Junto uma história do Ex-Alferes Rui Felício, da CCAÇ2405 (que foi a 1ª Companhia a ser instalada no Dulombi, tendo um Grupo de Combate em Mondajane, uma então tabanca, entre a nossa picada para Galomaro e o Quirafo-Saltinho, que mais tarde seria abandonada e já não existia no nosso tempo). A CCAÇ2405, foi uma das companhias que teve muitas baixas no célebre desastre do Che-Che, na travessia do Rio Corubalo, na retirada de Madina do Boé.
Isto para referir que, alguns anos depois, mais concretamente em 11 de Março de 1972, na 1ª operação, no dia a seguir à partida da CCAÇ2700, o 2º Gr. e o 3º Gr de Combate, reforçados com 1ª Secção de Milícias, iniciaram a Operação "Alma Forte" e deu no seguinte, praticamente na mesma zona em que a CCAÇ2405 teve o contacto com o IN.
A CCAÇ 2405
Uns dias antes o Dulombi tinha sido atacado com rockets,
morteiros 82, canhões sem recuo e armas ligeiras por um bigrupo, pelas 22
horas.
As balas tracejantes que antecederam o ataque, serviram para
indicar o alvo naquilo que parecia ser o
desencadear de um fogo de artifício em festas da Rainha Santa [em Coimbra, onde o Rui nasceu, viveu e
estudou].
A Companhia respondeu ao fogo com as armas de que dispunha,
designadamente morteiros 81 e 60, metralhadoras HK, Borsig e espingardas G3.
Desde que a região do Boé ficou sem efectivos militares por
decisão estratégica do Comando Chefe, a retracção do dispositivo originou o que
se esperava. Ou seja, a guerrilha avançou as suas forças para norte do rio
Corubal e as flagelações a quartéis como o Saltinho, Dulombi, Mondajane,
Cansamba, Cancolim e outros começaram a ser mais frequentes.
Uma semana depois foi planeada e executada uma operação de
patrulhamento com origem no Dulombi, ficando apenas no quartel o Victor David e
o seu Grupo de Combate. (O Victor David [1944-2024], instalado a poucos kms, em
Mondajane, teve que se deslocar com a sua tropa para guarnecer o quartel do
Dulombi, enquanto a Companhia arrancava de madrugada para o dito
patrulhamento.)
Toda a restante Companhia iniciou o percurso por sueste com
o objectivo de contornar Paiai Lemenei, onde se supunha que se acoitassem os
guerrilheiros como base para aproximação ao nosso aquartelamento.
Ao 2.º dia à tarde, sem encontrarmos sinais do inimigo,
iniciámos o regresso.
Tínhamos tido a preocupação de fazer todo o patrulhamento
fora dos trilhos de pé posto, para que a nossa presença não fosse
detectada, o que implicava um maior
esforço e atenção redobrada na progressão, orientada quase exclusivamente por
bússola, pontos de cota geográficos de referência e linhas de água
constantemente referenciadas na carta topográfica.
E é verdade que a nossa presença não foi detectada,v como
adiante se verá.
Já no regresso, ao fim do dia, depois de andarmos perdidos
no meio da mata, encontrámos finalmente a picada que ligava Dulombi à base de
Paiai Lemenei.
Exaustos pela difícil caminhada, mas contentes, foi decidido
pararmos para descanso de alguns minutos ficando a cabeça da coluna na picada e
o resto da tropa espalhada pelo mato.
Mandei dois soldados afastarem-se para um dos lados da
picada e outros dois para o outro lado, vigiando qualquer eventual movimento
anómalo.
Reunidos na picada, sentados e conversando, estavamos o
Capitão [Jerónimo], o [Jorge] Rijo,
o [Paulo] Raposo e eu, isto é, todos os
oficiais, para além de alguns furriéis como o Ribas, o Veiga e o Esteves.
E pedi ao furriel Esteves para se posicionar atrás de nós,
vigiando a nossa retaguarda.
Nisto, os dois soldados destacados para fazerem a segurança
próxima a norte da picada, efectuaram algumas rajadas de G3 e correram ao nosso
encontro já debaixo de fogo do inimigo.
Um deles, cujo nome já se me varreu da memória, mas cuja
imagem ainda conservo bem nítida, progredia cambaleante agarrado à barriga
ensanguentada onde tinha sido atingido.
Felizmente, foi evacuado para Bissau e depois para Lisboa,
tendo-se salvo.
Percebemos então que uma coluna de guerrilheiros fortemente
armada se dirigia em direcção ao Dulombi para executar um ataque ao quartel ao
cair da noite.
Tinham sido apanhados de surpresa pela presença inesperada
da nossa Companhia naquele local, ainda
afastado do aquartelamento.
Durante mais de meia hora o combate foi violento e
percebia-se que os rockets choviam ininterruptos, especialmente na direcção do
local onde estávamos porque era dali que irradiavam as vozes de comando.
Um dos rockets acertou mesmo em cheio no sitio onde estava o
Capitão e os Alferes.
Ao meu lado um estilhaço acertou na cabeça do soldado que
estava mesmo ao meu lado e que veio a morrer no próprio local.
Ainda auxiliei no seu transporte durante uns dois
quilómetros. O cheiro a sangue no meu braço ainda hoje o sinto quando recordo.
Era o soldado [Lucídio]
Rasinhas [, natural de Resende]… Lá ficou…
Rui Felício (***)
E COM A CCAÇ3491
Em 11 de Março, o 2º e 3º GC (do Alf. Farinha),
reforçados por 1 Secção do PELMIL288, iniciaram a Operação "Alma Forte", comandada pelo Alferes L. Dias,
com a duração de dois dias (Sábado e Domingo), com a finalidade de reconhecer e armadilhar os pontos de
passagem do IN no Rio Corubalo. Nesse dia, depois de invertermos a marcha,
pelas 18h00, quando parámos para descansar junto ao Rio Lemenei/Paiai Lemenei,
uma zona de mato denso e bastante arborizada, tivemos o nosso primeiro contacto/emboscada
com o IN, estimado em 40/50 elementos. Nos primeiros momentos de troca de tiros
houve alguma dificuldade na resposta ao fogo do adversário, que utilizava armas
automáticas e roquetes/morteiros, em especial na utilização dos nossos
morteiros e dos dilagramas, devido às condições adversas do local. Só quando
conseguimos sair daquela mata e depois de lançarmos várias granadas de morteiro
60mm, que terão atingido fortemente o adversário, é que este iniciou a
retirada, a coberto da noite que, entretanto, tinha caído.
Devemos salientar nesta
emboscada/contacto a actuação do Furriel do 2ºGC, Espírito Santo, que fixou com
a sua Secção o fogo inimigo, permitindo a saída do restante pessoal e a
actuação do soldado At. Manga Camará do 3º GC, que tomando conta do morteirete
de 60mm, colocou-o à barriga (um feito difícil de acreditar para quem não viu)
e lançou um par de granadas que mudaram o rumo dos acontecimentos. Também de
salientar a actuação do 1º Cabo Amílcar Costa do 2ºGC, que, alertado por um
camarada (o "Amarante"), avistou um elemento IN e foi o primeiro
elemento da nossa companhia a efectuar fogo sobre os guerrilheiros, com a sua
Met. Lig. HK 21, só parando quando a mesma se encravou por problemas na fita
alimentadora.
Do confronto resultou para o IN, pelos
vastos vestígios de sangue encontrados, pelo material diverso abandonado e pela
rádio do PAIGC (que confirmou baixas, o que era raro), sofreu mortos não
controladas e a apreensão de 11 granadas de RPG7/RPG2, entre outro material e
equipamento. As nossas forças sofreram dois feridos ligeiros e de outros
elementos terem recebido tiros que lhes atravessaram os cantis, as camisas ou
dólmens e acertaram nos carregadores. Enfim, uma grande sorte!!!
Pelo reconhecimento feito posteriormente
ao local, julgamos que o IN estava naquela zona a descansar para, mais tarde,
ir flagelar o quartel do Dulombi e, ao aperceber-se da nossa presença, iniciou
manobras de envolvimento para nos atacar, mas foram avistados.
Esta
acção mereceu das diversas cadeias de comando as seguintes referências
elogiosas:
-Do Cmdt BCAÇ 3872 msg nº70/03:"Felicito êxito obtido. Transmita pessoal
dessa minha satisfação";
-Do Cmdt CAOP2 (Agrupamento de Batalhões
daquela área) msg nº952/0:"Felicito
tão auspicioso começo";
-Do Cmdt Chefe -REP OPER msg nº984/C: "Cmdt Chefe felicita essa reacção à
emboscada do In durante OP "Alma Forte", reveladora de
determinação".
O 2º GC, passou a utilizar como lema,
posto no seu "crachá", o nome da operação que provocou o 1º contacto
com o IN - "Alma Forte".