sábado, 14 de janeiro de 2012

O FOGUETÃO 122mm BM-21 GRAD

O FOGUETÃO 122mm BM-21 GRAD

Documento remetido para o blogue do Luís Graça e Camaradas da Guiné, sobre esta arma.

Caros Camaradas

Embora este tipo de armamento não seja propriamente da minha especialidade desejo dar este pequeno contributo, retirado de elementos colhidos na net.
O lançador de foguetes Katyusha é uma arma de artilharia (lançador de foguetes múltiplos) desenvolvida e utilizada pelo Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, a partir de 1941 Foi apelidado na época de "Órgão de Estaline" pelas tropas alemãs (em alemão: Stalinorgel) em referência ao dirigente soviético com o mesmo nome. Já o nome Katyusha foi dado pelo Exército Vermelho retirado de uma música famosa durante o período da guerra, que contava a história de uma jovem russa (Katyuhsa, diminutivo russo para Catarina) cujo namorado estava longe em virtude da guerra. Os lançadores múltiplos eram colocados em diversos tipos de viaturas (camiões e até tractores), para mais facilmente serem deslocados.
O desenvolvimento dos foguetes lançados por artilharia na URSS iniciou-se em finais dos anos 40, a fim de se substituírem ou complementarem os Katyusha de 82mm, 132mm e 300mm, da IIª GM. A fábrica estatal situada em Tula, sob a liderança de A. Ganichev, apresentou o foguete/foguetão (míssil) no calibre 122mm, em 1963, denominado 122mm BM-21 GRAD. Ao longo de 1964 foram produzidos diversos tipos desta série, montados em camiões e outros veículos de vários tipos e dimensões, com diversos conjuntos e combinações de lançamento múltiplo. Também foi fabricado o foguete/foguetão 9P132/BM-21-P, no calibre 122mm (mais curto que o modelo standard), a ser lançado por um único tubo – o lançador 9M28/DKZ-B (embora também pudesse ser usado por um multi-tubo).
O modelo standard é composto por uma cabeça (ogiva) explosiva de alta fragmentação (havia apontamentos no Exército Português que referiam que a cabeça se fragmentava em 14 000 estilhaços), um corpo em aço e um motor eléctrico de propulsão situado na cauda. A estabilização durante o voo é conferida por 4 aletas estabilizadoras, situadas na parte de trás do foguete que quando completamente abertas atingem os 226mm. A cabeça contém 6,4 Kg de explosivo e o detonador é armado por inércia, após percorrer entre 150 a 400 m. Podem ser aplicadas outro tipo de ogivas (químicas, fumos, incendiárias). O motor consiste em 20,5 Kg de um propelente sólido. O peso total do foguete varia entre os 49,4 Kg e os 66 Kg e o seu comprimento entre os 2, 46 m e os 3, 22 m, também o seu alcance varia entre os 10 900 m e os 20 750 m. O míssil é reconhecível pelos sete tubos de descarga propulsora existentes na cauda.
Os tubos para lançamento eram de alma lisa, contendo, no entanto, uma ranhura, onde ficava encaixado um perne localizado no corpo do míssil (junto à zona das aletas), que imprimia, aquando do disparo, um movimento de rotação ao foguetão, originando a abertura das aletas por inércia e conferindo a estabilização de voo ao míssil.
Sabemos que a arma (original) não era muito precisa e era necessário o emprego de muitos foguetes para que a sua eficiência fosse assinalável. No entanto, tinha um impacto psicológico enorme face ao volume e intensidade de som produzido aquando das múltiplas saídas dos tubos.
A arma Katyusha era originalmente a denominação para os foguetões utilizados pelos multi-lançadores, que eram transportados em diversos tipos de camiões. Depois da guerra, os soviéticos aperfeiçoaram estes multi-lançadores, com o surgimento do míssil 122mm BM-21 GRAD, colocados em viaturas diversas e com diverso número de tubos. Aperfeiçoaram também um míssil portátil, na origem do anterior, mas ligeiramente mais curto, com o mesmo calibre, com a denominação 9P132/BM-21-P, que era lançado pelo uni-tubo 9M28/DKZ-B e era este o míssil mais utilizado nos ataques por foguetões na Guiné, pelo menos dentro do território, tendo sido, inclusive, capturadas diversas rampas de lançamento do tipo referido, conforme diversas fotos existentes (CCAÇ4740, 72/74 – Cufar).
Hoje, o uso de lançadores múltiplos de mísseis encontra-se difundido pela maior parte dos exércitos de todo o mundo.
De facto, a denominação Katyusha foi atribuída aos mísseis do tempo da IIª GM, que usavam vários calibres e eram transportados em camiões, mas tornou-se usual utilizar este nome, como “nick name”, a alcunha, para os foguetões usados em multi-lançadores, mesmo os fabricados por outros países.
Na Guiné, sempre usei a terminologia foguetão 122mm, quando me referia a esta arma (o IN usou-a na nossa zona, depois de passar entre a área de Cancolim e Dulombi e atacou Bafatá em Agosto de 1972, embora sem grandes prejuízos(#)), mas ouvi, também, muita gente referir-se como foguetão do tipo katyusha. No entanto, do que li, a terminologia katyusha é usada, unicamente, para os mísseis usados em lançadores múltiplos.
Espero ter dado uma ajuda sobre este tema.
Um abraço
Luís Dias
(#) Devido ao facto de haver um forte empenhamento do IN na zona do Batalhão, foi lançada uma operação pela CCP 121, a 2 GC, na área entre Cancolim e Dulombi, vindo a detectar um grupo inimigo estimado em mais de 100 elementos que, após apoio aéreo e dos roquetes disparados por um Fiat G91, dispersou, batendo em retirada. O Cmdt do grupo dos páras (Sargento) veio a ter problemas disciplinares por não ter atacado o IN, tendo preferido chamar a FA e retirado. O IN ter-se-á reagrupado e terá sido responsável pelo ataque a Bafatá com o uso de foguetões 122mm (Em Agosto de 1972).


O FOGUETÃO 122mm BM-21 GRAD

O LANÇADOR UNI-TUBO 9M28/DKZ-B, para os FOGUETÔES BM-21 GRAD, de 122mm

Fotos colhidas do blogue:http://www.blogueforanadaevaotres.blogspot.com/, com a devida vénia e agradecimento.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

MORREU O PRESIDENTE DA GUINÉ-BISSAU: MALAM BACAI SANHÁ

Em Junho de 2009 foi eleito Presidente da Guiné-Bissau na segunda volta das presidenciais, disputada contra Kumba Ialá (candidato apoiado pelo Partido para a Renovação Social)

Bissau - O Presidente da Guiné-Bissau, Malam Bacai Sanhá, que morreu, segunda-feira(9), vítima de doença, num hospital de Paris, nasceu há 64 anos no sul do país, região de Quinará. Era licenciado em ciências sociais e políticas e ocupou em vida quase todos os cargos políticos do Estado.

É a seguinte a lista das principais datas no percurso de Malam Bacai Sanhá:

Junho de 2009: Eleito Presidente da Guiné-Bissau na segunda volta das presidenciais, disputada contra Kumba Ialá (candidato apoiado pelo Partido para a Renovação Social)

2005: Candidato do PAIGC nas eleições presidenciais, perde para Nino Vieira

2000: Perde nas eleições presidenciais para Kumba Ialá (candidato do Partido para a Renovação Social)

1999-2000: Presidente da República Interino

1994-1999: Presidente da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau

1992-1994: Ministro da Administração Pública e Trabalho

1991-1992: Ministro da Informação e das Telecomunicações

1990-1991: Secretário-Geral da União Nacional dos Trabalhadores da Guiné-Bissau (central sindical mais representativa do país)

1986-1990: Ministro de Província do Leste

1981-1986: Governador da Região de Gabu

1975-1976: Administrador da Região de Biombo

1970-1974: Licencia-se em Ciências Sociais e Políticas, na antiga RDA.

1962: Torna-se militante do PAIGC, Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde

1947: Nasce na região de Quinara, sul da Guiné-Bissau, a 05 de Maio.


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

TENTATIVA DE GOLPE DE ESTADO NA GUINÉ OU "GUERRINHAS" ENTRE AS FORÇAS ARMADAS?



Governo português «atento» à situação na Guiné
Foram recomendadas medidas de precaução à comunidade portuguesa

Por: tvi24 | 26- 12- 2011 17: 32

Guiné-Bissau (reuters)

Relacionados

Guiné: situação «sob controlo»Guiné: situação «sob controlo»
Guiné-Bissau: chefe das Forças Armadas reunido com Governo Guiné-Bissau:
Tiroteio obriga PM da Guiné Bissau a refugiar-se na Embaixada de Angola.


O Governo português está a acompanhar «com atenção» a situação na Guiné-Bissau e recomendou à comunidade portuguesa «as medidas de precaução adequadas nestas circunstâncias», após um conflito hoje entre militares naquele país, segundo um comunicado enviado à Agência Lusa.

Segundo a nota do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Governo tem ainda «mantido contactos com as autoridades guineenses e com os parceiros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)» sobre a situação.

O Executivo português apela também ao «compromisso de todas as instituições e forças políticas guineenses no sentido da estabilidade, da institucionalidade e da segurança no país».

O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Guiné-Bissau, António Indjai, garantiu hoje que a situação no país está «sob controlo», mas remeteu para o Governo mais esclarecimentos sobre os conflitos entre militares.

António Indjai falava aos jornalistas após um encontro com os ministros da Defesa Nacional, Baciro Djá, da Educação, Artur Silva, e do Interior, Fernando Gomes, que durou cerca de uma hora e meia.

O chefe das Forças Armadas referiu ainda que «o Governo vai emitir um comunicado nas próximas horas para explicar o que se passou».

Por seu lado, em declarações à Lusa no final do encontro, o ministro da Defesa adiantou que membros do Governo iriam reunir-se às 17:00 com o presidente do Parlamento, Raimundo Pereira, que está constitucionalmente a substituir o Presidente guineense, Malam Bacai Sanhá, internado num hospital em Paris para exames médicos.

Segundo Baciro Djá, haverá depois uma declaração política.

Militares armados

António Indjai chegou ao Ministério da Defesa vestido à civil e acompanhado de cerca de 50 militares armados com kalashnikov e lança-rockets.

Um dirigente do Movimento da Sociedade Civil da Guiné-Bissau, Luís Vaz Martins, denunciou hoje a ocorrência de «movimentações militares anormais» nalguns quartéis do país o que disse tratar-se de «mais uma insubordinação dos militares» ao poder civil.

A situação na capital é calma, mas a rua que dá acesso à casa do primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior, em Bissau, foi cortada ao trânsito ao início da tarde e a segurança da zona foi reforçada com polícias e militares.

PM em local desconhecido

O paradeiro do chefe do Governo é desconhecido, havendo, no entanto, informações não confirmadas de que poderá estar refugiado na embaixada de Angola em Bissau.

As instalações da embaixada ficam em frente à casa do primeiro-ministro.

Por seu lado, o chefe do Estado-Maior da Armada, Bubo Na Tchuto, convocou os jornalistas para lhes dizer não tem nada a ver com as movimentações militares no país.

«Foi o próprio chefe do Estado-Maior (António Indjai) que me ligou, esta manhã, a perguntar se seriam os meus homens que tentaram atacar o paiol, ao que lhe respondi que não são os meus homens e não tenho nada a ver com tudo isso», disse.

Esta situação faz lembrar o levantamento militar de 1 de Abril de 2010. Na altura, um grupo de militares, liderados por António Indjai e Bubo Na Tchuto destituiu o então chefe do Estado-Maior, Zamora Induta, tendo também detido, por algumas horas, o primeiro-ministro.

António Indjai era na altura vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e Na Tchuto estava refugiado na sede das Nações Unidas depois de regressar ao país oriundo da Gâmbia, para onde havia fugido por ter sido acusado de tentativa de golpe de Estado.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

BOM NATAL E UM FELIZ ANO NOVO




DESEJO A TODOS OS CAMARADAS E AMIGOS, BEM COMO ÀS VOSSAS FAMÍLIAS, UM BOM NATAL E UM FELIZ ANO NOVO.,

O Editor
Luís Dias

domingo, 18 de dezembro de 2011

FAZ HOJE 40 ANOS QUE EMBARCÁMOS PARA A GUINÉ









Caros Camaradas e amigos

Faz hoje 40 anos (18 de Dezembro de 1971) que o Batalhão de Caçadores 3872, com as suas companhias CCS (Galomaro), CCAÇ 3489 (Cancolim), CCAÇ 3490 (Saltinho) e CCAÇ 3491 (Dulombi/Galomaro), embarcaram no navio "Angra de Heroísmo" a caminho da então província da Guiné.

A preparação do pessoal do Batalhão teve início em 13 de Setembro de 1971, com a Escola Preparatória de Quadros, da 3ª Escola de Recrutas de 1971, que durou até 25 de Setembro. De 27 de Setembro a 13 de Novembro de 1971, teve lugar a Instrução Geral e de Especialização. Entre 15 de Novembro e 27 de Novembro, decorreu a organização do Batalhão e em 29 de Novembro entrámos todos de licença de 10 dias.
Em 14 de Dezembro de 1971 (dois dias depois de ter feito 21 anos), teve lugar na Parada do Regimento a Cerimónia de Despedida, com alocução proferida pelo Comandante da Unidade. Em 18 de Dezembro partiu o Batalhão em viaturas militares até à estação de comboios de Abrantes, onde nos esperava um comboio especial que nos levou até ao Entroncamento e, após transbordo para dois comboios especiais, seguimos até à Estação de Santa Apolónia, seguindo, posteriormente, em viaturas militares (houve militares que tiveram de caminhar cerca de 500 metros até às viaturas, carregados com os seus haveres) até à Gare Marítima de Alcântara, onde chegámos às 6H30 (praticamente ninguém dormiu). Às 10H00, após formação do Batalhão, iniciou-se o embarque no N/T "Angra do Heroísmo", que zarpou de Lisboa, cerca das 12H00.
Depois de uma breve paragem no Funchal para embarque de três companhias locais (As C.CAÇ 3518 - Gadamael e Guidage, C.CAÇ 3519 - Barro/Cacheu),e a CCAÇ 3520 (Cacine) o navio continuou a viagem e fundeou em 24/12/71 ao largo de Bissau, pelas 06H00, atracando cerca do meio-dia. Depois do desembarque, o Batalhão deslocou-se em viaturas civis para o aquartelamento do Cumeré, onde passámos o nosso 1º Natal longe das nossas famílias (iríamos ser surpreendidos com mais 2 natais).

Um abraço

Luís Dias

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

DIA DE ANIVERSÁRIO DO EDITOR


CONVÍVIO NA MESSE DO DULOMBI, EM 1972

CONVÍVIO NA MESSE DE SARGENTOS DE GALOMARO COM DIVERSOS OFICIAIS E FURRIÉIS, EM 1973

Guiné 63/74 - P9204: Parabéns a você (353): Dia 12 de Dezembro de 2011 - Luís Dias, ex-Alf Mil da CCAÇ 3491/BCAÇ 3872 (Guiné, 1971/74) - Agradecimento
1. Mensagem do nosso camarada Luís Dias (ex-Alf Mil da CCAÇ 3491/BCAÇ 3872, Dulombi e Galomaro, 1971/74), com data de 13 de Dezembro de 2011:

Caros Editores
Incluso um pequeno agradecimento pelas palavras que muitos camaradas se dignaram endereçar-me pelo meu aniversário, bem ainda como duas fotos de convívios em Galomaro e no Dulombi, que se acharem de interesse postar, agradeço.

Apenas uma pequena correcção que, por lapso, ficou no post. Estive na Guiné entre Dezembro de 1971 e Março de 1974 e não entre 1970 e 72.

Um abraço.
Luís Dias


AGRADECIMENTO EM DIA DE ANOS

Caros Camaradas, Caros Amigos
Venho agradecer a todos aqueles que, quer através do nosso blogue, quer através de mails, SMS, mensagens no Facebook e por telefone, decidiram perder algum do seu precioso tempo e enviar-me os parabéns pelo meu aniversário, nomeadamente: Luís Graça, Carlos Vinhal, Virgínio Briote, José Martins, Vasco da Gama, Hélder Sousa, Luís Borrega, António Tavares, António Pimentel, Manuel Marques, António Dâmaso, Santos Oliveira, B. Sardinha, Zé Manuel Cancela, Manuel Marinho, José Saúde, Joaquim Mexia Alves, César Dias, Adriano Moreira, Arménio Estorninho, Felismina, Rui Silva, Torcato Mendonça, Manuel Reis, Manuel Maia, Luís Faria, José Câmara, António Paiva, José Dinis, Manuel Passos, Manuel António,Magalhães Ribeiro, Manuel Rodrigues, Carlos Filipe e Manuel Joaquim. Estais todos no meu coração.

Das mensagens recebidas uma tocou-me e sensibilizou-me muito particularmente, refiro-me à do camarada Juvenal Amado, reproduzida aqui no blogue. De facto, fruto da diferença hierárquica ou outros circunstancialismos existentes naqueles tempos, não tivemos a possibilidade de conhecer melhor muitos daqueles que connosco operavam, combatiam ou serviam de apoio. Estas diferenças eram, no meu ponto de vista, mais acentuadas nas sedes de Batalhão, onde o peso da hierarquia mais se fazia sentir. Nos quartéis das Companhias a rigidez militar era menos acentuada e havia mais convívio e as pessoas conheciam-se melhor. Por exemplo, no quartel do Dulombi (CCAÇ 3491), a zona das messes de graduados estava dividida em duas salas (uma para oficiais e outra para sargentos), contudo, rapidamente, se sensibilizou o nosso capitão para que a sala de sargentos fosse usada como messe para todos e a outra sala para convívio e jogos. Esta só seria usada como messe quando vinham em visita ao quartel alguém de Bissau ou o Comando do Batalhão e assim se fez até de lá sairmos. O próprio refeitório dos praças estava separado da messe dos graduados, unicamente pela cantina. Na Companhia todos se conheciam e sabíamos os nomes de toda a gente, praticava-se o que hoje se chama de uma política de proximidade. Os graduados percorriam com muita frequência as instalações atribuídas aos praças, quer fossem as camaratas, quer fossem os abrigos, como forma de se certificarem das condições das mesmas. Quando, em Março de 1973, por imperativos operacionais, a nossa CCAÇ foi colocada na sede do Batalhão (Galomaro), onde já se encontrava a CSS, produziu-se grandes alterações na forma como nos relacionávamos. As messes eram separadas e o Comandante não era lá muito dado a convívios.

Caro Juvenal, com certeza que fizemos acções conjuntas, que me transportaste mais o meu Grupo de Combate inúmeras vezes para emboscadas nocturnas, que nos foste buscar ao Dulombi, ou levar e buscar a outros locais, como Piche, Nova Lamego, Pirada ou mesmo ao Saltinho. Cruzámos juntos, efectivamente, aquelas perigosas picadas e coube ao destino que regressássemos ilesos e que não tendo tido oportunidade de, naquelas quentes terras, te conhecer melhor, tenha sido através desta Tabanca Grande, daquilo que escreves e pensas, ter quase a certeza que, afinal, nos conhecemos há muitos anos. Éramos e somos feitos da grande massa humana que teve de arrancar para o ultramar, viveu perigos, criou amizades para a vida e mesmo fazendo a guerra, consegue, passados estes anos todos, ter a capacidade de não ter ódio pelos inimigos, e gostar daquelas gentes que também connosco sofriam a mesma guerra.

Juvenal, obrigado pelas tuas palavras, pela tua amizade. Lamento não nos termos conhecido melhor, aquando da nossa comissão, eu, de certeza, fiquei a perder, porque és um excelente ser humano e a tua amizade ter-me-ia enriquecido.

Um abraço a todos do tamanho das tabancas reunidas de Dulombi e Galomaro.
Luís Dias





Mensagem do nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74), dirigida ao nosso aniversariante:

Caro Luís Dias
Mal nos conhecemos na Guiné mercê da diferença hierárquica e facto de também sermos de Companhias diferentes.
Foram muitas as vezes que fui ao Dulombi, também fui dos ajudou a transferir a vossa Companhia para Galomaro e possivelmente também participei no transporte do teu pelotão para Nova Lamego, ou no regresso dele a Galomaro.
Enfim cruzámos-nos vezes sem conta, temos uma estória durante a nossa comissão mas foi aqui que acabei por te conhecer, saber dos teus anseios, preocupações e também nos tornamos amigos.
Aquele tempo e a memória dos lugares construiu algo que que se transformou num laço de união e amizade.
Para além do que passamos juntos há este caminho que fazemos agora, que nos dá a sensação de falarmos com alguém próximo, familiar que estimamos, com quem nos preocupamos se não temos notícias.
Assim tecemos uma malha de amizade que nos conforta e é em nome dessa amizade, que venho aqui hoje dar-te os parabéns, desejar que contes muitos anos de boa disposição, saúde, juntamente com quem mais amas.
Muitos parabéns e um grande abraço do tamanho das tabancas de Galomaro.
Juvenal Amado

domingo, 11 de dezembro de 2011

TRÊS NATAIS NA GUINÉ

PUBLICADO NO BLOGUE DO LUÍS GRAÇA & CAMARADAS DA GUINÉ E NO FACEBOOK



Guiné 63/74 - P9169: (Ex)citações (163): A época de Natal foi a sempre a altura que mais me custou a passar... E foram 3 (três) Natais que passei no CTIG... (Luís Dias)
1. Comentário ao poste P9148 (*), enviado por Luís Dias (ex-Alf Mil da CCAÇ 3491/BCAÇ 3872, Dulombi e Galomaro, 1971/74):

Caro Juvenal:

Foram efectivamente três os natais que passámos na Guiné (**). Três épocas de Natal, que nos retiraram das nossas famílias. Foi este o brinde que calhou ao nosso BCAÇ 3872:

(i) O primeiro foi passado no Cumeré, chegadinhos nesse dia 24 de Dezembro de 1971;

(...) "Desembarcámos do navio Angra do Heroísmo, no Cais de Pidjiquiti, fardados de camuflado e com um calor e humidade que o colavam à nossa pele e ouvindo as bocas de periquito vai para o mato, dos estivadores negros e de quem assistia aos primeiros passos daqueles jovens em terras de África, saídos poucos dias antes da Metrópole e roubados ao sossego das suas vidas. Seguimos em viaturas civis para oCumeré, onde o Batalhão ficaria instalado para o IAO e passaria aquela primeira noite" (...) (**).

(ii) Depois o segundo já o passei no Dulombi;

(...) "Em Dezembro de 1972, depois de ter frequentado o Estágio das Unidades Africanas em Bolama e S. João, sob o Comando do então Major Coutinho e Lima, pessoa que me pareceu um excelente militar e um excelente ser humano, consegui regressar à minha Companhia, a tempo de passar o Natal com o meu pessoal, no nosso Dulombi. (...) Foi a festa possível, com cânticos e algumas lágrimas de saudade. Estávamos também em alerta, dado que no princípio desse mês o IN atacara fortemente a sede do batalhão (Galomaro). Comemos o famoso bacalhau liofilizado, mas com a esperança – por sinal errada – que seria o último que passaríamos na Guiné e que em 1973 estaríamos no seio das nossas famílias" (...) (**)

(iii) Mas o terceiro, passei-o uma parte em Nova Lamego (onde o meu Gr Comb estava de intervenção) e depois da meia-noite no mato circundante daquela cidade, em emboscada nocturna.

(...) "Um Natal nestas condições, com o sonho desfeito de voltarmos a casa no tempo previsto, com 24 meses de Guiné já cumpridos e estando fora da Companhia, foram difíceis de gerir e de digerir e os sentimentos que lavravam entre todos nós, eram um misto de revolta e de raiva. Lembro-me que, após a ceia de Natal em Nova Lamego, o Grupo de Combate, pela meia-noite, foi para o mato, substituir outros camaradas que estavam desde o fim da tarde emboscados, para que eles pudessem também vir comer a ceia. Ali ficámos a fazer segurança até ao alvorecer, cada um a pensar, com certeza, na importância de mais um Natal afastado da sua terra, da sua família, dos entes queridos. (....) (**)

A época de Natal foi sempre a altura que mais me custou na Guiné, muito em especial a primeira e a terceira (dado que pensávamos que a passaríamos já em família, pois o tempo da comissão tinha terminado em Outubro).

Se pudéssemos juntar todos os camaradas, as nossas famílias e envolvê-los no Natal que alegria seria! (***)

Obrigado e parabéns pelo que escreveste, pela tua filha e pelo seu aniversário.
Um abraço.
Luís Dias
__________________

A foto que o Blogue do Luís Graça apresentou faz parte do Grupo de Recepção ao General Spínola, Comandante-Chefe, que inaugurou o Quartel do Dulombi, em 27 de Abril de 1972. Tínhamos quase 4 meses de Guiné e eu já havia passado por me terem deixado perdido no mato, após um forte ataque de abelhas, na 1ª operação com os nossos "velhinhos", por um desembarque na Ponta Luís Dias, atravessando as matas do Fiofioli, uma zona de implantação do PAIGC, por uma emboscada/contacto com o IN, por levantamento de mina AC e mina AP. O Batalhão já sofrera 13 mortos em combate.