sexta-feira, 24 de abril de 2009

O NOSSO REGRESSO E O 25 DE ABRIL 35 ANOS DEPOIS

Estavas tu bom português posto em sossego.....quando foste enviado para combater numa guerra!

"PARA QUÊ SOLDADO ?"

Choras!
Perdido na imensidão deste mato
Sentinela esquecida na terra
Soldado estou em ti
Que perdes juventude com um sorriso nos lábios
Porquê tanta demora?
Anos de temor insensato
A pensar, obstinadamente, na guerra
Liberdade deitada fora!

Porquê morrer aqui?
Ficarão oito séculos de história com nexo?
Sentes-te maltratado, maleável
Com muito fumo atirado nos olhos
Sempre triste e abatido
Vives infeliz, mesmo contigo
O teu esforço é insuperável
Será que faz sentido?

Porque te mata o inimigo?
Porque luta ele também?
Se o ganho não é teu
E a sorte já está lançada
Tens a garganta seca
Viras o cantil e …nada!

Deixaste a tua gente
O teu campo, a tua cidade
O suor que gastas não é para o teu pão
Se derramas aqui o sangue
Se perdes a tua mocidade
Eles esquecem, porque não há razão!

Nesta constante de morte certa
Abre os olhos e usa a arma sempre levantada
Sente o perigo à tua volta
Inquieta-te! Acorda! Ergue-te!
A pátria que te espera é uma vastidão deserta
Que necessita de ser abanada

Dulombi, 5 de Março de 1973

Luís Dias


«Trova do Vento que Passa» (Extractos)

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoa
sai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

"As mãos"

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas
mas de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Do "O Canto e as Armas" 1967

Manuel Alegre

Regressámos a 4 de Abril de 1974 e, uns dias depois, o amanhecer da nossa esperança - o Dia 25 de Abril. O Movimento das Forças Armadas, que iniciara as suas reuniões na Guiné, libertava todo um povo, toda a nação e punha os nossos corações em alvoroço, dando um novo sentido às nossas vidas. A paz estava a chegar. Não mais mães e meninas de olhos tristes, a chorar. "Desta vez o soldadinho vai mesmo de África chegar".

"Maré Alta"

Aprende a nadar, companheiro
aprende a nadar, companheiro
Que a maré se vai levantar
que a maré se vai levantar
Que a liberdade está a passar por aqui
que a liberdade está a passar por aqui
que a liberdade está a passar por aqui
Maré alta
Maré alta
Maré alta

Sérgio Godinho
Salgueiro Maia, um dos Capitães de Abril (Ex-Cmdt da CCAV 3420 - Guiné 71-73)



sábado, 18 de abril de 2009

GRANDE ALMOÇO-CONVÍVIO DA C.CAÇ 3491 - MAIO DE 2009





ALMOÇO DE CONFRATERNIZAÇÃO DA C.CAÇ 3491 “GUINÉ 71-74” MAIO DE 2009


Caro Amigo e Camarada de Guerra

É com enorme prazer e alegria que vimos convidar-te para mais um Almoço-Convívio entre os elementos da Companhia de Caçadores 3491.

Lembramos que neste ano comemoramos os 35 anos da chegada ao nosso país, depois de cumpridos 27 meses e meio de Guiné (4 de Abril de 1974) e vamos, com certeza, recordar aqueles autênticos “campos de férias” (Dulombi, Galomaro, Paiai Lemenei, Rio Corubalo, Vendu Cantoro, Vendu Columbai, Bangacia, Samba Árabe, Campata, Rio Mondajane, Padada, Jifim, Cansamba, Umaro Cossé, Samba Cumbera, Mali Bula, Dulô Gengele, Pate Gengele, Sincha Bucô, R.Canhanque, Sangue Cabonga, Sarrancho, Deba, etc….) e também a imensa camaradagem e sincera amizade que nos uniu e une. Ainda, relembrar os camaradas que já partiram e que nos deixaram uma infinita saudade.

Caso saibas de algum camarada que, por qualquer motivo, não tenha ainda participado nos nossos encontros anuais, envia-lhe o convite ou fala-lhe deste encontro. O convívio é ainda aberto a camaradas do Batalhão ou que tenham estado na Guiné e que queiram participar desta reunião, bem assim, como é hábito, às nossas famílias.

O Almoço-Convívio terá lugar no próximo dia 16 de Maio (Sábado), a partir das 10H00 da manhã, em São Martinho de Antas, Concelho de Sabrosa, Vila Real.

A Concentração efectuar-se-á no Largo do Eiró, no centro de S. Martinho. Às 11H00 faremos uma visita à casa e ao busto do escritor filho da terra, Miguel Torga. Às 11H30, será celebrada uma missa de Acção de Graças, na Capela de Nossa Senhora da Azinheira e às 12H00 partiremos para o Restaurante Constantino, onde será servido o almoço.

O almoço será antecedido de entradas típicas de Trás-os-Montes e depois teremos, como não podia deixar de ser, a boa vitela e o bom cabrito assado desta região. Serão servidas as sobremesas e a acompanhar o repasto, os bons vinhos da zona.
O preço é de 30 euros por pessoa.
Resta pedir que tragam apetite e que confirmem para o organizador a vossa presença até ao dia 30 de Abril de 2009

ORGANIZADOR: António Augusto de Jesus Pinto Melro
S. Martinho de Antas

Telefone: 259 939 659
Telemóvel: 934 557 883



“OS DENTES ESTÃO ENVELHECIDOS, MAS AINDA OS
MORDEMOS! ESTAMOS VIVOS!”

COMEMORAÇÃO DOS 35 ANOS APÓS O REGRESSO.

VALOROSA CCAÇ 3491 QUE TANTO
PERCORRESTE……!!!!

“É MUITO!”

Junta-se mapa de acesso ao local do Almoço-Convívio para uma melhor localização.











sexta-feira, 17 de abril de 2009

A TRAGÉDIA DO QUIRAFO

Caros Camaradas e Amigos

Faz hoje precisamente 37 anos (dia 17 de Abril de 1972) que se deu a fatídica emboscada do Quirafo, a uma coluna da CCAÇ 3490 (Saltinho), causando 12 baixas (9 militares (entre eles, um alferes e um furriel), 1 sargento milícia e 2 elementos da população local), diversos feridos entre a nossa tropa, na milícia e em elementos da população e ainda um militar feito prisioneiro. Foi uma das maiores acções de guerra do PAIGC neste tipo de operações.

A todos aqueles que nesta acção perderam a vida, ficaram feridos, ao militar aprisionado, a todos os familiares que, ainda hoje, sofrem pela ausência dos entes queridos, o nosso sincero respeito, a nossa solidariedade e a tristeza pela juventude que naquele tempo se perdeu.

Junto, em seguida, a mensagem por mim enviada ao blogue do Luís Graça & Camaradas da Guiné, sobre este assunto e que ali foi publicada.

Mensagem de Luís Dias, ex-Alf Mil da CCAÇ 3491/BCAÇ 3872, Dulombi e Galomaro, 1971/74, com data de 19 de Março de 2009:

Caro Luís Graça

O camarada Paulo Santiago(*) veio lembrar uma das piores emboscadas que ocorreram na Guiné, em que estiveram envolvidos elementos da CCAÇ 3490, pertencente ao meu Batalhão – o BCAÇ 3872 (Galomaro).

Foi um dia terrível, um desastre em que morreram 9 militares, 1 sargento milícia e 2 elementos da população ao nosso serviço, havendo ainda a lamentar diversos feridos e a captura do soldado António Baptista(**) pelos guerrilheiros.

As causas para o sucedido poderiam ser melhor explicadas pelo ex – Capitão Mil, Dário Lourenço, se quisesse vir ao nosso blogue elucidar-nos sobre os detalhes que determinaram o avanço da coluna naquela maldita segunda-feira, dia 17 de Abril de 1972, dado que o Comandante da Operação foi morto em combate na emboscada que se sucedeu. Não tendo essa possibilidade, resta-nos falar do que passou a constar no nosso batalhão.

A CCAÇ 3491/BCAÇ 3872 recebeu ordens para reabrir a picada Dulombi - Jifim, que se encontrava em mau estado de conservação, porque deixara de ser utilizada, após o rebentamento de uma mina anti-carro que causou mortos na Companhia que fomos render – a CCAÇ 2700 (6 mortos– 1 soldado e 5 milícias) e, em Abril de 1972, iniciou essa tarefa, empenhando diariamente um Grupo de Combate na protecção dos trabalhos, em que estavam envolvidos elementos civis contratados para esse fim. Também a CCAÇ 3490/BCAÇ3872 (Saltinho) recebeu ordens, na mesma altura, para reabrir a estrada Quirafo – Rio Cantoro.

A Operação "Estrada Junta" iniciou-se, ao que presumo, em 10 de Abril de 1972. Diariamente foram cumpridas as tarefas, com mais ou menos dificuldade, embora sem quaisquer problemas operacionais até ao dia 18 de Abril. De facto, na zona em que rebentou uma mina anti-carro que matou elementos da CCAÇ 2700 e no meio da picada, foi detectada e levantada uma mina anti-pessoal PMD-6, pelo 2.º GComb (por mim comandado). A mina fora colocada naquela parte da picada (ao meio), em que o capim cresce melhor, dificultando a hipótese de ser detectada. Na realidade, caso fossemos em patrulha pelo local, poderíamos estar a lamentar uma desgraça. Eu próprio, estive com um pé muito perto dela, porque estava a ouvir os elementos das milícias a explicarem o que sucedera naquele local aos camaradas da 27$00. Só que prossegui e um dos elementos civis que vinha a efectuar a capinagem da estrada, logo atrás, bateu com a ponta da catana na madeira da mina, sendo então esta detectada e levantada com os habituais cuidados para estas situações.

A emboscada do Quirafo dera-se na véspera e estávamos todos ainda consternados pela morte de tantos camaradas da CCAÇ 3490 e eu muito especialmente porque me dava muito bem com o Alf Mil Op Esp Armandino Ribeiro (um dos mortos naquele combate), porque quer em Abrantes, quer no IAO (Cumeré) na Guiné, tínhamos treinado acções em emboscadas e reacção às mesmas, com os nossos Grupos. Logo a seguir foi dada ordem para pararmos com os trabalhos, ao que parece por iniciativa do próprio Comandante-Chefe, ficando a reparação da estrada por terminar, embora tivesse sido muito pouco utilizada posteriormente (unicamente em uma ou duas Operações em que foram envolvidas forças dos pára-quedistas e em que houve necessidade de os colocar e recolher em zonas mais perto do Rio Corubal).

Mas este relato prende-se, essencialmente, para referir um facto. No nosso caso, iniciaram-se os trabalhos de arranjo da estrada e quando chegámos ao fim-de-semana, as ordens foram de non-stop, ou seja mantivemo-nos sempre a trabalhar (Sábado e Domingo) o que parecia já ser uma tradição, porque também na nossa primeira Operação, após a saída dos velhinhos, na qual tivemos o primeiro contacto com o inimigo, se iniciara a mesma num fim-de-semana. Infelizmente, no caso do Quirafo, de má memória, a CCAÇ 3490, parou os trabalhos na 6.ª Feira, para os reiniciar na 2.ª Feira fatídica de 17 de Abril, dando a possibilidade do IN organizar a emboscada, com recurso, inclusive, a um canhão sem recuo, tendo o fim-de-semana todo para escolher o local e estabelecer o plano de fogos para a zona de morte.

E aqui alguma coisa nos escapa, o porquê desta decisão? As circunstâncias que levaram o Comando a ordenar o avanço da coluna de trabalhos se, segundo alguns dizem, sabiam que alguém vira o IN nas imediações e estavam alertados para este facto. Sei que o Armandino era uma pessoa generosa, disciplinada, imbuída do espírito do cumprimento dos deveres militares – um Ranger - e que, talvez nessa sua vontade de efectuar o serviço que estava previamente determinado, não tenha feito a correcta avaliação da situação, ou não tenha achado credível a informação obtida e o seu avanço com o seu GCOMB reforçado para o Quirafo, tenha sido feito sem as cautelas que, face às informações aparentemente disponíveis, se impunham, nomeadamente um avanço apeado, em vez de motorizado e ainda uma melhor distribuição do seu pessoal, talvez difcultasse aquele tipo de emboscada. Quem sabe... o que teria sido melhor?

A emboscada ainda poderia ter feito mais mortos, pois as viaturas não chegaram a cair totalmente na denominada zona de morte, dado que o condutor da primeira viatura avistou um elemento IN e lançou a viatura para a berma da estrada e a outra conseguiu retroceder e fugir da zona.

Este desastre deu-nos algumas lições, nomeadamente a sair com viaturas com os taipais erguidos, como acontecia na segurança que se fazia na estrada Piche-Buruntuma, em que o 3.º GComb da nossa Companhia quando ali esteve de apoio ao Batalhão daquela área, chamou a atenção para que as viaturas tivessem, como já era habitual em outros locais, os taipais retirados e os bancos colocados ao meio.

O nosso Batalhão chegara à Guiné em 24 de Dezembro de 1971 e aos seus locais de destino um mês depois do IAO no Cumeré. Em Abril de 1972 (em apenas 3 meses), depois da emboscada no Quirafo, o Batalhão sofrera 4 mortos em Cancolim (1 numa mina a/c e 3 numa flagelação ao aquartelamento da CCAÇ 3489) e 9 na emboscada do Saltinho (CCAÇ3490), tendo a CCAÇ 3491, tido a sorte de não ter sofridos baixas no contacto/emboscada sofrido em 11 de Março, na área de intervenção do Dulombi, ao seja 13 mortos em tão pouco tempo de Guiné.

No fim da comissão, já em Bissau, o Comando do Batalhão foi alertado por um soldado da CCAÇ 3489 (Cancolim), que fora feito prisioneiro do PAIGC e que conseguira evadir-se e que lhes referiu que o soldado António Baptista, dado como morto em combate na emboscada do Quirafo, estava vivo e era prisioneiro do PAIGC.

Nesta altura, apenas uma prece por todos aqueles que tombaram no Quirafo. Paz às suas almas.

Luís Dias

Foto feita pelo Ex-Alf.Mil, Paulo Santiago (que ao tempo comandava o PELCAÇNAT53 do Saltinho), em 2005, no local da emboscada e onde ainda se encontra a viatura GMC, onde seguia a maior parte dos elementos que perderam a vida. Foto colhida do blogueforanadaevaotres.blogspot.com, com a devida vénia.

Paulo Malu (actualmente), Comandante das Forças do PAIGC que efectuaram a emboscada no Quirafo. Foto obtida no blogueforanadaevaotres.blogspot.com, com a devida vénia.


O soldado António Baptista-Atirador de Infantaria, que foi feito prisioneiro no Quirafo, a depositar flores, na campa que tinha o seu nome, após a sua libertação e regresso ao nosso país, em Setembro de 1974 (JN).

O António Baptista, em foto recente, apelidado do "Morto-vivo do Quirafo", retirada do bloguenovesforanadaevaotres.blogspot.com, com a devida vénia.

sexta-feira, 20 de março de 2009

AO PORFÍRIO DIAS, QUE TAMBÉM FOI SOLDADO EM ÁFRICA

Caderneta Militar do Porfírio Dias

Porfírio Dias - Especialidade: Enfermagem /Ainda na metrópole (1940)

Porfírio Dias em Cabo Verde, com a braçadeira de enfermagem e com pistola à cintura.
Em baixo: À porta da enfermaria na Ilha de S.Vicente, com outros camaradas enfermeiros e com o Alferes médico (o que não tem bata branca).
No Mindelo, com outros camaradas do batalhão (de bata branca).

Foto tirada em Cabo Verde, depois do incidente que o obrigou a usar óculos para sempre.

Querido pai,

Hoje é dia 19 de Março, dia de S. José, dia do pai. O teu neto telefonou-me de manhã a combinar almoçar comigo. O Daniel não se esqueceu aqui do “velho”, do “cota” como agora eles dizem. Vamos estar juntos. Também gostaria que pudesses estar aqui connosco, mas a vida levou-te há já alguns anos, mas continuas bem presente no nosso coração.

Mas neste dia queria lembrar que também tu foste mobilizado e enviado para Cabo Verde, no tempo da 2ª Guerra Mundial, que cumpriste também um dever que te foi imposto pelo teu/nosso país. Sei que a tua comissão não teve os riscos de combate, de guerra, como eu tive na Guiné, embora se falasse da possibilidade de um ataque alemão ou mesmo inglês, conforme o governo de Salazar se fosse inclinando para um lado ou para o outro, mas houve outros perigos: muita fome, doenças e as desgraças que assististe por força da tua especialidade. Foste também vítima da habitual falta de material para cumprir com o necessário cuidado as tarefas de que eras incumbido, como Soldado Auxiliar-Enfermagem. E foi por teres utilizado umas luvas já deterioradas numa intervenção cirúrgica, em que apoiavas o médico, que depois ao tocares com os dedos num dos teus olhos, arranjaste o problema que te obrigou a usar óculos desde então.

Aqueles tempos de 18/7/941 a 7/5/44 (2 anos e 10 meses!!!!), em terras de Cabo Verde, não terão sido pêra doce e lembro-me da história que tu contaste do submarino alemão que atracou e que depois de instado a sair de águas portuguesas, os alemães mantiveram-se calmamente no local e só se foram embora quando lhes apeteceu. Mas também das mornas que tu ficaste a adorar, como adoravas o fado. E a porrada que apanhaste e que está na tua caderneta, por estares no refeitório a atirar bolinhas de pão aos teus camaradas. É mesmo para rir…!!! Não havia mais nada para os teus superiores se entreterem? E um dos louvores por teres agarrado o cavalo do comandante que tinha tomado o freio nos dentes…. e que tu dizias que só o agarraste porque não sabias que o cavalo estava enlouquecido...porque se soubesses deixava-lo fugir!Ah!AhAh!

Lembro-me da alegria que tiveste quando fui promovido a Aspirante a Oficial Miliciano e se a mãe chorava, quase diariamente, como tu me contaste, quando eu estava na Guiné, ela também me contou das tuas lágrimas quando aos fins de semana me ajudavas a levar a mala até às camionetas, que me levavam a Mafra e depois a Abrantes de regresso ao quartel. Sempre te fizeste de forte, mas eu sei o quanto também sofreste, enquanto eu por África andava. Imaginavas os horrores que podia estar a enfrentar, pensando no que tu também passaras.

Foste tu que me encaminhaste para a minha profissão quando me trouxeste o anúncio do concurso para investigadores da Polícia Judiciária, em 1975 e ficaste todo orgulhoso de eu ter entrado. Deus não te deu o tempo de assistires enquanto eu fui progredindo na carreira e nomeado Director do Departamento de Armamento e Segurança, pelo Ministro da Justiça, 25 anos mais tarde.

O Daniel teve a sorte da liberdade conquistada pelo 25 de Abril lhe proporcionar ser o que ele quer. Sabes que ele tocou durante alguns anos, como guitarrista, numa banda rock – os Aside, que era, como tu te lembras, um dos meus sonhos. A banda fez 2 cd´s e diversas Tours por Portugal, pela Europa e pelo Canadá. Tocou no Festival de Vilar de Mouros, em 2005.

O socialismo que tu, a mãe e eu tanto apoiámos, é que já não mora aqui. Tem estado a morrer às mãos de uns tantos governantes tecnocratas que enfadam e corroem este nosso país.

A tua mulher (a minha mãe) tem sido sempre um apoio presente na minha vida e na do neto e pese embora a sua doença, as diversas passagens pelo hospital, continua a ter força para viver e conviver connosco. Como escreveu um camarada do meu batalhão num texto muito bonito sobre a mãe – para todas as mães – reconheço que algumas das rugas que ela tem, possam ter sido causadas por mim, pelo tempo que estive na guerra, mas olha que outras devem-se a ti, por teres partido tão cedo e sabes que tiveste alguma culpa nisso (maldito tabaquinho).

A nossa Lisboa, continua linda e o Tejo, com o qual tanto conviveste, em virtude da tua profissão (Conferente Marítimo), está hoje mais perto da cidade, numa aliança muito importante para os lisboetas.

Preocupações tem-nos dado o nosso Benfica, que está um pouco longe do que era no teu tempo, mas eu e o Daniel mantemo-nos fiéis ao clube que, aos Domingos, indo contigo ao antigo Estádio da Luz, aprendi a amar. Sabes que o teu neto é Mestre em artes marciais (Taekwondo Do) e dá aulas, especialmente a miúdos, tendo começado também no SLB e já conseguiu alcançar alguns títulos com eles.

Pai, estou a invocar-te aqui no blogue da minha companhia, porque tu também foste um mobilizado para África. Um, entre os muitos milhares que a Pátria foi lançando para as terras bravas e quentes daquele Continente. Foste um soldado português, como nós fomos. O país, como aos combatentes da 1ª Grande Guerra, onde o meu avô também esteve, aos do teu tempo, aos da Índia e a nós combatentes da guerra colonial, nunca nos agradeceu, porque é ingrato ou, se calhar, também não mereceu tanta brava gente.

Um abraço saudoso de teu filho. Um dia, quando Deus quiser, iremos voltar a abraçar-nos.

Luís Dias

Em memória de Porfírio António Dias, natural dos Anjos – Lisboa, nascido em 30 de Julho de 1919, Conferente Marítimo Reformado, casado com Venina Antunes Fernandes Dias, nascida em 1927, natural de S. João da Praça - Lisboa, falecido em Lisboa a 8 de Março de 1988.
Recebeu em Fevereiro de 1943, no Mindelo-Cabo Verde e do Comandante de Batalhão o louvor militar seguinte: Louvo pelo muito zelo com que tem desempenhado as suas funções no Posto de Socorros na Enfermaria do Batalhão, muitas vezes com o prejuízo da sua própria saúde, dando com a sua actividade, execelente exemplo de dedicação pelo serviço e pela saúde dos seus camaradas e manifestando-se assim um óptimo auxiliar do Senhor Oficial Médico.

terça-feira, 10 de março de 2009

OPERAÇAO "ALMA FORTE"

Emblema do 2º Gr. Comb. da C.CAÇ3491 - Os "Lenços Azuis do Dulombi"

Faz hoje, 11 de Março de 2009, 37 anos (tanto tempo decorrido), que elementos da CCAÇ3491, pertencentes ao BCAÇ3872, que tinham chegado `a Guine em 24 de Dezembro de 1971 e ao Dulombi (Leste), em 24 de Janeiro de 1972, tiveram o seu primeiro contacto com os guerrilheiros do PAIGC.
Os “velhinhos” saíram do Dulombi em 10 de Março e, no dia seguinte, 11 de Março, o 2º e 3º Grupos de Combate, comandados respectivamente pelo Alf. L. Dias e pelo Alf. Farinha, reforçados por uma Sec. do Pel. Mil.288, iniciaram Operação "Alma Forte", com a duração de dois dias (Sábado e Domingo - fim de semana maravilhoso!), com a finalidade de reconhecer e armadilhar os pontos de passagem do IN no R. Corubalo.
A primeira parte do percurso decorreu sem problemas, mas depois de invertermos a marcha e pelas 18H30, quando parámos para descansar junto ao Rio Lemenei/Paiai Lemenei (a cerca de 20 km do Dulombi), uma zona de mato denso e arborizado, tivemos o nosso primeiro contacto com o IN, estimado em 40/50 elementos.
Nos primeiros momentos de troca de tiros houve alguma dificuldade na resposta ao fogo do adversário, que utilizava armas automáticas e roquetes/morteiros, em especial na utilização dos nossos morteiros e dos dilagramas, devido às condições adversas do local. Só quando conseguimos sair daquela mata e depois de lançarmos várias granadas de morteiro 60 mm, que terão atingido fortemente o adversário é que este iniciou a retirada, a coberto da noite que, entretanto, tinha caído.
Devemos salientar nesta emboscada a actuação do Furriel do 2ºGr Comb, Espírito Santo, o “Pira”, que fixou com a sua Secção o fogo inimigo, permitindo a saída do restante pessoal da parte densa da mata e a actuação do soldado At. Manga Camará (Guineense experiente), do 3º Gr. Comb., que tomando conta do morteirete de 60 mm, colocou-o à barriga (um feito difícil de acreditar para quem não viu) e disparou diversas granadas que mudaram o rumo dos acontecimentos (sentimos que o IN deixou de ripostar com a mesma intensidade). De salientar ainda a actuação do 1º Cabo, Amílcar Costa, também do 2ºGr.Comb, que, alertado por um camarada (o “Amarante”que foi o primeiro a avistar um elemento do IN e deu o alarme), viu esse guerrilheiro IN e foi o primeiro atirador da nossa companhia a efectuar fogo sobre os elementos inimigos, com a sua Met. Lig. HK21, só parando quando a mesma se encravou por problemas na fita alimentadora.
Do confronto resultou para o IN, pelos vastos vestígios de sangue encontrados, nomeadamente junto ao local onde fora avistado o guerrilheiro, pelo material diverso abandonado e pela rádio do PAIGC (que confirmou baixas, o que era raro, embora referindo que a nossa tropa tinha sofrido oito mortos), tiveram baixas não controladas e a apreensão de 11 granadas de RPG7 /RPG2, entre outro material e equipamento diverso. As nossas forças sofreram dois feridos ligeiros e a sorte de outros elementos terem recebido tiros que lhes atravessaram os cantis, os carregadores, as camisas ou dólmens....enfim uma grande sorte!!!
O reconhecimento feito posteriormente levou-nos a concluir que o IN estaria naquele mesmo local a descansar, possivelmente a preparar-se para ir atacar o nosso aquartelamento, tendo sido surpreendidos pela nossa chegada. Colhemos diversos ensinamentos do acontecido, que nos serviriam para o futuro em outras acções.
Esta acção mereceu das diversas cadeias de comando as seguintes referências elogiosas:
-Do Cmdt BCAÇ 3872 msg nº70/03:"Felicito êxito obtido. Transmita pessoal dessa minha satisfação";
-Do Cmdt CAOP2 (Agrupamento de Batalhões daquela área) msg nº952/0: "Felicito tão auspicioso começo";
-Do Cmdt Chefe -REP OPER msg nº984/C: "Cmdt Chefe felicita essa reacção à emboscada do In durante OP "Alma Forte", reveladora de determinação".
O 2º Gr.Comb, passou a utilizar como lema, posto no seu "crachat", o nome da operação que provocou o primeiro contacto com o IN - "Alma Forte".

sábado, 7 de março de 2009

FOTOS DA CCAÇ3491 - VOL.15

A Instrução Especial - RI nº2, em Abrantes (Setembro-Novembro de 1971). A maioria destes elementos veio a compor o 2º Gr. de Combate (Alf.Dias ao centro), da C.CCAÇ3491, que esteve a cumprir a Comissão de Serviço na Guiné, entre 24 de Dezembro de 1971 e 28 de Março de 1974.
Coluna Galomaro-Dulombi-Galomaro (2ºGr.Comb. 1973) E/D Alf.Dias, Sold. Joaquim Pedro, 1º Cabo Amílcar Costa, Sold. Antero e Cond. Auto Baptista.


Coluna de Escolta (2º Gr.Comb) Galomaro-Cansambo-Galomaro (1973), ao fim da tarde, para deixar um Gr.Comb. emboscado naquela zona, durante parte da noite.

Festa em Galomaro Março de 1973 (E/D) Fur. Castanheira (já falecido), Cap. Pires e outros não identificados. À direita e a rir (Of.de Dia), Alf.Dias, (de frente e com óculos) o Alf. Vasconcelos. Ao fundo o Fur. E.Santo e o Fragoso.

O Alf Dias, a efectuar uma defesa para a fotografia (Dulombi 1972)

Binta com amigas a lavar a roupa na bolanha de Galomaro - 1973.
" Tirem-me daqui!" -Alf. Dias na última fieira de arame farpado. Aquartelamento do Dulombi - Lado da Mílicia e da População - 1973.

Alf. L. Dias -Pôr do sol no Dulombi - 1973









sexta-feira, 6 de março de 2009

ARTIGO DE OPINIAO SOBRE OS ACONTECIMENTOS NA GUINE

João Carlos Barradas (Jornal de Negócios On Line – 4 de Março de 2009)
Os tratos da Guiné
Logo em Novembro de 1980, quando Nino Vieira derrubou Luís Cabral, a Guiné-Bissau perdeu qualquer hipótese de estabilidade.
Consumada a ruptura entre os dirigentes de origem cabo-verdiana e os líderes guineenses o novo estado ficou ainda mais dependente dos interesses dos vizinhos Senegal e Guiné-Conacri.
Os conflitos étnicos que extravasam as fronteiras coloniais, recrudesceram e, sem quadros nem projectos, a Guiné-Bissau afundou-se ainda mais na miséria e nas rivalidades de uns quantos homens de armas na mão.
Nos últimos anos um Estado sem lei tornou-se presa fácil dos traficantes latino-americanos que transformaram a Guiné-Bissau numa placa giratória do tráfico de cocaína para a Europa.
A entrada em força do dinheiro do narcotráfico num dos países mais pobres do mundo subverteu o que ainda restava das estruturas administrativas e corrompeu sem remédio as forças armadas e a polícia.
As desavenças pelo controlo das escassas receitas que o caju, o marisco ou arroz proporcionavam, os confrontos pelo lucros de contrabandos e tratos diversos, passaram a assumir um cunho ainda mais virulento.
O enredo do mata-mata.
As tradicionais rivalidades entre as etnias da Guiné tiveram nos últimos meses o seu paroxismo no confronto armado entre os homens fiéis a Nino Vieira e outros que juravam pelo chefe do estado-maior, Tagme Na Waie.
Não por acaso eram balantas quem apoiava o homem-forte do exército, enquanto as gentes da minoritária etnia papel se mantinham ao lado de Nino.
Em Novembro Na Waie tentou matar Nino e falhou.
Em Janeiro foi a vez de Nino falhar um ataque a Na Waie.
No Domingo alguém próximo do presidente matou à bomba Na Waie e em retaliação tropas balantas acabaram com Nino à bala e à catanada.
O mata-mata entrara, aliás, nos lances finais logo em Dezembro, quando Nino perdeu o seu protector de sempre, o presidente eterno de Conacri, Lansana Conté.
A partir de agora a Guiné-Bissau poderá ou não cair outra vez numa guerra civil em larga escala como aconteceu em 1998.
Com o Senegal e o conflito de Casamansa em fundo e tráfico de armas pelo meio, o brigadeiro Assumane Mané tentou, então, aniquilar Nino e o presidente partiu para o exílio.
Mané acabou morto dois anos depois noutro confronto com o presidente Kumba Yalá, mas um dos homens que esteve a seu lado contra Nino, Na Waie precisamente, continuou à frente das tropas, maioritariamente balantas.
Era fatal que, cedo ou tarde, Nino matasse Na Waie, tal como abatera em 1986 outro general balanta, Paulo Correia (a). Nestes enredos ninguém esquece quem mata e dá a matar.
Ou, então, era de esperar que Na Waie matasse Nino. Acabaram por morrer os dois.
A coca em fundo.
Agora, é possível que tudo continue a apodrecer e meia dúzia de homens fortes repartam o poder por uns tempos.
É crível que a miséria de milhão e meio de guineenses seja insanável num futuro próximo.
Tudo é possível no meio da desordem, mas certo e seguro é que num estado falhado como a Guiné-Bissau só uma forte presença militar e policial estrangeira que comece por conter o tráfico de droga possa vir a dar alguma credibilidade a qualquer esforço de estabilização.
Mas é melhor não contar muito com isso.
Os tratos da Guiné sempre foram uma coisa brutal.
(a) Paulo Correia foi o Comandante da Frente Bafatá-Gabu Sul, do PAIGC, responsável pelos ataques à zona do nosso Batalhão.