bafatá. O pau da bandeira lá foi endireitado e continuou a cumprir a missão para que foi criado, que era suportar o peso da Bandeira Nacional, bem mais leve que o brincalhão do médico que, nos dias seguintes, instado pela malta, dizia não se lembrar de nada - pudera, o whisky era do bom....!!!


Parada do Quartel de Galomaro, com o célebre pau da bandeira, já direito.

OS ALMOÇOS NO RESTAURANTE DO LIBANÊS EM BAFATÁ
As colunas de reabastecimentos do Dulombi eram um ponto alto na nossa actividade operacional, porque íamos almoçar a Bafatá. Arriscava-se a vida, mas fugia-se à rotina da comida do nosso quartel e sempre íamos passear um pouco numa cidade.
De facto, depois de efectuarmos a recepção dos materiais e produtos em Bambadinca, a coluna seguia para Bafatá, para todos nos reunirmos no Restaurante/Pensão do Sr. Anirof, (pelo menos o nome será parecido) o Libanês, para nos deliciarmos com o seu bife à Bota (um bife alto e quadrado) regado com um bom vinho verde, seguido da sobremesa, com o delicioso nome de “minete” (Esta agradeço ao camarada Joaquim Mexia Alves, Ex-Alf.Mil. da C.CAC 3492/Xitole, que me recordou deste regalo).
Este nosso amigo libanês gostava imenso da nossa Companhia, que ele dizia ser um caso raro, em que desde o capitão ao soldado, comiam todos na mesma mesa – o que era de facto verdade – parecia que naquele restaurante, embora com o devido respeito, éramos civis, almoçando como amigos, tentando esquecer naqueles belos repastos, a guerra. Embora, numa das vezes, em que eu me atrasei, por ter ficado a tratar de uns assuntos em Bambamdinca, o Furriel Gonçalves que ficou a comandar o grupo, foi interpelado pelo Comandante do Batalhão de Bafatá, por estar a almoçar com os praças na mesma mesa – havia que acautelar a disciplina, mesmo que fosse num restaurante civil. Haveríamos de ter mais problemas com este comandante, perto do fim da comissão, devido ao nosso fardamento, pois utilizavámos chapéus que não eram das NEPs (os quicos estavam todos rotos, o que o levou a queixar-se ao nosso Cmdt de Batalhão, que nos ordenou que levássemos os quicos para Bafatá, mesmo estando no estado em que estavam. Na verdade, alguns soldados tinham do quico apenas a pala e os bicos de trás, em cima quase nada).
O libanês gostava tanto de nós, que também perto do fim da comissão decidiu oferecer-nos um almoço à borla.
Tenho saudades desse excelente bife, amigo libanês e da simpatia das suas filhas.
Quando vínhamos de regresso, ao Dulombi, parávamos em Galomaro para levar correspondência ou trazer pessoal que estivesse de diligência e depois continuávamos, parando novamente a seguir ao aldeamento de Mali Bula, antes da bolanha do Rio Fandaré – uma zona de mata fechada (onde uma viatura da CCS haveria de rebentar uma mina A/C). A partir daqui as coisas fiavam fino, podiam ser perigosas e portanto, reorganizava-se a coluna e se houvesse algum efeito…. produzido pelo fausto almoço (Hips!Hips!) desaparecia imediatamente (os vapores eram levados pelo vento, como milagre) e o pessoal recuperava a sua operacionalidade e passava a atenção redobrada, até chegar ao Dulombi.


Vista de Bafatá, estando do lado direito, a azul, o restaurante/pensão do Libanês

Luís Dias

1 comentário:

XITOLE disse...

Já agora, caro Luis Dias, penso que era aí também que era servido o famoso "rancho", uma mistura de diversos ingredientes culinários e que era um "manjar dos deuses", dadas as circunstâncias em que estávamos envolvidos.
Ia aí almoçar algumas vezes com o Cap. Bordalo da C Caç 12 e seus Alferes, de unimog, os 5 armados como devia ser, mas nunca tivémos problemas nesse troço entre Bambadinca e Bafatá.
Abraço camarigo do
Joaquim Mexia Alves