segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

VOTOS DE UM FELIZ NATAL E UM BOM ANO 2010



CAROS CAMARADAS E AMIGOS DA C. CAÇ. 3491 (Dulombianos em geral)

DESEJO A TODOS, BEM COMO ÀS VOSSAS FAMÍLIAS, UM SANTO E FELIZ NATAL

E UM BOM ANO 2010

QUE A VIDA VOS PROPORCIONE TUDO AQUILO QUE AMBICIONAIS E VOS DÊ,
PRINCIPALMENTE, MUITA SAÚDE E PAZ.

SÃO OS DESEJOS DO EDITOR



(LUÍS DIAS)



terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O CINEMA NO DULOMBI

Detrás do monumento aos mortos dos nossos "velhinhos" (a CCAÇ2700), podemos ver o refeitório, onde foi instalado o "cinema" do Dulombi.

O CAVALO DE FERRO DE VISITA AO DULOMBI

Aquartelados no Dulombi, desde Janeiro de 1972, os elementos da CCAÇ 3491 íam passando os dias em operações semanais para os lados do Rio Corubalo, em emboscadas nocturnas, picagens para as colunas semanais a Bambadinca/Bafatá/Galomaro para reabastecimento e em serviços que o Capitão tratava de arranjar diariamente no quartel para os manter ocupados (limpeza do quartel, arranjo das valas, segurança e transporte da água do rio para abastecer o aquartelamento, etc.).

Como distracções lá tínhamos umas futeboladas, umas trocas bem assanhadas de caneladas, mormente quando ao fim de semana fazíamos um Benfica - Outros (Sporting + FC Porto), em qua havia as habituais apostas (grades de cerveja ou garrafas de uísque), entre mim (um lampião orgulhoso) e o Furriel Enfermeiro Nevado (um lagarto ferrenho), isto para além dos jogos de cartas habituais.

Outro momento alto de distracção, isto para alguns dos graduados, eram os "petiscos" organizados por uma comissão composta por: Alferes Dias (2ºGC) e Parente (4ºGC), 1º Sargento Gama e Furriéis: Nevado (Enfº), Batista (1ºGC), Gonçalves (2ºGC), Espírito Santo (2ºGC), Machado (4ºGC e já falecido), Carvalho (4ºGC) e Fonseca (o nosso vagomestre e recentemente falecido no trágico acidente na praia Maria Luísa). Todos os meses eram nomeados dois membros para gerirem as quotizações com que todos entravam para conseguir adquirir géneros, ou na tabanca ou em Bafatá, para elaborar uns tentadores petiscos com que nos banqueteávamos quando regressávamos das operações "famintos" e para reforçar os almoços domingueiros, normalmente uma belíssima sopa alentejana, preparada pelo nosso 1º Sargento (um alentejano de gema).

Um dia surgiu no Dulombi uma equipa projeccionista de Bissau que vinha entreter as tropas com a exibição de um filme: coisa diferente, tremenda alteração da rotina.

Privados de televisão e de cinema, a chegada desta equipa itinerante foi um acontecimento recebido com entusiasmo por todos. O cinema improvisado foi instalado no refeitório dos praças. Nesse princípio de noite lá se acomodaram as tropas, os milícias e também muitos elementos da população que estavam ansiosos por verem o filme. Não sei se os guerrilheiros do PAIGC sabiam da projecção, mas de facto fomos deixados em paz.

A projecção era de um daqueles tradicionais filmes de cowboys e índios, já não me lembro se protagnizado pelo John Wayne, o Henry Fonda, o Yul Brynner, ou outro famoso actor daqueles tempos. A coisa foi correndo de feição com o público entusiamado com a acção que se passava no ecrã. Contudo, a determinado momento, surge no filme, vindo do fundo de cena, um comboio, o qual avançava a toda a força do carvão em direcção à boca de cena, enchendo num repente todo o cenário, acompanhado de um barulho ensurdecedor, parecendo querer saltar do pano ou lona que serviam de ecrã para galgar para cima dos assistentes. A rapaziada já habituada a estas fitas ficou impávida e serena, mas com o pessoal africano é que a coisa fiou fino.

Aquele cavalo de ferro, como lhe chamavam os índios, parecia vir para cima dos espectadores e, como é sabido, não havia comboios na Guiné, isso provocou um alvoroço muito grande e muitos deles desataram a fugir, provocando o gáudio entre a restante assistência. Alguns ainda regressaram depois de chamados pelos militares, mas outros só devem ter parado já bem dentro da tabanca.

Foi um momento engraçado, de grande perplexidade da nossa parte por vermos os africanos a fugir do filme....mas houve também alguns dos nossos que efectuaram uma retirada "estratégica", não por causa do comboio, mas por verem os africanos a dar o "gosse", convenceram-se que era por causa do IN.

Os africanos, na sua maioria, nunca tinham visto um comboio e aquilo era, na altura, muita carruagem para formar uma "coluna" normal, das que eles estavam habituados, ainda por cima a resfolegar daquela forma.

Foi um dia/noite bem diferente que provocou a boa disposição entre o pessoal.

Luís Dias
Ex-Alf.Milº



quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O MÉDICO DO NOSSO BATALHÃO - O PROF-DOUTOR PEREIRA COELHO


O Prof. - Dr. Pereira Coelho, actualmente.

Alf. Mil. Médico Pereira Coelho na Guiné.

Caros Amigos e Camaradas

Há uns dias atrás, mais propriamente no dia do jogo de futebol entre Portugal e a Hungria, fui surpreendido com um telefonema do meu carissimo amigo - o Professor - Doutor Pereira Coelho - que me disse que o seu contributo para o blogue estava num artigo que saíra naquele dia na revista do Jornal "i". É claro que parti logo para a compra do jornal e depois de ler o artigo telefonei-lhe de volta e falámos um pouco sobre o artigo e que, a meu ver, era extremamente importante, permitindo-me que transcrevesse para o nosso blogue alguns dos seus pontos de vista sobre aquela guerra, expostos no citado artigo.

Parece-me dispensar apresentações o nosso querido médico de Batalhão, o então Alferes Miliciano Médico, Pereira Coelho. Permitam-me, no entanto, salientar que, para além das inegáveis qualidades profissionais, tantas vezes demonstradas no apoio aos nossos combatentes, na forma como se dedicava aos problemas que surgiam de âmbito médico nas companhias do batalhão e também nas tabancas que de nós dependiam e estavam inseridas na nossa quadrícula, mas também destacar o seu elevado humanismo e sentido de camaradagem, a forma como se disponibilizava para ajudar, muitas vezes ultrapassando o seu dever, correndo risco de vida. Estas qualidades levaram a que fosse estimado por todos os oficiais, sargentos e praças e tendo conquistado, rapidamente, a amizade e admiração das populações locais.

Como também todos sabem, o Professor - Doutor Pereira Coelho foi a alma pioneira de um projecto iniciado no nosso país - a Fertilização in-vítro. Em resultado do seu trabalho e em conjunto com a sua equipa do Hospital de Santa Maria, nasce, em 25 de Fevereiro de 1986, em Lisboa, a primeira criança, graças à técnica FIV. O rapaz, de nome Carlos Saleiro (é hoje avançado no Sporting) veio dar esperança a muitos casais com problemas de infertilidade. Este acontecimento encheu-nos, claramente, de orgulho.

O Alferes Médico Pereira Coelho, adoeceu em Galomaro e foi evacuado por coluna até Bafatá e depois seguiu de avioneta para Bissau, isto porque as evacuações por hélio estavam proibidas, sendo apenas usadas para casos extremos. Este facto, que se espalhou rapidamente pelas tropas, veio provocar alguma instabilidade nas nossas forças, porque muitos perguntavam: "Se eles não vêm a Galomaro, sede do batalhão, buscar o médico, com receio de serem atingidos pelos strella, como é que vão ao mato buscar alguém, se ficar ferido?"

O nosso médico, como ele conta na entrevista, foi desvinculado mais tarde do Batalhão e passou a ser o Director do Hospital Civil de Bafatá, onde continuou a exercer com a competência e a responsabilidade que lhe são conhecidas. Foi substituído no Batalhão pelo Alferes Miliciano Médico, Rui Coelho, também ele um óptimo profissional e um excelente camarada (estabelecido na cidade do Porto).

Extractos da entrevista do Alferes Médico Pereira Coelho, salientados pelo editor, com a devida vénia ao entrevistado e ao jornal "i".

O António Manuel (Pereira Coelho) que regressa no dia 25 de Outubro de 1973 (a) é uma pessoa muio mais forte e personalizada do que aquela que sai daqui em 22 de Dezembro de 1971 (b). Melhor. Mais preparado para enfrentar a vida. Munido de resistências fantásticas reunidas en terrenos pantanosos, por entre capins colossais, mercúrio severo e iminência de assaltos e emboscadas com desfecho imprevisto".

"Posso garantir que se a nossa atitude fosse de coragem e de espírito de luta pela sobrevivência, por muito maus bocados que tivéssemos passado, acabávamos por sair de lá mais determinados do que tínhamos ido".

"Fazendo uma retrospectiva da minha vida, quase me atrevia a dizer que o mais marcante foi a minha experiência na guerra, particularmente naquele período e naquele local" (c).

"Estávamos completamente sozinhos. Tínhamos de decidir as coisas mais inesperadas, particularmente quando foram proibidas as evacuações, a não ser em casos extremos".

Depois de em certo dia lhe cairem em mãos duas raparigas em estado comatoso com quadro de meningite. "Caí na asneira de fazer respiração boca a boca a uma delas. Passados uns dias apareci com febre enorme, rigidez na nuca, falta de ar. Achei que tinha contraído a doença e pedi evacuação".
Em termos de assistência civil às populações vê-se ainda a braços com uma epedemia de febre tifóide e sarampo, com exótica manifestação nos negros....Febre, manchas brancas, tosse e conjuntivite, em centenas de miúdos. Um flagelo desenrascado com sucesso à colherada de uma solução lenta improvisada.

Num ataque medonho à tabanca (d) incendeiam os telhados de colmo e o número de mortos explode à frente dos olhos. Nesse dia debate-se com 32 feridos graves queimados e uma das situções mais críticas, na sequência da morte de um dos enfermeiros (e) que estagiara com o grupo. "O pessoal que trabalhava comigo recusou-se a acudir alguns terroristas que tinham sobrevivido. Tive de ser eu sozinho a tratar dos homens do PAIGC."

Na chegada do correio a má nova faz estalar a polvorosa. Um dos elementos do batalhão apura por carta a traição da mulher. A loucura não faz a coisa por menos. Passeia-se (f) no aquartelamento com uma granada descavilhada pronta a desfeitear a harmonia. "Andei uma noite inteira atrás dele a convencê-lo a dar um destino à granada. Não podia sair do pé dele. Se a deixasse cair por cansaço ou por livre vontade, nós os dois íamos logo. Já pela madrugada concordou atirá-la no campo de futebol. Jamais me vou esquecer dessa noite, entre as sete da tarde e as cinco da manhã".

Quando certo dia se inteiram da iminência de um ataque a Bafatá, é destacada uma companhia de pára-quedistas para bater aquela zona e tentar localizar e interceptar o grupo. Os páras cumprem a operação. Quando regressam, o sargento que os comandara pede por tudo para ser recebido pelo médico. Nenhum mal lhe acometera a carne. Tem necessidade de desabafar depois de ter localizado o grupo de combate. "O grande dilema era o que fazer. Atacar e matá-los a todos ou poder vir a ser responsável pelas consequências de um ataque quando actuassem. Ignorou-os. Mas não conseguiu aguentar sozinho aquela responsabilidade." (g)

Pela conduta em missão, é-lhe concedido um louvor pelo comandante militar, Brigadeiro Bettencourt Rodrigues. Nunca prescinde da sua arma sempre que se desloca em coluna. "Entendiam que o médico não devia usar arma. Sim, mas era médico militar. Um mero alferes no meio dos outros soldados".

Regressa à Guiné em 1992. A saudade é apenas saciada em Bafatá. O seu aquartelamento em Galomaro dista por estrada 35 tortuosos quilómetros avessos a viaturas comuns. A realidade que os sentidos alcança decepciona. "As condições eram fantásticas comparadas com o que fui encontrar vinte anos mais tarde".

O hospital militar em Bissau, um modelo na altura, assente num lençol de água, afundara-se até ao ponto de inutilização completa. No Hospital Civil Simão Mendes, albergue próprio de "quinto mundo", as condições indignas facultam pouca assistência aos locais. Cheiro nauseabundo, fezes, urina. Gente prostrada. Enfermarias irrespiráveis....".

Impressionado mas também comovido depois da passagem por Bafatá. Uma consulta de manhã. E qual não é o espanto quando os enfermeiros que com ele trabalharam o reconhecem. "Foi indiscritível porque todos se agarraram a mim a pedir por tudo para os trazer para Portugal, porque a vida não se comparava com o outro tempo. Foi um drama ter de os afastar".

O calor da recepção aumenta depois do almoço. Defronte do hospital uma multidão de 4 ooo pessoas espera-o com a recordação fresca na fala. "Ainda sabiam o meu nome. Revela até que ponto o pouco que lhes podíamos dar os marcou."
Caro Amigo
Confesso, como alías já te disse, que gostei da tua entrevista e do contributo aqui para o blogue, e também te digo que me levantaste as saudades, não da guerra, mas da sã camaradagem que vivemos naquelas terras, dos amigos que lá deixámos e do apuramento de virtudes e de carácter que transformou meninos em homens.(h) Sabes que eras bastante apreciado pelo pessoal do batalhão e fizeste por merecer esse reconhecimento. Bem hajas.
Um grande abraço para ti e que o nosso Benfica continue em grande (este ano é que é!!!).
Luís Dias

NOTAS DO EDITOR:
(a) O nosso Batalhão chega a Lisboa a 4 de Abril de 1974.
(b) O Dr. P. Coelho vai para a Guiné no navio Niassa, juntamente com o BART 3873, em 22 de Dezembro de 1971, enquanto o nosso batalhão - BCAÇ3872, partira uns dias antes, em 18 de Dezembro. Contudo, o Alf. Médico vai para Galomaro directamente, chegando à nossa zona de intervenção um mês antes de nós, porque ficámos em IAO no Cumeré.
(c) A zona de actuação do BCAÇ 3872, situava-se no leste da Guiné, com a sede do Batalhão em Galomaro e as companhias sediadas em Cancolim, Dulombi e Saltinho.
(d) A tabanca era a de Campata, que foi violentamente atacada, mas onde o IN sofreu bastantes baixas face à reacção do pelotão de milícias ali instalado.
(e) Tratava-se de auxiliar de enfermagem de origem local e que dormia na tabanca atacada.
(f) Quartel da sede do batalhão em Galomaro.
(g)De facto uma força de pára-quedistas localizou na área de intervenção da companhia de Cancolim uma força inimiga estimada em cerca de 100 elementos e solicitou ataque aéreo, recuando da zona. O grupo In terá primeiramente debandado, mas reagrupou-se e terá sido responsável pelo ataque com foguetões a Bafatá. O Sargento que comandava a força terá sido alvo de processo disciplinar por ter evitado o contacto com as forças do PAIGC. O caso foi bastante comentado entre as nossas forças, pois não era habitual que tropas especiais "retirassem" numa situação daquelas....!
(h) Era normal, no discurso de regresso à metrópole proferido pelo General António Spínola, ele referir-se ao facto das tropas chegarem ao território ainda meninos e partirem feitos homens. "Chegastes meninos! Partis homens!".












domingo, 20 de setembro de 2009

MAIS UM GRUPO DE FOTOS DOS NOSSOS TEMPOS DA GUINE

Na 1ª foto em baixa vemos os Alf. Vasconcelos (CCS) e Dias (CCAÇ3491) à porta da messe de oficiais de Galomaro (com certeza à espera do tacho). Galomaro 1973.
Na 2ª foto está o pessoal de transmissões da CCS, reforçada pelo Fur. Soares da CCAÇ3491. Galomaro 1973.
Na primeira foto em baixo um unimog com pessoal do BCAÇ3872 na estrada Cumeré-Bissau. Atrás do párabrisas vemos o Alf. Dias, atrás do condutor o Alf. Vasconcelos e mais atrás podemos ver o Alf. Farinha, Furriéis Soares e Lourenço.
Na segunda foto e ao centro o Cap. Pires CCAÇ3491), estando ao seu lado direito os Alf. Dias (CCAÇ3491) e Alf. Vasconcelos (Trms-CCS) e ao seu lado esquerdo o Fur. Fonseca (CCAÇ3491-recentemente falecido) e à frente deste o Fur. Rodrigues (CCAÇ3491).
Foto de parte do grupo de recepção aos piras (Dulombi-8-2-74), estando da esq p/ a dir o 1º cabo enf. Rocha (aqui o malandro tem os meus galões de alferes), o Joaquim Xavier, o 1º cabo Santos da Ferrugem ( falecido há alguns anos em Espanha, onde trabalhava), o praça "Cobrinhas", com os galões do capitão, ?, e o Sousa dos morteiros (81mm). Por trás o unimog onde transportávamos um canhão falso, que depois instalámos num espaldar do quartel, coberto por uma lona e que serviu para brincar com os piras dizendo-lhes que o canhão atingia o Rio Corubal0 (brincadeira que durou uns 3 dias). Em baixo elementos de um Grupo de Combate da CCAÇ3491 de segurança à picada Dulombi-Galomaro.

Em baixo fotos dos foliões da Comissão de boas vindas ao piras (Dulombi 8-2-74).


Estas fotos foram-nos remetidas pelo Camarada da CCS Juvenal Amado, sendo que as mesmas foram ofertas dos camaradas também da CCS: Dr. Rui Coelho e Eng Mario Vasconcelos, Aos três, desde já agradecemos estas belas lembranças enviando-lhes um grande abraço.
Luís Dias

sábado, 29 de agosto de 2009

MORTE TRÁGICA DE UM CAMARADA

Caros Camaradas


Cumpre-me a dolorosa missão de vos informar da morte trágica do camarada JOSÉ BATISTA MOTA FONSECA, o nosso Ex-Furriel Vagomestre. O Fonseca perdeu a vida juntamente com a sua esposa e as duas filhas, na derrocada que se deu no passado dia 21, na Praia da Maria Luisa, em Albufeira, onde se encontrava a passar férias.
Este triste acontecimento foi-nos participado pelo nosso camarada Ex-Furrriel Carvalho.
À família enlutada as nossas sentidas condolências.
Descansa em paz querido amigo.

Luís Dias
O Ex-Furriel Fonseca é o segundo a contar do lado esquerdo (com o seu aprimorado bigode).

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O DULOMBI ACTUAL

Caros Camaradas

Como é habitual, entre os diversos blogues que consulto sobre a Guiné, um dos que revejo com curiosidade é o blogue dos nossos "velhinhos", a CCAÇ 2700. Hoje, ao abri-lo, deparei com um documento importante, diversas fotos, obtidas recentemente pelo Tenente-Coronel, Carlos Correia, ex-Alferes daquela unidade militar, colhidas no nosso Dulombi, em Março deste ano.
O aquartelamento do Dulombi começou a ser construido pela CCAÇ2405, em 1970, aumentado e melhorado pela CCAÇ2700, entre 1970 e 1972 e finalizado e aperfeiçoado pela CCAÇ3491, a partir de Março de 1972. Em Março de 1974 foi entregue à 1ª Companhia do BCAÇ4518/73, que dali saiu um mês depois.
Camaradas foi um autêntico choque ter visto as fotos expostas no blogue. Senão fosse ter identificado, os torreões, a placa de homenagem aos mortos e a placa do heliporto da 27$00, eu não teria reconhecido, naqueles escombros, o nosso antigo quartel.
Confesso que senti uma grande emoção, mas também uma enorme tristeza de não se terem aproveitado as estruturas montadas pelas companhias que por ali passaram. De facto, ao visionar as fotos, os olhos marejaram-se de lágrimas. A companhia esteve naquele local um ano e, a partir de 9 Março de 1973, ficaram 13 bravos homens e dois pelotões de milícias a tempo inteiro e o resto da companhia foi para Galomaro, seguindo um GC para Piche, depois Nova Lamego e até Pirada, mas continuou semanalmente a efectuar operações na matas do Dulombi. Em Janeiro de 1974 regressámos ao Dulombi, para preparar a recepção aos "piras". Quando entregámos o quartel à 1ª Companhia do BCAÇ4518/73, este encontrava-se muito bem tratado, limpo, pintado e funcional.
A única alegria foi verificar que existem muitas crianças na tabanca, muitos "djubis", que caracterizam um povoado muito jovem e uma escola para eles aprenderem a nossa língua.
Camaradas, não obstante a tristeza, aconselho a verem as fotos obtidas por um antigo camarada da CCAÇ2700, clicando no blogue: Dulombi.blogspot.com.
Um abraço ao camarada da CCAÇ2700 que esteve em Dulombi e fez esta reportagem e ao editor do blogue, o ex-Alferes Fernando Barata.
Luís Dias

sexta-feira, 12 de junho de 2009

AINDA O ATAQUE A CAMPATA E O GE DE MARCELINO DA MATA EM GALOMARO

A história aqui referida de, após o ataque do IN a Campata, ter surgido em Galomaro o GE de Marcelino da Mata, foi também publicada no Blogue do Luís Graça & Camaradas da Guiné, tendo também sido publicada no mesmo local um "post" do Ex-1º cabo condutor auto, Juvenal Amado, camarada da CCS do nosso batalhão sobre o mesmo assunto que, com a devida vénia para o autor e editores do blogue publicamos aqui:
"As estórias são motivos de prazer quando delas não resultam lembranças que nos traumatizam.Ao longo destes meses em que me expus com as minhas estórias, tentei ser o mais próximo daquilo que se passou ao tempo. Um ou outro facto, data ou acontecimento a memória nem sempre fiel, foi e é objecto de dúvida e imprecisão. Mas essas nunca foram relevantes no contexto das mesmas estórias.Do que relatei efectivamente houve trauma em alguns acontecimentos.Nenhum de nós passou por eles de forma ligeira.Neste contexto fico feliz, que não tenha praticado nenhum acto, que me desonrasse como militar e como homem.
Um abraço para todos
Juvenal Amado
ATAQUE A CAMPATA
O nosso camarada ex-Alferes Dias, traz ao poste 4466 (**) o relato dessa sangrenta noite, com o rigor de quem se habituou durante aqueles anos, a ter que fazer relatórios sobre a operacionalidade das tropas sobre o seu comando.
O Dias foi um oficial operacional responsável pelos os seus soldados, combateu, arriscou a vida possivelmente convencido que esse era o caminho mais certo para não ter baixas.
Era norma operacional, que o trabalho desenvolvido nas patrulhas e nas operações, afastava o IN e reduzia o sangue derramado.Efectivamente também lá estive nessa noite e depois na reconstrução da aldeia.
Connosco para Galomaro veio um guerrilheiro ferido, que veio a falecer tal era a gravidade dos seus ferimentos. Juntamente veio um menino gravemente queimado, que ficou a viver no quartel até praticamente ao fim da nossa comissão. O seu sofrimento bem como o cuidado com que foi tratado pelo pessoal médico da CCS, foi por mim aflorado em jeito de comentário numa estória, que relata uma patrulha nocturna.
Quanto ao jovem prisioneiro posteriormente mencionado, foi um episódio, que tenho guardado estes anos todos, porque me chocou a forma como ele foi tratado. Seria filho de um homem grande de uma aldeia relativamente perto, ou foram buscar logo o pai que apareceu no quartel a exigir uma arma para matá-lo e assim lavar a honra dele e da sua família.O homem queria estar nas boas graças das autoridades nem que, para isso tivesse que verter o sangue do seu sangue.Quanto ao filho, não faço ideia nenhuma do que lhe aconteceu, mas eu e mais camaradas, ainda que fugazmente, assistimos a parte do tratamento que ele levou durante o interrogatório. Mais não assistimos, pois os interrogadores ao se aperceberem de que nós os estávamos a observar, deram-nos violenta ordem para recolhermos ao abrigo. O interrogatório foi feito na traseira do quarto do Comandante, por conseguinte, virado para a porta do meu abrigo.Recordo como, na altura, fiquei agoniado ao ver a cara inchada e as canelas, do prisioneiro, a escorrer sangue.
Ainda hoje lamento, mas nada podia fazer, aquela gente estava acima da lei. Dirão que os fins justificavam os meios.Um soldado combate, defende-se ou ataca, mas não tortura.Não estive de acordo na altura e continuo a não estar de acordo agora. Resta-me a consolação de que nenhum militar do 3872 participou nesse acto.
Um abraço
Juvenal Amado"

Retirado do blogue de Luís Graça & Camaradas da Guiné, com a devida vénia.

Apenas para melhor ilustrar e não para criar polémicas foi remetida uma resposta do editor, Luís Dias, para o mesmo blogue, conforme segue:

Ainda sobre o ataque a Campata e o post 4509 do Juvenal Amado

Caro Juvenal

A guerra não devia ter estas situações, mas elas existiram, a guerra nem sempre é limpa, como a água. Há os que não deixam que estas coisas aconteçam e há os que a aceitam e até acreditam que deve ser assim e há os que assobiam para o lado, vêem, mas não querem ver e por último há os que efectivamente nada viram, não por estarem desatentos, mas porque, simplesmente, não estavam lá.

No dia em que o GE do Marcelino esteve em Galomaro, eu estava com o meu GC no mato, ainda à procura dos guerrilheiros do PAIGC que tinham feito o ataque e a proteger outras tabancas. Referes no teu “post” que os elementos do GE terão agredido o jovem guerrilheiro capturado em combate. Acredito, porque o dizes, dado que ninguém, na altura, falou nisso. Recordo-te que ele também vinha maltratado aquando da sua captura, porque a milícia até o queria matar por fazer parte do grupo que atacava as populações, mas pareceu-me querer colaborar, voluntariamente, com as nossas tropas, até porque dizia ter sido raptado pelas forças do PAIGC e obrigado a envolver-se nos ataques da nossa zona. Identificou, inclusive, os guerrilheiros mortos e o que representavam na hierarquia do IN.

Como sabes, infelizmente, na nossa zona, era mais fácil para o IN atacar as tabancas, mesmo as indefesas, do que os nossos aquartelamentos. Havia um grande ódio entre os guerrilheiros (normalmente balantas, animistas) e a população da nossa zona, predominantemente fulas, islamizados. Isto reflectia-se na violência dos seus ataques, sem contemplações, menosprezando as vidas, fossem de mulheres ou de crianças. Deves estar lembrado daquele cheiro, quando entrávamos numa tabanca atacada, uma mistura de terra queimada, pólvora, sangue, muitas vezes a mortos e o choro das mulheres, das crianças, por terem perdido algum familiar ou os seus parcos haveres. Era de ficar estarrecido, triste, sentindo a impotência da situação. A raiva e o choro também tomavam conta de nós. O IN não mostrava contemplações pela “sua” população e também não mostrou respeito pelo camarada da CCAÇ 3489, aprisionado no ataque a Anambé e morto a tiro na retirada, pelos três elementos da população capturados momentos antes do ataque a Dulô Gengele e fuzilados após. A quantidade de ataques a Bangacia, com diversos mortos, normalmente da população e, num desses ataques, colocaram a mina A/C na retirada que vitimou um condutor auto da CCS. O próprio ataque a Galomaro, em quem sofreu mais foi a população.

Aquando do ataque à tabanca de Samba Cumbera, o 2ºGC da CCAÇ3491 (que era o meu) e o 3º GC, fomos em perseguição dos atacantes. Poderia ter sido mais uma das muitas que fizemos, mas esta foi muito diferente. Diferente porque tínhamos sabido que no ataque o IN havia morto uma mulher e o filho que estavam enfiados numa vala, desarmados, escondidos daquela gente "libertadora" e que, sem qualquer justificação, os assassinou a sangue frio, e os nossos homens levaram aquilo a peito, como se da sua família fossem aqueles mortos e largaram atrás do grupo com um empenho, com uma gana, em passo de quase corrida. O IN deve-se ter apercebido do perigo, de que vínhamos perto, porque foram largando material, para mais fácil ganharem terreno. Conseguiram chegar primeiro ao Corubalo e atravessá-lo, mas foi por pouco. Às vezes pergunto-me, se os temos agarrado, conseguiria aguentar, conter a violência dos meus soldados. Sei a raiva que levávamos, sei das ínguas de esforço criadas, sei que os homens estoiraram atrás do IN, porque queríamos vingar aquelas mortes. E o regresso foi penoso, num silêncio feito do amargo de não termos sido suficientemente rápidos para os apanhar. Sei que em combate poderíamos ter sido "animalescos" para com o IN, mas também sei que não faríamos mal a um prisioneiro. Não o fizemos àquele guerrilheiro, como a outros capturados. Aliás enquanto esteve connosco nada se passou, isso eu sei. Mas também sei que em combate seria diferente.

Como refere Torcato Mendonça, no post sobre o ataque do PAIGC a Mussa Iéro: "...sentiram a bestialidade da guerra, a violência gratuita, o ódio fratricida a abater-se sobre eles. Homens, ou simplesmente seres a destilarem ódio, bestas de uma guerra num país que diziam querer libertar, comandados por outros de outras terras ou, se comandados por guineenses, treinados em países longínquos. Só assim se compreende o modo como espalharam o terror, o ódio, a morte e a destruição sobre gente indefesa...". Nós também somos gente e sentíamos essa raiva pelo mal que faziam aquelas pobres populações e o que eles lhes faziam não era guerra, perceba-se!!!

Fui um operacional como tu dizes e sei que as operações que fazíamos podiam limitar as acções do IN – conforme informações prestadas por elementos do PAIGC que se entregaram na nossa zona – e tinha, como tu também dizes, responsabilidades pelo meu GC, muitas vezes por dois GC, e às vezes pela própria companhia. Mas, essa operacionalidade tinha limites. Tu, também eras operacional e quando conduzias a tua viatura tinhas responsabilidade pelos camaradas que transportavas, pois dependiam de uma condução segura e eficaz. Fazíamos parte de uma “máquina de guerra”, mesmo contra a vontade. No meu ponto de vista, só havia duas soluções para os que eram contra a guerra: ou desertavam e punham-se a mexer ou então se iam combater, então tinham de cumprir as suas missões com o devido empenhamento e competência, em especial se tinham pessoas na sua dependência, que confiavam neles para, também com alguma sorte, conseguirem voltar a ver os seus entes queridos.

Ainda bem que ninguém, como tu dizes, do BCAÇ 3872 (entenda-se da CCAÇ 3491 e da CCS, que eram as tropas aquarteladas na altura em Galomaro) teve interferência nessa agressão e os fins não podem e não devem justificar os meios. Agora que o ataque do GE do MM à base do PAIGC produziu diversos meses sem quaisquer ataques às tabancas da nossa zona, isso foi um facto. Entre o 16 de Março e meados de Setembro foi a paz e o sossego para todas elas. As armas calaram-se!

Um abraço

Luís Dias