quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

FOTOS DOS ÚLTIMOS GUERREIROS DO IMPÉRIO A DEIXAR O DULOMBI

A saída dos últimos elementos da 1ª CCAÇ /BCAÇ4518/73, os nossos "Piras"(O adeus dos últimos soldados do Império português) ao nosso Dulombi.
Elementos da 1ª CCAÇ do BCAÇ4518/73 e guerrilheiros do PAIGC-Dulombi, após 25 de Abril. Segundo refere o A. Morais, parece que nem sabiam onde era o Dulombi e foram convidados pelos nossos a vir ao quartel, após terem contactado com a população num dos trilhos de acesso (falavam em francês entre eles (seriam soldados da Rep. Guiné-Conakri!!!).

A 1ª visita de elementos do PAIGC ao Dulombi, depois do 25 de Abril, aqui com 5 dos Homens Grandes da Tabanca.

Um dos morteiros 81mm do Dulombi em acção.

Muito possivelmente a PPSH-41-"Costureirinha" apreendida a um guerrilheiro do PAIGC, em 8 de Março de 1973 e que o Alf. Dias transportou, posteriormente, para Galomaro.
Piras da 1ª CCAÇ nas matas do Dulombi (ainda muito fresquinhos!).

O António Morais com uma Kalash AK-47.

O Morais com o cão que foi do Costa, (o nosso amigo alentejano e cantineiro da CCAÇ3491), o qual foi mais tarde abatido (ao que parece já em Galomaro).

O A. Morais e o Fur. Cariru das Trms da 1ª CCAÇ/BCAÇ4518/73. Por trás podemos obervar as antigas instalações da secretaria, quarto do capitão, quartos dos alferes, quartos dos furriéis e quarto do 1º Sargento.

O António Morais com o Jamanca e a família.

O António Morais e o caçador Jamanca a atravessarem a parada do Dulombi para irem ao mato recolher um javali abatido por este último. Ao fundo vê-se o abrigo onde estava instalado o paiol e à frente a casa do gerador.


Apelidado pelos elementos da 1ª CCAÇ, como "Um filho da CCAÇ3491" (parece ser o Samba Djuma!).

O camarada António Morais na porta principal do aquartelamento do Dulombi, com a tabuleta que assinalava a "zona" de perigo, de onde surgiam os ataques do PAIGC.


A despensa do Dulombi (que diferença dos nossos tempos!).

Os 12 elementos da 1ª CCAÇ/BCAÇ4518/73, que ficaram no Dulombi, após a retirada da companhia para Nova Lamego.

O camarada António Morais da 1ª CCAÇ do BCAÇ4518/73 (que nos substituiu no Dulombi), remeteu-nos algumas das suas fotos, dos últimos tempos que passaram no Dulombi. A companhia tinha saído para ir intervir na zona Leste (Nova Lamego) e ali deixaram 12 elementos, que tiveram de se "orientar", até sairem definitivamente do aquartelamento. Foram autenticamente abandonados pelo batalhão, segundo relato pelo próprio no blogue dos nossos velhinhos - a CCAÇ2700.
Ao António Morais os nossos agradecimentos e temos a certeza de que gostaríamos de contar com ele no nosso próximo encontro, para melhor nos contar das suas "aventuras", após a nossa saída do Dulombi.
Luís Dias















sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ANIVERSÁRIO DO LUÍS GRAÇA, O "COMANDANTE" DO BLOGUE "TABANCA GRANDE"

Fotos do Camarada Luís Graça, retiradas do blogue:"Luís Graça & Camaradas da Guiné", com a devida vénia.
O nosso Camarada Luís Graça, combatente da Guiné, ex-Fur. Milº da CCAÇ2590/CCAÇ 12, Bambadinca 1969/71, faz hoje 63 anos e foi ele o fundador do magnifico blogue; "Luís Graça & Camaradas da Guiné" - www.blogueforanadaevaotres.blogspot.com, onde muitos dos combatentes escrevem e dão conta das suas "aventuras" e das emoções passadas na Guiné. Tem sido um lugar de encontro, de recordações e de partilha. O Luís Graça, conjuntamente com os seus co-editores, Carlos Vinhal, Virginio Briote e Magalhães Ribeiro, têm feito um excelente trabalho e tido uma dedicação exemplar, para o esforço gigantesco de manter de pé este imenso blogue.

O editor deste blogue, associando-se a largas dezenas de amigos, enviou-lhe a mensagem que publicamos em baixo, a qual foi editada hoje mesmo no blogue da Tabanca Grande.


Caro Amigo e Camarada Luís Graça


Permite-me que te trate como Amigo, embora nunca tenhamos falado pessoalmente, mas já trocámos alguns e-mails. Em primeiro lugar e neste dia venho apresentar-te os meus sinceros parabéns, com votos de longa vida, recheada de coisas boas, na companhia, naturalmente, da tua família.


És, por direito próprio, o nosso "comandante" aquele que, em conjunto com os restantes editores, foi capaz de criar o nosso blogue e com isso dar proveito a que muitos de nós pudessem conhecer outros camaradas, trocar impressões, dar corpo a ideias, libertar o que há muitos anos julgávamos fechado para sempre. As amizades que têm surgido, os abraços, a solidariedade, são componentes inegáveis da nossa "Tabanca Grande". Esta base tertuliana que paulatinamente tem vindo a ser alargada, terá ultrapassado, se calhar, as tuas/vossas próprias expectativas.


Se hoje, muitos de nós têm a merecida voz exposta neste imenso blogue, a ti, creio que fundamentalmente, devemos isso. Conseguiste pôr de pé, talvez, a melhor homenagem ao combatente da guerra colonial, em especial daqueles que lutaram na Guiné, que é o de todos reconhecerem que, naquelas terras, muitos deram a vida, outros voltaram gravemente feridos, física ou psicologicamente, mas todos que por lá passaram deixaram muito da sua juventude e trouxeram um alto sentimento de camaradagem, uma referência por aquelas terras e por aquelas gentes, bem expressa nos belos escritos com que muitos nos têm contemplado no blogue e nas lágrimas com que recordamos aqueles que, por lá tombaram. Como dizia o General António de Spínola: "Chegastes meninos! Partis homens!".


Amigo Luís Graça, hoje é um dia festivo para ti, para os teus e para todos aqueles que, como eu, te admiram. Assim, permita Deus, que possas continuar a percorrer o teu caminho com muita saúde, com o amor, o carinho dos teus familiares e com a companhia dos teus imensos amigos.


Felicidades e um grande bem hajas.


Um abraço do tam anho do Rio Corubalo


Luís Dias



quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

AINDA HÁ UÍSQUE DA GUINÉ


Fotos das "belezas" com os selos da Alfândega da Guiné!

Chegada a Galomaro da CCAÇ3491, no dia 9 de Março de 1973. No jipe podemos ver o Alf. L. Dias, atrás o Fur. Baptista do 1º GC e ao lado, a sorrir, um guerrilheiro do PAIGC que, no dia anterior, se tinha entregado a uma patrulha nossa na área do Dulombi. A arma é uma Shpagin PPSH 41, no calibre 7,62 mm Tokarev, mais conhecida por "costureirinha" e com a particularidade de ter um carregador curvo de 35 munições, em vez do habitual tambor de 71.

Caros Camaradas e Amigos

É verdade! Ainda tenho 5 garrafas de uísque das que trouxe da Guiné (!!!!). Ou seja, estas já estão em minha casa desde 1974 (o BCAÇ 3872 regressou da guerra e atracou na Rocha Conde de Óbidos-Lisboa, em 4 de Abril, mas elas chegaram antes dessa data. São elas uma "President", uma "Something Special", uma "Dimple", uma "Smugler" e uma "Logan". Umas autênticas belezas.

Alguns dirão que isto é um sacrilégio; porque será que o Dias não tratou destas "meninas" em conformidade? Outros dirão que ele não é muito de beber e por isso as foi deixando andar lá por casa. Eu respondo: fui bebendo algumas, deixei outras ao meu pai, ainda outras ao meu tio Armando - este sim um grande apreciador - e fui ficando com outras e olhem, ganhei-lhes amizade, porque olhava para elas e ía-as destinando a grandes momentos. Bebi uma, já não me lembro a marca, quando o meu filho nasceu há 30 anos. Tinha uma bela "Monks", em bilha de barro, que muitos amigos, quando me visitavam, diziam que era melhor eu abri-la enquanto era tempo, pois tinham tendência a evaporar. Provei-lhes o contrário ao abri-la e bebê-la quando fiz os meus 50 anos. Abri uma "Chivas", creio que aos 55 anos e agora ainda tenho estas, embora com destino certo. Vou abrir a "Dimple" quando fizer os 60 anos, se Deus permitir que eu lá chegue e as outras serão para "special ocasions", uma, nomeadamente, se o meu Glorioso Benfica voltar este ano a ser Campeão Nacional.

O uísque na Guiné era, como todos sabem, uma bebida altamente apreciada e usada inclusive, como tratamento anti-bacteriano. Quando regressava ao quartel depois das operações no mato e ainda antes de tomar o retemperador e refrescante banho, a primeira coisa que fazia era beber um uísque com água de castelo para matar a bicharada (parasitas) que, possivelmente, tivesse engolido quando bebia água das bolanhas, dos riachos ou das poças, mesmo com recurso às pastilhas, ao lenço a fazer de filtro, antes de ela entrar no cantil, muitas vezes após afastar a baba dos macacos ou de outros animais que tivessem lá estado a tirar a sede.

Durante a comissão fui adquirindo diversas garrafas do precioso néctar, em especial das marcas que eu entendia serem mais prestigiadas. Encaixotava-as devidamente acondicionadas e pumba lá iam direitinhas para casa dos meus pais, através do correio. E nunca desapareceram e chegaram sempre inteiras!

Na nossa companhia (Dulombi), ao que julgo também nas outras, depois da cerveja, o uísque era das bebidas mais comercializadas (o vinho...bem, o vinho não era lá grande coisa como sabemos), embora existissem boas aguardentes velhas (como a excepcional "Adega Velha", em garrafa numerada). O gin com água tónica também era muito apreciado entre os graduados (mais na sede do batalhão em Galomaro do que na nossa companhia) e até a Coca Cola tinha alguma saída (esta bebíamos juntamente com uísque, normalmente em convívios, despejando uma garrafa de uísque corrente numa terrina de sopa, com uma grande pedra de gelo e Coca Cola a atestar. Depois seguia-se o ritual de passar a terrina de mão em mão, de boca em boca, bebendo o líquido fresquinho até acabar e, às vezes, como não chegava, iniciava-se novamente o processo).

A cerveja era muito popular e bebia-se em quase todas as alturas. Em Janeiro de 1973 a companhia teve de pedir um reforço de cerveja, porque a mesma esgotou-se e, segundo a Manutenção Militar de Bissau, a nossa companhia havia batido o recorde de cerveja bebida!!! Raio de malta, esta nossa rapaziada!!!

A aquisição do uísque das melhores marcas era uma luta em que o nosso 1º Sargento Gama, quase sempre me levava a melhor. De facto, a título de exemplo, nunca consegui adquirir a "Martin" de 20 anos, porque se esgotava sempre!!!! E ele sempre na boa. Mas eu vinguei-me, como vos relato a seguir.

Em finais de Fevereiro ou princípios de Março de 1973, eu estava a comandar a companhia, devido ao Capitão estar de férias. Então engendrei com os operadores criptos que, num determinado dia, depois do almoço, me apresentariam uma mensagem falsa, relacionada com a nossa transferência urgente para outra zona de acção. Os outros alferes e a maioria dos furriéis estavam alertados sobre a "marosca".

No dia aprazado, um dos criptos vem entregar-me uma mensagem urgente à messe de oficiais e sargentos, trazendo um ar preocupado e quando eu, pretensamente, a li, mostrei um ar de estupefacção, que levou a que os outros graduados perguntassem o que tinha acontecido.

Depois de alguns segundos de silêncio, eu disse-lhes, com voz dramatizada, que estávamos quilhados. Tínhamos recebido ordem de marcha para a zona do Cantanhez, para onde seguiríamos, dentro de 3 dias. Foi como uma bomba! É claro que a maioria sabia do engano, mas alinhou na "tanga".

Mas, onde é que entra aqui o nosso 1º Gama? O problema é que o 1º Sargento havia comprado, uns dias antes, mais um grande lote de garrafas de uísque e assim que ouviu isto deu um salto como que impelido por uma mola.

-Como é isso meu Alferes? Vamos todos para o Cantanhez? Isso é verdade? Perguntou o 1º Gama.
- Nosso primeiro a coisa é bem séria! Vamos todos para o Cantanhez! Confirmei com a cabeça.

Depois da confirmação, o nosso 1º Sargento entrou em desespero...! Gritava o que é que iria fazer com a pôrra das garrafas de uísque que havia comprado, que nem ía ter tempo de as remeter para a metrópole, que tinha gasto tanto dinheiro na sua aquisição, etc. Estava fulo e chamava nomes a tudo o que era comandante, recorrendo ao seu vernáculo de bom alentejano. É claro que a malta alvitrou logo que o melhor era já começar a bebê-las e que todos nós estávamos dispostos ao sacrifício, dávamos o corpo ao manifesto, ajudando-o em tão árdua e imperiosa tarefa...!!! O nosso 1º estava desfeito. Eu sentia-me vingado.

Deixámo-lo com estas preocupações durante algum tempo, mas não me contive e disse-lhe a verdade. Ficou tão aliviado que me perdoou a maldade.

A cena poderia ter ficado por aqui, o problema é que uns dias depois, exactamente depois do almoço, surge um dos operadores cripto na messe a entregar-me uma mensagem e dizendo logo que o assunto era sério e que a mensagem era verdadeira.

Peguei na mensagem e li-a, primeiro com os olhos, depois com a alma, e lá estava, preto no branco. O comandante do batalhão solicitava a informação de quantas viaturas iríamos precisar para transferir a companhia para Galomaro, no prazo de 3 dias. É claro que não era a mesma coisa que sermos transferidos para o Cantanhez, eram apenas 20 km de distância, mas a malta ficou em polvorosa e muitos ficaram a pensar que era mais uma brincadeira. O 1º Gama lá deve ter pensado para com os seus botões, que afinal não seria assim tão mau e não me resingou os ouvidos como seria de esperar.

A verdade, é que tivémos de nos organizar para retirar a companhia do Dulombi, deixando ali, unicamente, 13 bravos, comandados, primeiramente, pelo Furriel Gonçalves do meu GC, posteriormente rendido pelo Furriel Soares das Trms e dois pelotões de milícias. O que começara por ser uma brincadeira para atesanar o nosso 1º Gama, acabou, uns dias depois, por ser realidade e a vida operacional da companhia iria ser muito diferente. Mantivémos as operações na zona do Dulombi, mas alargámo-las à zona de intervenção de Galomaro, tendo ainda um GC, em permanência, de intervenção em Piche, depois em Nova Lamego e até em Pirada. Era a companhia que detinha a maior área geográfica de intervenção em todo o território.

Assim, no dia 9 de Março de 1973, uma coluna de viaturas com a CCAÇ 3491, por mim encabeçada, entrava em Galomaro. Só regressaríamos ao Dulombi para realizar operações e em Janeiro de 1974, para preparar a recepção à companhia dos piras.

Luís Dias

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

VOTOS DE UM FELIZ NATAL E UM BOM ANO 2010



CAROS CAMARADAS E AMIGOS DA C. CAÇ. 3491 (Dulombianos em geral)

DESEJO A TODOS, BEM COMO ÀS VOSSAS FAMÍLIAS, UM SANTO E FELIZ NATAL

E UM BOM ANO 2010

QUE A VIDA VOS PROPORCIONE TUDO AQUILO QUE AMBICIONAIS E VOS DÊ,
PRINCIPALMENTE, MUITA SAÚDE E PAZ.

SÃO OS DESEJOS DO EDITOR



(LUÍS DIAS)



terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O CINEMA NO DULOMBI

Detrás do monumento aos mortos dos nossos "velhinhos" (a CCAÇ2700), podemos ver o refeitório, onde foi instalado o "cinema" do Dulombi.

O CAVALO DE FERRO DE VISITA AO DULOMBI

Aquartelados no Dulombi, desde Janeiro de 1972, os elementos da CCAÇ 3491 íam passando os dias em operações semanais para os lados do Rio Corubalo, em emboscadas nocturnas, picagens para as colunas semanais a Bambadinca/Bafatá/Galomaro para reabastecimento e em serviços que o Capitão tratava de arranjar diariamente no quartel para os manter ocupados (limpeza do quartel, arranjo das valas, segurança e transporte da água do rio para abastecer o aquartelamento, etc.).

Como distracções lá tínhamos umas futeboladas, umas trocas bem assanhadas de caneladas, mormente quando ao fim de semana fazíamos um Benfica - Outros (Sporting + FC Porto), em qua havia as habituais apostas (grades de cerveja ou garrafas de uísque), entre mim (um lampião orgulhoso) e o Furriel Enfermeiro Nevado (um lagarto ferrenho), isto para além dos jogos de cartas habituais.

Outro momento alto de distracção, isto para alguns dos graduados, eram os "petiscos" organizados por uma comissão composta por: Alferes Dias (2ºGC) e Parente (4ºGC), 1º Sargento Gama e Furriéis: Nevado (Enfº), Batista (1ºGC), Gonçalves (2ºGC), Espírito Santo (2ºGC), Machado (4ºGC e já falecido), Carvalho (4ºGC) e Fonseca (o nosso vagomestre e recentemente falecido no trágico acidente na praia Maria Luísa). Todos os meses eram nomeados dois membros para gerirem as quotizações com que todos entravam para conseguir adquirir géneros, ou na tabanca ou em Bafatá, para elaborar uns tentadores petiscos com que nos banqueteávamos quando regressávamos das operações "famintos" e para reforçar os almoços domingueiros, normalmente uma belíssima sopa alentejana, preparada pelo nosso 1º Sargento (um alentejano de gema).

Um dia surgiu no Dulombi uma equipa projeccionista de Bissau que vinha entreter as tropas com a exibição de um filme: coisa diferente, tremenda alteração da rotina.

Privados de televisão e de cinema, a chegada desta equipa itinerante foi um acontecimento recebido com entusiasmo por todos. O cinema improvisado foi instalado no refeitório dos praças. Nesse princípio de noite lá se acomodaram as tropas, os milícias e também muitos elementos da população que estavam ansiosos por verem o filme. Não sei se os guerrilheiros do PAIGC sabiam da projecção, mas de facto fomos deixados em paz.

A projecção era de um daqueles tradicionais filmes de cowboys e índios, já não me lembro se protagnizado pelo John Wayne, o Henry Fonda, o Yul Brynner, ou outro famoso actor daqueles tempos. A coisa foi correndo de feição com o público entusiamado com a acção que se passava no ecrã. Contudo, a determinado momento, surge no filme, vindo do fundo de cena, um comboio, o qual avançava a toda a força do carvão em direcção à boca de cena, enchendo num repente todo o cenário, acompanhado de um barulho ensurdecedor, parecendo querer saltar do pano ou lona que serviam de ecrã para galgar para cima dos assistentes. A rapaziada já habituada a estas fitas ficou impávida e serena, mas com o pessoal africano é que a coisa fiou fino.

Aquele cavalo de ferro, como lhe chamavam os índios, parecia vir para cima dos espectadores e, como é sabido, não havia comboios na Guiné, isso provocou um alvoroço muito grande e muitos deles desataram a fugir, provocando o gáudio entre a restante assistência. Alguns ainda regressaram depois de chamados pelos militares, mas outros só devem ter parado já bem dentro da tabanca.

Foi um momento engraçado, de grande perplexidade da nossa parte por vermos os africanos a fugir do filme....mas houve também alguns dos nossos que efectuaram uma retirada "estratégica", não por causa do comboio, mas por verem os africanos a dar o "gosse", convenceram-se que era por causa do IN.

Os africanos, na sua maioria, nunca tinham visto um comboio e aquilo era, na altura, muita carruagem para formar uma "coluna" normal, das que eles estavam habituados, ainda por cima a resfolegar daquela forma.

Foi um dia/noite bem diferente que provocou a boa disposição entre o pessoal.

Luís Dias
Ex-Alf.Milº



quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O MÉDICO DO NOSSO BATALHÃO - O PROF-DOUTOR PEREIRA COELHO


O Prof. - Dr. Pereira Coelho, actualmente.

Alf. Mil. Médico Pereira Coelho na Guiné.

Caros Amigos e Camaradas

Há uns dias atrás, mais propriamente no dia do jogo de futebol entre Portugal e a Hungria, fui surpreendido com um telefonema do meu carissimo amigo - o Professor - Doutor Pereira Coelho - que me disse que o seu contributo para o blogue estava num artigo que saíra naquele dia na revista do Jornal "i". É claro que parti logo para a compra do jornal e depois de ler o artigo telefonei-lhe de volta e falámos um pouco sobre o artigo e que, a meu ver, era extremamente importante, permitindo-me que transcrevesse para o nosso blogue alguns dos seus pontos de vista sobre aquela guerra, expostos no citado artigo.

Parece-me dispensar apresentações o nosso querido médico de Batalhão, o então Alferes Miliciano Médico, Pereira Coelho. Permitam-me, no entanto, salientar que, para além das inegáveis qualidades profissionais, tantas vezes demonstradas no apoio aos nossos combatentes, na forma como se dedicava aos problemas que surgiam de âmbito médico nas companhias do batalhão e também nas tabancas que de nós dependiam e estavam inseridas na nossa quadrícula, mas também destacar o seu elevado humanismo e sentido de camaradagem, a forma como se disponibilizava para ajudar, muitas vezes ultrapassando o seu dever, correndo risco de vida. Estas qualidades levaram a que fosse estimado por todos os oficiais, sargentos e praças e tendo conquistado, rapidamente, a amizade e admiração das populações locais.

Como também todos sabem, o Professor - Doutor Pereira Coelho foi a alma pioneira de um projecto iniciado no nosso país - a Fertilização in-vítro. Em resultado do seu trabalho e em conjunto com a sua equipa do Hospital de Santa Maria, nasce, em 25 de Fevereiro de 1986, em Lisboa, a primeira criança, graças à técnica FIV. O rapaz, de nome Carlos Saleiro (é hoje avançado no Sporting) veio dar esperança a muitos casais com problemas de infertilidade. Este acontecimento encheu-nos, claramente, de orgulho.

O Alferes Médico Pereira Coelho, adoeceu em Galomaro e foi evacuado por coluna até Bafatá e depois seguiu de avioneta para Bissau, isto porque as evacuações por hélio estavam proibidas, sendo apenas usadas para casos extremos. Este facto, que se espalhou rapidamente pelas tropas, veio provocar alguma instabilidade nas nossas forças, porque muitos perguntavam: "Se eles não vêm a Galomaro, sede do batalhão, buscar o médico, com receio de serem atingidos pelos strella, como é que vão ao mato buscar alguém, se ficar ferido?"

O nosso médico, como ele conta na entrevista, foi desvinculado mais tarde do Batalhão e passou a ser o Director do Hospital Civil de Bafatá, onde continuou a exercer com a competência e a responsabilidade que lhe são conhecidas. Foi substituído no Batalhão pelo Alferes Miliciano Médico, Rui Coelho, também ele um óptimo profissional e um excelente camarada (estabelecido na cidade do Porto).

Extractos da entrevista do Alferes Médico Pereira Coelho, salientados pelo editor, com a devida vénia ao entrevistado e ao jornal "i".

O António Manuel (Pereira Coelho) que regressa no dia 25 de Outubro de 1973 (a) é uma pessoa muio mais forte e personalizada do que aquela que sai daqui em 22 de Dezembro de 1971 (b). Melhor. Mais preparado para enfrentar a vida. Munido de resistências fantásticas reunidas en terrenos pantanosos, por entre capins colossais, mercúrio severo e iminência de assaltos e emboscadas com desfecho imprevisto".

"Posso garantir que se a nossa atitude fosse de coragem e de espírito de luta pela sobrevivência, por muito maus bocados que tivéssemos passado, acabávamos por sair de lá mais determinados do que tínhamos ido".

"Fazendo uma retrospectiva da minha vida, quase me atrevia a dizer que o mais marcante foi a minha experiência na guerra, particularmente naquele período e naquele local" (c).

"Estávamos completamente sozinhos. Tínhamos de decidir as coisas mais inesperadas, particularmente quando foram proibidas as evacuações, a não ser em casos extremos".

Depois de em certo dia lhe cairem em mãos duas raparigas em estado comatoso com quadro de meningite. "Caí na asneira de fazer respiração boca a boca a uma delas. Passados uns dias apareci com febre enorme, rigidez na nuca, falta de ar. Achei que tinha contraído a doença e pedi evacuação".
Em termos de assistência civil às populações vê-se ainda a braços com uma epedemia de febre tifóide e sarampo, com exótica manifestação nos negros....Febre, manchas brancas, tosse e conjuntivite, em centenas de miúdos. Um flagelo desenrascado com sucesso à colherada de uma solução lenta improvisada.

Num ataque medonho à tabanca (d) incendeiam os telhados de colmo e o número de mortos explode à frente dos olhos. Nesse dia debate-se com 32 feridos graves queimados e uma das situções mais críticas, na sequência da morte de um dos enfermeiros (e) que estagiara com o grupo. "O pessoal que trabalhava comigo recusou-se a acudir alguns terroristas que tinham sobrevivido. Tive de ser eu sozinho a tratar dos homens do PAIGC."

Na chegada do correio a má nova faz estalar a polvorosa. Um dos elementos do batalhão apura por carta a traição da mulher. A loucura não faz a coisa por menos. Passeia-se (f) no aquartelamento com uma granada descavilhada pronta a desfeitear a harmonia. "Andei uma noite inteira atrás dele a convencê-lo a dar um destino à granada. Não podia sair do pé dele. Se a deixasse cair por cansaço ou por livre vontade, nós os dois íamos logo. Já pela madrugada concordou atirá-la no campo de futebol. Jamais me vou esquecer dessa noite, entre as sete da tarde e as cinco da manhã".

Quando certo dia se inteiram da iminência de um ataque a Bafatá, é destacada uma companhia de pára-quedistas para bater aquela zona e tentar localizar e interceptar o grupo. Os páras cumprem a operação. Quando regressam, o sargento que os comandara pede por tudo para ser recebido pelo médico. Nenhum mal lhe acometera a carne. Tem necessidade de desabafar depois de ter localizado o grupo de combate. "O grande dilema era o que fazer. Atacar e matá-los a todos ou poder vir a ser responsável pelas consequências de um ataque quando actuassem. Ignorou-os. Mas não conseguiu aguentar sozinho aquela responsabilidade." (g)

Pela conduta em missão, é-lhe concedido um louvor pelo comandante militar, Brigadeiro Bettencourt Rodrigues. Nunca prescinde da sua arma sempre que se desloca em coluna. "Entendiam que o médico não devia usar arma. Sim, mas era médico militar. Um mero alferes no meio dos outros soldados".

Regressa à Guiné em 1992. A saudade é apenas saciada em Bafatá. O seu aquartelamento em Galomaro dista por estrada 35 tortuosos quilómetros avessos a viaturas comuns. A realidade que os sentidos alcança decepciona. "As condições eram fantásticas comparadas com o que fui encontrar vinte anos mais tarde".

O hospital militar em Bissau, um modelo na altura, assente num lençol de água, afundara-se até ao ponto de inutilização completa. No Hospital Civil Simão Mendes, albergue próprio de "quinto mundo", as condições indignas facultam pouca assistência aos locais. Cheiro nauseabundo, fezes, urina. Gente prostrada. Enfermarias irrespiráveis....".

Impressionado mas também comovido depois da passagem por Bafatá. Uma consulta de manhã. E qual não é o espanto quando os enfermeiros que com ele trabalharam o reconhecem. "Foi indiscritível porque todos se agarraram a mim a pedir por tudo para os trazer para Portugal, porque a vida não se comparava com o outro tempo. Foi um drama ter de os afastar".

O calor da recepção aumenta depois do almoço. Defronte do hospital uma multidão de 4 ooo pessoas espera-o com a recordação fresca na fala. "Ainda sabiam o meu nome. Revela até que ponto o pouco que lhes podíamos dar os marcou."
Caro Amigo
Confesso, como alías já te disse, que gostei da tua entrevista e do contributo aqui para o blogue, e também te digo que me levantaste as saudades, não da guerra, mas da sã camaradagem que vivemos naquelas terras, dos amigos que lá deixámos e do apuramento de virtudes e de carácter que transformou meninos em homens.(h) Sabes que eras bastante apreciado pelo pessoal do batalhão e fizeste por merecer esse reconhecimento. Bem hajas.
Um grande abraço para ti e que o nosso Benfica continue em grande (este ano é que é!!!).
Luís Dias

NOTAS DO EDITOR:
(a) O nosso Batalhão chega a Lisboa a 4 de Abril de 1974.
(b) O Dr. P. Coelho vai para a Guiné no navio Niassa, juntamente com o BART 3873, em 22 de Dezembro de 1971, enquanto o nosso batalhão - BCAÇ3872, partira uns dias antes, em 18 de Dezembro. Contudo, o Alf. Médico vai para Galomaro directamente, chegando à nossa zona de intervenção um mês antes de nós, porque ficámos em IAO no Cumeré.
(c) A zona de actuação do BCAÇ 3872, situava-se no leste da Guiné, com a sede do Batalhão em Galomaro e as companhias sediadas em Cancolim, Dulombi e Saltinho.
(d) A tabanca era a de Campata, que foi violentamente atacada, mas onde o IN sofreu bastantes baixas face à reacção do pelotão de milícias ali instalado.
(e) Tratava-se de auxiliar de enfermagem de origem local e que dormia na tabanca atacada.
(f) Quartel da sede do batalhão em Galomaro.
(g)De facto uma força de pára-quedistas localizou na área de intervenção da companhia de Cancolim uma força inimiga estimada em cerca de 100 elementos e solicitou ataque aéreo, recuando da zona. O grupo In terá primeiramente debandado, mas reagrupou-se e terá sido responsável pelo ataque com foguetões a Bafatá. O Sargento que comandava a força terá sido alvo de processo disciplinar por ter evitado o contacto com as forças do PAIGC. O caso foi bastante comentado entre as nossas forças, pois não era habitual que tropas especiais "retirassem" numa situação daquelas....!
(h) Era normal, no discurso de regresso à metrópole proferido pelo General António Spínola, ele referir-se ao facto das tropas chegarem ao território ainda meninos e partirem feitos homens. "Chegastes meninos! Partis homens!".












domingo, 20 de setembro de 2009

MAIS UM GRUPO DE FOTOS DOS NOSSOS TEMPOS DA GUINE

Na 1ª foto em baixa vemos os Alf. Vasconcelos (CCS) e Dias (CCAÇ3491) à porta da messe de oficiais de Galomaro (com certeza à espera do tacho). Galomaro 1973.
Na 2ª foto está o pessoal de transmissões da CCS, reforçada pelo Fur. Soares da CCAÇ3491. Galomaro 1973.
Na primeira foto em baixo um unimog com pessoal do BCAÇ3872 na estrada Cumeré-Bissau. Atrás do párabrisas vemos o Alf. Dias, atrás do condutor o Alf. Vasconcelos e mais atrás podemos ver o Alf. Farinha, Furriéis Soares e Lourenço.
Na segunda foto e ao centro o Cap. Pires CCAÇ3491), estando ao seu lado direito os Alf. Dias (CCAÇ3491) e Alf. Vasconcelos (Trms-CCS) e ao seu lado esquerdo o Fur. Fonseca (CCAÇ3491-recentemente falecido) e à frente deste o Fur. Rodrigues (CCAÇ3491).
Foto de parte do grupo de recepção aos piras (Dulombi-8-2-74), estando da esq p/ a dir o 1º cabo enf. Rocha (aqui o malandro tem os meus galões de alferes), o Joaquim Xavier, o 1º cabo Santos da Ferrugem ( falecido há alguns anos em Espanha, onde trabalhava), o praça "Cobrinhas", com os galões do capitão, ?, e o Sousa dos morteiros (81mm). Por trás o unimog onde transportávamos um canhão falso, que depois instalámos num espaldar do quartel, coberto por uma lona e que serviu para brincar com os piras dizendo-lhes que o canhão atingia o Rio Corubal0 (brincadeira que durou uns 3 dias). Em baixo elementos de um Grupo de Combate da CCAÇ3491 de segurança à picada Dulombi-Galomaro.

Em baixo fotos dos foliões da Comissão de boas vindas ao piras (Dulombi 8-2-74).


Estas fotos foram-nos remetidas pelo Camarada da CCS Juvenal Amado, sendo que as mesmas foram ofertas dos camaradas também da CCS: Dr. Rui Coelho e Eng Mario Vasconcelos, Aos três, desde já agradecemos estas belas lembranças enviando-lhes um grande abraço.
Luís Dias