sexta-feira, 25 de setembro de 2026

 


Em honra da memória do camarada pára-quedista Sargento-Mor, António Dâmaso, recentemente falecido, que há alguns anos me enviou a história da sua estadia no Dulombi e zonas adjacentes, aqui volto a reproduzir o que me contou.


Os Páras na nossa zona de intervenção. 

 Operação Dulombi Camarada Luís Dias, como estou um pouco calão, para não estar a escrever tudo de novo, mando te aqui uns escritos que fui copiar, espero que fiques com uma ideia. 

No dia 11JUL69 embarcamos nas viaturas com destino a Galomaro e aí tomamos os helis para a operação «Sátiro» que durou dois dias na zona de Padada-Jábia além da CCP123, participou a CCAÇ 5, no dia 12, fomos recuperados de Heli para um Acampamento e deste para Nova Lamego, de onde seguimos via auto para Bafatá, quando estávamos a chegar vimos os Helis a aterrar pela ordem de aproximação e o Heli-canhão a dar mais uma volta tendo tocado com a ponta da Hélice numa das antenas rádio, enrolou vindo a despenhar-se no solo. Como se incendiou, as munições do canhão começaram a rebentar em todas as direcções sem que nada se pudesse fazer para os tirar daquele inferno de chamas, aquela cena lancinante, causou-nos a todos grande consternação e pesar, ali ficaram mais duas vidas a do piloto e do apontador do canhão. 

Nos dias 17 a 19JUL69, outra vez na zona de Padada concretizamos a operação «Marduque» desta vez só com a CCP123. De 24 a 30JUL69, operação «Atena», zona de Duas Fontes e Padada, com a participação de 3GC da CCP123, 1GC da CCP 121 e a CCAÇ 2446. Depois apareceu a minha grande dor de cabeça, que era a Guerra de quadrícula, sempre tive o entendimento de que as tropas especiais, eram para intervenções rápidas, ou não, também para servirem de reserva, mas pelos vistos, a situação não estava para brincadeiras. Comecei a operação «Nereu» 1.ª fase que foi de 31JUL a 31AGO69 nas zonas de Madina do Boé, Dulombi, Bilonco e Madina Xaquili, actuaram connosco além da CCP123 a CCAÇ 2405 e CCAÇ 2446. Lembro-me que numa das operações de dois dias, tivemos de atravessar o mesmo rio, quatro vezes seguidas, para não andarmos mais Kms a contorná-lo, chegamos a Galomaro já depois do meio-dia, mas tínhamos à nossa espera uns franguinhos de churrasco. A fome era tanta, que nunca mais comi frangos que me soubessem tão bem. 

 No decorrer deste período a 26AGO69, um dia à tarde chegamos a Dulombi, na altura era uma Tabanca com algumas palhotas com abrigos, valas e arame farpado à volta, com uma espécie de portão de entrada na estrada de Galomaro a NW e a S outro portão que dava para a mata, íamos passar lá a noite e de futuro serviria de acampamento base. Sempre tive um acordar estremunhado quando estava no primeiro sono, mas naquela noite, quando estava no primeiro sono, fui acordado com um festival de “fogo - de - artifício”, rebentamentos por todo o lado, balas tracejantes cruzavam o céu, o meu acordar foi igual a outros mas notei que o meu maxilar inferior, teimosamente batia ritmadamente no maxilar superior, durou alguns segundos até me aperceber do que se estava passar, rapidamente cerrei o os dentes e analisei a situação e vi que o ataque não era do nosso lado, mandei cessar o fogo que estava a ser efectuado para o lado do portão sul. A minha secção estava na parte sul, onde existia o tal “portão”, as balas tracejantes passavam por cima de nós, apesar de muitos rebentamentos à nossa volta, ninguém foi atingido, liguei o rádio, chamei como não obtive resposta, desliguei, quando estava a preparar-me para dormir novamente, apareceu-me um camarada a saber se estava tudo bem, escandalizado por eu não ter mantido o rádio ligado, nessa altura fiquei a saber que o ataque foi efectuado a N junto do arame farpado, à esquerda da entrada e que infelizmente havia a lamentar uma baixa da CCAÇ 2446, que foi recuperada no dia seguinte por elementos do ESQ FOX, começara aqui o meu baptismo de fogo com ataques nocturnos. Também estivemos em bivaque, em tendas de campanha junto do aquartelamento de Galomaro, depois iniciou-se a operação «Nereu» 2.ª fase de 01SET a 11OUT69, novamente em conjunto com as duas companhias já citadas e nas zonas de Duas Fontes, Cansissé, Contabane e Pelada. Nunca disse como tinha ocorrido a morte do militar da CCAÇ 2446, porque foi dito na altura que ele foi morto com as calças na mão quando vinha a fugir de uma morança da fila de moranças do lado onde se deu o ataque, onde tinha ido dormir ao que parece acompanhado. Depois de uma pesquisa verifiquei que em 1969 morreram da CCAÇ2446 4 militares: 06/02/69- 1, na travessia do Curobal. 26/08/69 - 1, Fernando Orlando Rodrigues Vasconcelos, de Santa Luzia, Funchal. 29/08/69 -2,2/11/69. Portanto o ataque foi a 26AGO69. 4 Também foi o meu pelotão que apanhou o Malan Mané, mas nesse dia eu não estava lá. A CCP 123 sofreu 6 feridos por acção do rebentamento de uma mina AC, na estrada Galomaro – Dulombi (terá sido no troço para Mondajane, já referido) , também não sei a data porque foi na fase que não estive lá. 

 O VINHO DA DISCÓRDIA Nos últimos dias que passei no Gabu em Setembro de 1969, estava a minha C.ª CCP 123/ “Grupo Expedicionário”, Aquartelada em Galomaro, em tendas de Campanha. Resolveram ir fazer umas 0perações lá para os lados de Dulombi, era um grupo da CCP 123 e outro da CCAÇ 2446, era para permanecer lá uns dias e Dulombi era a Base operacional. Fui chamado ao meu Comandante de C.ª que me pôs ao corrente da operação e me incumbiu de fazer de vague mestre, rancheiro ou como lhe queiram chamar, para confeccionar umas refeições quentes para não estarem o tempo todo só a ração de combate. Aquilo para mim era novidade, nunca tinha desempenhado tal tarefa, mas a tropa manda desenrascar, por saber cozinhar não me atrapalhei, fui ter com o responsável pelo Depósito de Géneros do Aquartelamento de Galomaro e lá fiz um acerto com ele, tendo em conta o n.º de homens e o n.º de dias para definir as quantidades de géneros a levar, na relação houve três coisas que eu fiz questão de levar que foram: Farinha, vinho e cerveja, porque já lá tinha estado e sabia que a água não prestava, e que um pouco de vinho à refeição assentava bem e ajudava a tragar o que nos era dado para comer, falando em água na Guiné, onde havia uma boa água levezinha era em Mansabá. Carreguei os géneros todos numa viatura, mais uns tachos e umas panelas e apetrechos necessários e não sai mais de junto dela porque sabia de alguns rapazes eram capazes, foram trinados nos “Golpes de mão”, arrancamos a caminho de Dulombi escoltados por elementos do Esquadrão FOX de Bafatá. A primeira coisa a fazer depois de descarregar os géneros numa morança grande que lá havia, pedi três colaboradores ao Alferes da CCAÇ 2446, ele era um jovem açoriano, Regente Agrícola, peguei neles, fomos amassar uma boa quantidade de barro e fizemos um forno para cozer pão, logo lenha para dentro e acendeu-se para secar e digo que se fazia lá um bom pão. 

 Em Dulombi havia um poço estreito, pouco mais largo que um bidão, com tanta tiragem a água ficou barrenta, de tal maneira que fizemos uma refeição que ficou vermelha e perguntaram se lhe tínhamos posto tomate ou colorau, a partir dali tivemos de utilizar a água do riacho. Comecei a distribuir vinho às refeições, o vinho era posto a olho nos copos de cantil, havia uns que recebiam, mas depois davam a outros e houve alguns que lhe subiu à cabeça. Eram madeirenses e não ligavam lá muito bem com o Alferes, arranjaram uma discussão de tal ordem que estavam preparados para lhe “chegar a roupa ao pelo”, aí tive de me meter, engrossar a voz e metê-los na ordem, sem utilizar violência. O que ganharam foi que a dose de vinho foi reduzida e passei a fiscalizar a distribuição. Durante 20 anos que estive na Tropa lidei com milhares de jovens de todo o País, mas” levados da breca” como aqueles nunca tinha visto. No fim da estadia carreguei os restos e fui devolver em Galomaro. 

 Voltei a Dulombi em Novembro de 1973, quando um grupo de jornalistas foi a Madina de Boé ao local onde o PAIGC disse que tinha proclamado a independência e não havia lá nada, o Dulombi que então vi, não tinha nada a ver com o de 1969. Saudações Aeronáuticas Dâmaso (Sargento-Mor páraquedista) Operação Dulombi (Aditamento) Camarada Luís Dias, depois de umas voltas à cachimónia, lembrei-me de ir consultar o meu registo de alterações e constatei que parti de Héli no dia 04AGO69, directamente de Dulombi tendo sobrevoado a picada até Galomaro, tendo ido no mesmo para Bissau onde permaneci até 26AGO69, tenho a certeza de que o ataque foi antes. Assim o ataque poderá ter sido de 24/07/69 a 04/08/69, consultei a lista dos mortos em combate na Guiné, apareceram-me dois nomes a 24 e dois a 27 e um a 03/08/69, resta saber de que são: 24-Soldado José pedrosa Almeida 24-Soldado Adelino de Sousa Santos 27- Soldado António Manuel Soares 27-Soldado José Botelho Santos 3/8- 1.º Cabo Manuel Tavares Silva, CCAÇ 2446 Só consegui saber a que Unidade pertencia o último, tenho uma vaga ideia de que o morto era metropolitano e teria a especialidade de Clarim ou outra. Como vês, parece-me que esta hipótese poderá ser mais correcta do que a anterior. 5 Sendo assim, eu terei estado em Dulombi com elementos da CCAÇ 2446, veja-se “O Vinho da Discórdia” em que as praças eram Madeirenses e o Alferes dos Açores. Em reposição da verdade histórica, um abraço. Dâmaso.

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