terça-feira, 23 de agosto de 2011
DING DONG! DING DONG! DING DONG!
Com a devida vénia para o autor - FERNANDO NEVES - camarada combatente de Moçambique, transcrevo uma pequena peça apresentada no Facebook - VOZ DOS COMBATENTES, no passado dia 22 de Agosto:
Luís Dias
Ding, dong, ding, dong, ding, dong
Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, eu te baptizo José.
Estremunhado e assustado com aquela água que me escorria pelo rosto chorei desalmadamente.
E o cabrão do diabo disparou um pau………filho da puta que me acertaste em cheio…………
Ding, dong, ding, dong, ding, dong
José, José aguenta foda-se…………. matem o cabrão desse turra.
A voz do meu Alferes longínqua já
E o sino balavava ding…. dong, ding……. dong, em Nome do Pai…………………frio e………………………. silêncio.
Absurdamente apetece-me chorar desalmadamente pois estou estremunhado e assustado.
Eu te baptizo……………… José.
Veio-me ás narinas o cheiro a terra, tocavam a silêncio, disparam salvas, descansar, à vontade.
Aquela voz do meu Comandante, quero falar mas o meu Alferes não me ouve.
Sons de pazadas de terra a caírem sobre mim, porra, estou morto???????????
Tinha um faro para as armadilhas e por isso estava sempre à frente de olhos bem despertos a dar com os arames de tropeço …e lá vai mais uma ao ar esta já não dá cabo de mais ninguém.
Naquela manhã de cacimbo cerrado a mata entrou em silêncio, todos os meus sentidos estavam alerta cheirava a morte no ar, um tiro e caí o meu Alferes, abri fogo como nunca e deitei-me em cima dele, fui sacudido para o lado e abrimos fogo desalmadamente. Como os filhos da puta gritavam e depois o silêncio.
Gaita, que estragos fizemos……….ficaram ali mesmo enterrados, para não servirem de comer às feras.
O meu Alferes abraçou-me e disse, obrigado José, mas da próxima vez vê primeiro se pulas para cima de um morto ou de um vivo.
Ding……..dong, quem com ferros mata com ferros morre, …………..catequese.
Fiquei junto do pelotão e de cada vez que havia patrulhas lá ia eu à frente, quantas vezes abri o faro do Fernando para ele poder ver os malditos arames.
E pulei novamente em cima do meu Alferes desta vez tinha toda a razão. Safei-lhe a vida, com aquele tropeção que o obriguei ao chão antes daquela bala o estraçalhar como me fez a mim.
Ding,…dong………eu te baptizo José.
Gaita, que este sino da minha aldeia incomoda e paro para ver o que se passa.
Vejo uma Luz branca e só distingo um botão cosido num bocado de uma farda, pergunto quem vem lá?
O Soldado Desconhecido, responde alguém com voz branda e suave.
Soldado Desconhecido? O da Batalha? Em Moçambique? Com é possível?
Ding……..dong novamente o sino da minha aldeia chama-me com toda a força e viajo até lá.
Há choro, e chamam pelo meu nome, José, Paz à sua Alma diz o Senhor Prior, sinto que de alguma forma sou invadido por uma sensação de Paz profunda, volto a ver esse botão cosido num pedaço de farda e essa Luz branca que me diz:
- José vem comigo.
Sinto que recuo no TEMPO sempre acompanhado pelo Soldado Desconhecido, e viajo pela História da Minha Pátria, deste Chão Luso.
Meu Deus que viagem vertiginosa e esclarecedora eu tenho.
Percebo agora o significado das “Quinas” da Minha Bandeira, o seu verde e vermelho a sua esfera armilar e cada vez mais orgulhoso fico com a BANDEIRA a quem Jurei Fidelidade, Honra e Sangue.
Pátria Fiel e Honrada eu Servi, disse ao SOLDADO.
Ele olha para mim e num olhar de profundo respeito, pergunta-me se estou pronto para viajar mais um pouco.
Respondo que sim e o SOLDADO pega-me na mão com força e pede aos Céus Licença para…………………….
Estremeço ao sentir o cheiro daquela terra novamente, mas estou amparado pelo SOLDADO e vejo……………e oiço…………….
E o SOLDADO disse-me que estamos no século XVII e vejo a caça aos escravos e o que eles lutavam para fugir às malhas do cerco das outras tribos.
Depois vejo o mercado dos escravos e a venda e o embarque nos negreiros e as famílias separadas.
Vejo a separação de Pais e Filhos de Mulheres e Maridos de aldeias que são dispersas para terras de longe e de joelhos eu caio. E Juntamente com o SOLDADO, peço PERDÂO AO PAI.
Ding…………….Dong, novamente o sino da minha aldeia.
Toda a Criação é Filha de Deus…………………….catequese.
Estou perturbado e pergunto ao SOLDADO, mas que tem isto de ver comigo?
Tens Sangue LUSO ou não?
E recuo ainda mais no tempo e há um a quem chamam de Viriato que se apresenta e sinto que foi aí nesse momento que o meu Sangue sentiu todo o Valor da carga genética, e depois veio um Dom Afonso Henriques e um Nuno Alvares Pereira e senti todo o Valor do Meu Sangue.
Disse em alto Brado Sou Sangue Luso, mas se há erros na minha História, então mereço o Perdão do Pai.
E novamente vi na “volta do tempo”, civis que eram obrigados a debandarem das suas casas e famílias desmembradas e deslocadas para uma terra longínqua, que por Graça do Pai não entrou numa guerra civil por muito pouco.
E vi que a Paz não voltou àqueles territórios pois os novos governantes eram os chefes das antigas tribos que se dedicavam a apanhar os outros para os venderem como escravos, e assim até que…….
Ding…Dong, eu te baptizo José.
Novamente o sino da minha aldeia me chama compulsivamente e assisto a uma missa por acção de graças, pois o meu irmão mais novo foi eleito Presidente da Câmara.
Sorte dele que não sentiu a cheiro da Guerra, mas vejo a sua ALMA Triste………
Pergunto ao SOLDADO o que se passava e ELE responde-me Está aberta uma nova GUERRA em Portugal.
Uma Guerra de Paz e Dignidade, esclarece
O teu Irmão vai proceder com Dignidade pela tua Memória, pois além de ir inaugurar um Monumento aos Mortos do Ultramar vai ainda pertencer à Voz dos Combatentes que lutam pelo regresso dos Corpos dos que por lá Tombaram.
E TOCA a SILÊNCIO.
Apeteceu-me nesta hora escrever assim
Fernando Neves
sábado, 20 de agosto de 2011
O CAPELÃO NUNO OLIVEIRA
Caros Camaradas
Tive o privilégio de trocar sms com o nosso ex-capelão do batalhão: o padre Nuno Oliveira.
O Reverendo Padre Nuno Oliveira encontra-se ainda no activo e a dar assistência religiosa na Paróquia de Paramos - Espinho e está bem de saúde.Vamos ver se para o nosso próximo encontro da companhia conseguimos convencê-lo a estar presente - seria óptimo darmos aquele abraço fraternal por quem temos sincera estima.
Luís Dias
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
QUANDO O DULOMBI FOI FLAGELADO PELO PAIGC COM "ARMAS PESADAS"

QUANDO O DULOMBI FOI FLAGELADO PELO PAIGC COM “ARMAS PESADAS”
Em 20 de Outubro de 1972 saía uma notícia no D. N. com o título “A LUTA NA GUINÉ” e o subtítulo “A Actividade do inimigo desenvolve-se quase exclusivamente na faixa fronteiriça”, referindo-se ao Boletim das Forças Armadas da Guiné que se transcreve:
BISSAU, 19 – O Boletim Informativo das Forças Armadas da Guiné, referente ao período de 1 a 15 de Outubro, é do seguinte teor:
“A situação militar na província continua caracterizada pela actividade que o inimigo desenvolve, quase exclusivamente na faixa fronteiriça, visando paralisar os trabalhos e serviços essenciais à vida das populações. No período em análise inserem-se neste quadro: uma acção de rapto a norte da região de Quenhaque, junto ao rio Cacheu; o ataque a uma viatura civil desencadeado junto à fronteira norte, quando circulava no itinerário Canhamina - Cambaju, transportando elementos da população para os seus locais de trabalho; a implantação de minas anti-pessoal a norte de Farim e a sul de Cabuca que, assinaladas, pela população, foram levantadas e destruídas. Enquadrando-se na mesma preocupação o inimigo flagelou com armas pesadas, à distância, as povoações fronteiriças de Dulombi e Aldeia Formosa. (a)
As nossas forças continuaram as tarefas de desenvolvimento económico e social da província e a garantir as condições de segurança necessárias à sua realização. Assinale-se, no âmbito da assistência educativa, a cargo das Forças Armadas, o início das actividades lectivas em 129 postos de ensino por 197 professores militares, que abriram com uma frequência de cerca de 10 000 alunos. (b)
No âmbito da missão de segurança, as nossas forças interceptaram a oeste de Sare Uale, um grupo inimigo que tentava infiltrar-se em território nacional, o qual foi obrigado a retroceder com pesadas baixas.
Uma formação, agindo fora da sua zona de acção e em desobediência a todas as determinações superiores, violou a fronteira do Senegal e provocou um incidente com um destacamento militar daquele país. Este incidente foi já objecto de comunicado especial. (c)
Em seguida o boletim referia-se ao número de estrangeiros que tinham atravessado a fronteira para transacções comerciais (senegaleses, guineanos e gambianos) (d) e depois retomavam:
Em consequência da nossa actividade e da reacção das nossas forças e populações o inimigo sofreu 16 mortos e a apreensão de uma metralhadora Dectyarev, dois lança granadas foguete RPG2, quatro espingardas kalashnikov, cinco simonov e três pistolas-metralhadoras PPSH, além de outro material e grande quantidade de munições.
Da acção do inimigo resultou a morte de 11 elementos da população. As nossas forças sofreram 4 mortos em combate, cujos elementos de identificação foram oportunamente divulgados.” (e)
(a) O meu falecido pai quando leu esta notícia e a recortou, ficou muito apreensivo com a mesma, quando ali é referido que o Dulombi havia sido atacado com armas pesadas e escreveu-me relatando essa preocupação, dele e da minha mãe, é claro. De facto, nesse tempo, nos relatos que escrevia para casa (pais, namorada, amigos e restante família), apenas mencionava que fazíamos operações, colunas, picagens e pouco mais. Nunca falava em pormenor sobre o que nos sucedia. Deste modo, compreendi o que lhes ia na alma e escrevi de volta a dizer que, de facto, havíamos sido atacados por “armas pesadas”. Pesadas, porque as espingardas, os roquetes, as pistolas metralhadoras, os morteiros 60 e as munições e granadas para estas armas, que normalmente o IN usava contra nós na zona do Dulombi, transportados pelos guerrilheiros atacantes percorrendo mais de 50 km (eles eram oriundos de uma base que ficava na Guiné-Conacri, muito para além do Rio Corubalo e do território da Guiné) tornavam-se, vivamente, “armas pesadas” (Eh!Eh!Eh!). Não eram nem canhões, nem mísseis, nem carros de combate, nem aviões. E, assim, os meus pais talvez tenham ficado um pouco mais descansados.
A zona do Dulombi era a que detinha a maior área de quadrícula da Guiné. As nossas operações eram sempre a palmilhar largas dezenas de quilómetros em busca do inimigo. Uma ida ao Rio Corubalo implicava sempre um esforço físico considerável. A quadrícula foi aumentada quando a área de Galomaro passou também a estar incluída nas nossas tarefas operacionais, a partir de 9 de Março de 1973.
(b) Isto de ter cerca de 10 000 alunos a receberem aulas por elementos das forças armadas era obra.
(c) Tratava-se aqui da acção inopinada de elementos do Esquadrão de Reconhecimento de Cavalaria - Chaimites, que entraram no Senegal pela estrada de Pirada e tiveram uma escaramuça com militares senegaleses.
(d) Não entendo como conseguiam controlar as entradas de estrangeiros ao pormenor de dizerem tratar-se de 1876, distribuídos por países e tudo !!!
(e) Pelo menos os nossos comunicados referiam as nossas baixas. Quando ouvíamos os comunicados de guerra do PAIGC eram, na sua maioria, ridículos. Destruíam sempre o que eles denominavam os campos fortificados, sofrendo as nossas forças sempre pesadas baixas e quanto às deles, eram zero (muito raramente falavam que tivessem sofrido mortos – lembro-me de terem referido algumas baixas, entre mortos e feridos, num contacto/emboscada, connosco em 11 de Março de 1972, em Paiai Lemenei, mas que nós tínhamos sofrido oito mortos e diversos feridos, com muita perda de armamento, munições e outro material – o que, felizmente, não foi verdade, dado que apenas sofremos feridos ligeiros e foi o In que deixou armamento e material diverso e diversos rastos de sangue).
Um abraço
Luís Dias
(Ex-Alf. Milº da CCAÇ 3491/BCAÇ 3872 – Dulombi/Galomaro – Guiné 71-74)
quarta-feira, 13 de julho de 2011
AS CAIXAS DE MADEIRA OU DE METAL QUE NOS CAUSAVAM MUITO RESPEITO
Caros Camaradas e Amigos
Aqui vos deixo mais uma história, desta vez sobre minas, que também foi publicada no blogue Tabanca Grande (Luís Graça & Camaradas da Guiné), post nº P8533.
AS CAIXAS DE MADEIRA OU DE METAL QUE NOS CAUSAVAM MUITO RESPEITO
Camarigos
Da leitura atenta do Post P8507 do Camarada Pereira da Costa, sobre a problemática das minas, voltou-me à memória algumas histórias sobre um dos maiores “terrores” que tínhamos quando saíamos para o mato ou para uma escolta em coluna auto. Era um aperto no coração, um respeito do caraças, se pensássemos naqueles bocados de madeira ou de metal que nos podiam ceifar a vida ou, pior ainda (conforme a maioria dos meus soldados referiam), deixar-nos estropiados para sempre.
A nossa zona de intervenção na Guiné (Zona Leste/Frente Bafatá Gabú Sul - como referia o IN), não seria daquelas onde a implantação de minas por parte do PAIGC fosse das mais intensas, mas iam-nas pondo e, no caso do nosso batalhão tiveram sucesso em três situações. A primeira na picada Cancolim – Galomaro com a morte de um elemento da CCAÇ3489 (Fevereiro de 1972), a segunda na picada Galomaro – Samba Cumbera , a caminho do Saltinho (Novembro de 1972), com a morte de um elemento do Pel. Rec. da CCS e a terceira na picada Galomaro – Dulombi (Fevereiro de 1973), com ferimentos graves num condutor da CCS. Nas outras vezes e no caso da CCAÇ3491, tivemos a sorte de as detectar e levantar (minas AC e AP).
No caso das minas por nós colocadas em defesa de aquartelamentos e falando da minha companhia (CCAÇ3491), no seguimento do que fora deixado pela companhia dos velhinhos (CCAÇ2700), optou-se por colocá-las, em linha, a cerca de 600/700 m do aquartelamento (Dulombi), na denominada frente IN (ou seja donde normalmente aconteciam as flagelações do PAIGC), onde não existiam quaisquer áreas cultivadas pela população e por onde esta não transitava. As minas foram postas em cima de ferros apropriados, colocados a 1m de altura do chão e ligadas por arame de tropeçar. Para controlo das mesmas existia um trilho que corria paralelo à sua colocação e ao quartel e a cerca de 10/15 m destas, com sinalização que julgávamos suficiente e adequada para os nossos peritos em minas e armadilhas.
De vez em quando lá rebentava uma mina, normalmente de dia e era dada ordem para, passada uma meia hora, uma secção do Grupo de Combate que estivesse de serviço (com um dos furriéis de minas e armadilhas) sair para a zona, para verificação do que acontecera. Na maior parte das vezes as minas rebentavam por causa da passagem de animais, que eram aproveitados para um petisco para a companhia (especialmente impalas e gazelas). Em certa vez, até uma ave de grande porte, foi a vítima de uma mina, mas só serviu para tirar umas fotos, porque a malta não conseguiu identificar o bicho e ninguém quis degustar a peça. Assim, já era quase uma rotina, quando se dava um rebentamento e se não era seguido de algum ataque (o que nunca aconteceu), a secção do GC de serviço lá ia verificar o que se passava e repor o sistema existente. Se o rebentamento acontecesse de noite, é claro que só se lá ia no dia seguinte.
Numa destas vezes, em meados de 1972 e após mais um rebentamento oriundo da zona onde as minas anti-pessoais tinham sido implantadas, uma Secção do 3º GC, comandada pelo Furriel Castanheira (infelizmente já falecido), dirigiu-se para o local. Passado algum tempo, o pessoal do quartel foi alertado por uma segunda explosão e, segundos depois, uma outra. O quartel entrou em alvoroço e quase desorganizadamente um grupo formou-se e arrancou para a zona, onde todos temíamos o pior. Ao aproximarem-se da área minada, com todo o cuidado, deram com quatro feridos, entre eles o furriel, que foram rapidamente levados para o quartel, onde eram aguardados pela equipa de enfermagem e, face aos cuidados que inspiravam, foram evacuados por helicóptero para o HM de Bissau.
Por um lapso de orientação do comandante de secção, quando a equipa iniciava a contagem das minas, através de uma marcação existente e previamente sinalizada, cruzou a linha do sistema, tropeçando num dos arames que as ligavam, dando origem ao rebentamento de outra mina (accionada pelo próprio furriel). Após o rebentamento, um outro elemento da secção desorientou-se com a explosão e fugiu tropeçando noutro arame e rebentando uma segunda mina.
Felizmente e por qualquer milagre (!!!), não obstante terem sofrido diversos ferimentos, produzidos por muitos estilhaços, ficando, como se diz, feitos num crivo (o furriel foi inclusive atingido no escroto), uns tempos depois estavam de volta à companhia, depois de uma estadia em Bissau, para recuperação.
O sistema de sinalização foi revisto, mas também nunca mais houve saídas para ir controlar os rebentamentos daquela forma. Os procedimentos tiveram de ser alterados.
Os cuidados que as minas nos causavam intensificavam-se quando estivámos de intervenção em outras áreas do Leste, nomeadamente quando estivemos de reforço em Piche, Nova Lamego e depois em Pirada (aqui por poucos dias).
Em Pirada, eu tinha referido aos elementos do meu GC que o IN aqui colocava minas pessoais diferentes das utilizadas na nossa zona de origem e tinham tácticas diferenciadas de colocação das mesmas (mormente as denominadas viúvas negras) e que, aquando de colunas, em caso de paragem, deveriam ter cuidado em não sair da picada, procurando abrigarem-se junto das mesmas, porque eles colocavam minas com frequência junto de árvores que pudessem servir de abrigo.
Numa coluna auto, perto de finais de Dezembro de 1973, que pretendia abastecer Copá com munições (tinha sofrido um forte ataque já quase não tinham granadas de morteiro 81 mm, por exemplo), a partir de Pirada, na picada iam surgindo diversas minas AC semeadas em profusão, sendo que em muitas delas o IN nem se dera ao cuidado de as cobrir com terra, ou seja estavam bem à vista. As equipas de sapadores da CCS do batalhão iam fazendo o seu trabalho, procedendo ao levantamento das mesmas, mas já estavam a ficar cansados do esforço (suavam em bica) e possivelmente a pensarem que a qualquer momento algo podia correr mal. Com esta situação a coluna avançava devagar e era obrigada a parar inúmeras vezes. A determinada altura o comandante do batalhão deu ordem para regressar ao quartel, pois verificou que dificilmente conseguiríamos atingir Copá ainda de dia ou sem sofrer algum dissabor grave. Quando uma das berliets que estava atribuída ao meu GC iniciou a manobra de inversão de marcha, saindo da picada e indo passar junto a uma árvore, rebentou uma mina AP que lhe destruiu o pneu da frente (lado contrário ao do condutor). Aqui estava a situação que eu previra, o que não previra é que um dos meus soldados não tenha ligado nenhuma ao que eu havia dito e face ao calor fora colocar-se debaixo da mesma árvore procurando abrigo na sombra da mesma. Por sorte dele, colocou-se do lado contrário onde estava a mina AP e por isso, por esse acaso da sua sorte, não sofreu nada com o rebentamento, nem a pisou. É que estávamos no fim da comissão (aliás já tinha terminado o tempo em Outubro, mas só sairíamos da Guiné em finais de Março de 1974) e mesmo no fim ele poderia ter sofrido ferimentos graves ou a morte.
Luís Dias
Ex-Alf. Mil CCAÇ3491/BCAÇ3872 (Dulombi/Galomaro)
Aqui vos deixo mais uma história, desta vez sobre minas, que também foi publicada no blogue Tabanca Grande (Luís Graça & Camaradas da Guiné), post nº P8533.
AS CAIXAS DE MADEIRA OU DE METAL QUE NOS CAUSAVAM MUITO RESPEITO
Camarigos
Da leitura atenta do Post P8507 do Camarada Pereira da Costa, sobre a problemática das minas, voltou-me à memória algumas histórias sobre um dos maiores “terrores” que tínhamos quando saíamos para o mato ou para uma escolta em coluna auto. Era um aperto no coração, um respeito do caraças, se pensássemos naqueles bocados de madeira ou de metal que nos podiam ceifar a vida ou, pior ainda (conforme a maioria dos meus soldados referiam), deixar-nos estropiados para sempre.
A nossa zona de intervenção na Guiné (Zona Leste/Frente Bafatá Gabú Sul - como referia o IN), não seria daquelas onde a implantação de minas por parte do PAIGC fosse das mais intensas, mas iam-nas pondo e, no caso do nosso batalhão tiveram sucesso em três situações. A primeira na picada Cancolim – Galomaro com a morte de um elemento da CCAÇ3489 (Fevereiro de 1972), a segunda na picada Galomaro – Samba Cumbera , a caminho do Saltinho (Novembro de 1972), com a morte de um elemento do Pel. Rec. da CCS e a terceira na picada Galomaro – Dulombi (Fevereiro de 1973), com ferimentos graves num condutor da CCS. Nas outras vezes e no caso da CCAÇ3491, tivemos a sorte de as detectar e levantar (minas AC e AP).
No caso das minas por nós colocadas em defesa de aquartelamentos e falando da minha companhia (CCAÇ3491), no seguimento do que fora deixado pela companhia dos velhinhos (CCAÇ2700), optou-se por colocá-las, em linha, a cerca de 600/700 m do aquartelamento (Dulombi), na denominada frente IN (ou seja donde normalmente aconteciam as flagelações do PAIGC), onde não existiam quaisquer áreas cultivadas pela população e por onde esta não transitava. As minas foram postas em cima de ferros apropriados, colocados a 1m de altura do chão e ligadas por arame de tropeçar. Para controlo das mesmas existia um trilho que corria paralelo à sua colocação e ao quartel e a cerca de 10/15 m destas, com sinalização que julgávamos suficiente e adequada para os nossos peritos em minas e armadilhas.
De vez em quando lá rebentava uma mina, normalmente de dia e era dada ordem para, passada uma meia hora, uma secção do Grupo de Combate que estivesse de serviço (com um dos furriéis de minas e armadilhas) sair para a zona, para verificação do que acontecera. Na maior parte das vezes as minas rebentavam por causa da passagem de animais, que eram aproveitados para um petisco para a companhia (especialmente impalas e gazelas). Em certa vez, até uma ave de grande porte, foi a vítima de uma mina, mas só serviu para tirar umas fotos, porque a malta não conseguiu identificar o bicho e ninguém quis degustar a peça. Assim, já era quase uma rotina, quando se dava um rebentamento e se não era seguido de algum ataque (o que nunca aconteceu), a secção do GC de serviço lá ia verificar o que se passava e repor o sistema existente. Se o rebentamento acontecesse de noite, é claro que só se lá ia no dia seguinte.
Numa destas vezes, em meados de 1972 e após mais um rebentamento oriundo da zona onde as minas anti-pessoais tinham sido implantadas, uma Secção do 3º GC, comandada pelo Furriel Castanheira (infelizmente já falecido), dirigiu-se para o local. Passado algum tempo, o pessoal do quartel foi alertado por uma segunda explosão e, segundos depois, uma outra. O quartel entrou em alvoroço e quase desorganizadamente um grupo formou-se e arrancou para a zona, onde todos temíamos o pior. Ao aproximarem-se da área minada, com todo o cuidado, deram com quatro feridos, entre eles o furriel, que foram rapidamente levados para o quartel, onde eram aguardados pela equipa de enfermagem e, face aos cuidados que inspiravam, foram evacuados por helicóptero para o HM de Bissau.
Por um lapso de orientação do comandante de secção, quando a equipa iniciava a contagem das minas, através de uma marcação existente e previamente sinalizada, cruzou a linha do sistema, tropeçando num dos arames que as ligavam, dando origem ao rebentamento de outra mina (accionada pelo próprio furriel). Após o rebentamento, um outro elemento da secção desorientou-se com a explosão e fugiu tropeçando noutro arame e rebentando uma segunda mina.
Felizmente e por qualquer milagre (!!!), não obstante terem sofrido diversos ferimentos, produzidos por muitos estilhaços, ficando, como se diz, feitos num crivo (o furriel foi inclusive atingido no escroto), uns tempos depois estavam de volta à companhia, depois de uma estadia em Bissau, para recuperação.
O sistema de sinalização foi revisto, mas também nunca mais houve saídas para ir controlar os rebentamentos daquela forma. Os procedimentos tiveram de ser alterados.
Os cuidados que as minas nos causavam intensificavam-se quando estivámos de intervenção em outras áreas do Leste, nomeadamente quando estivemos de reforço em Piche, Nova Lamego e depois em Pirada (aqui por poucos dias).
Em Pirada, eu tinha referido aos elementos do meu GC que o IN aqui colocava minas pessoais diferentes das utilizadas na nossa zona de origem e tinham tácticas diferenciadas de colocação das mesmas (mormente as denominadas viúvas negras) e que, aquando de colunas, em caso de paragem, deveriam ter cuidado em não sair da picada, procurando abrigarem-se junto das mesmas, porque eles colocavam minas com frequência junto de árvores que pudessem servir de abrigo.
Numa coluna auto, perto de finais de Dezembro de 1973, que pretendia abastecer Copá com munições (tinha sofrido um forte ataque já quase não tinham granadas de morteiro 81 mm, por exemplo), a partir de Pirada, na picada iam surgindo diversas minas AC semeadas em profusão, sendo que em muitas delas o IN nem se dera ao cuidado de as cobrir com terra, ou seja estavam bem à vista. As equipas de sapadores da CCS do batalhão iam fazendo o seu trabalho, procedendo ao levantamento das mesmas, mas já estavam a ficar cansados do esforço (suavam em bica) e possivelmente a pensarem que a qualquer momento algo podia correr mal. Com esta situação a coluna avançava devagar e era obrigada a parar inúmeras vezes. A determinada altura o comandante do batalhão deu ordem para regressar ao quartel, pois verificou que dificilmente conseguiríamos atingir Copá ainda de dia ou sem sofrer algum dissabor grave. Quando uma das berliets que estava atribuída ao meu GC iniciou a manobra de inversão de marcha, saindo da picada e indo passar junto a uma árvore, rebentou uma mina AP que lhe destruiu o pneu da frente (lado contrário ao do condutor). Aqui estava a situação que eu previra, o que não previra é que um dos meus soldados não tenha ligado nenhuma ao que eu havia dito e face ao calor fora colocar-se debaixo da mesma árvore procurando abrigo na sombra da mesma. Por sorte dele, colocou-se do lado contrário onde estava a mina AP e por isso, por esse acaso da sua sorte, não sofreu nada com o rebentamento, nem a pisou. É que estávamos no fim da comissão (aliás já tinha terminado o tempo em Outubro, mas só sairíamos da Guiné em finais de Março de 1974) e mesmo no fim ele poderia ter sofrido ferimentos graves ou a morte.
Luís Dias
Ex-Alf. Mil CCAÇ3491/BCAÇ3872 (Dulombi/Galomaro)
quinta-feira, 16 de junho de 2011
ARMAMENTO E EQUIPAMENTO DAS FORÇAS PORTUGUESAS E DO PAIGC NA GUERRA COLONIAL - GUINÉ 71-74
ARMAMENTO E EQUIPAMENTO DAS FORÇAS PORTUGUESAS E DAS FORÇAS DO PAIGC NA GUERRA COLONIAL
Guiné 1971 – 1974
IIª PARTE (Continuação)
1.2. OS MORTEIROS MÉDIOS E PESADOS
A palavra morteiro advém da palavra inglesa “mortar”, que quer dizer almofariz e que, segundo a lenda, terá sido nele que se inventou a pólvora. Os primeiros morteiros terão surgido no século XIV, mas como tinham ainda um tiro muito impreciso era a bombarda que reinava. Os morteiros actuais desenvolveram-se daqueles que foram utilizados no 1º conflito mundial, onde foram especialmente concebidos para as guerras de trincheira (“trench mortars”) e como arma de apoio da infantaria, embora os morteiros pesados são, em alguns casos e para alguns autores, usados como arma de artilharia.
Os morteiros foram o terror das trincheiras durante a Iª GM, uma vez que eram muito mais eficientes do que canhões na devastação de posições defensivas, por causa da trajectória em parábola do projéctil. O seu uso foi consagrado pelos alemães, que tiraram lições da guerra russo-japonesa de 1904, em Port Arthur.
O morteiro é uma boca-de-fogo, de carregar pela boca, destinado a lançar granadas, normalmente em tiro curvo, capaz de alcançar alvos em áreas denominadas “zonas mortas” (desenfiados ou em contra-encosta). Pode fazê-lo nas modalidades de tiro seguintes: directo, mascarado ou indirecto.
Os morteiros podem ser classificados da seguinte forma:
LIGEIROS
Com Peso até cerca de 18 Kg, com calibre até 60mm e alcance máximo até 1900m.
Executam, normalmente, tiro directo.
MÉDIOS
Com peso até 70 Kg, com calibre entre 60 e 100mm e alcance máximo até 6000m.
Particularmente vocacionado para o tiro mascarado. O seu peso e dimensões não aconselham a sua utilização em posições muito avançadas.
PESADOS
Peso até 300 Kg, com calibre superior a 100mm e alcance máximo até 9000m.
Vocacionado para o tiro indirecto. O seu peso e dimensões aconselham a sua utilização em posições muito afastadas da frente.
São armas robustas, de funcionamento simples, de entrada em posição morosa (médios e pesados especialmente), que podem atirar diverso tipo de granadas (instrução, fumos, incendiárias, explosivas, iluminação, etc.) e que podem ser colocadas em reparos apropriados para defesa de instalações, em reparos com rodas e em viaturas.
O funcionamento é feito por ante carga, com percutor fixo (o disparo é obtido pela queda do projéctil sobre o percutor) ou móvel (accionado por um mecanismo de disparo manual, após a queda do projéctil no interior do cano).
1.2.1. AS FORÇAS PORTUGUESAS
Os soldados portugueses terão um jeito muito especial para o uso de morteiros, conforme relatos existentes da Iª GM (“Livro de Ouro da Infantaria Portuguesa”), sendo neste conflito que maior desenvolvimento teve este tipo de arma. Os portugueses possuíam, então, morteiros ligeiros de 75mm, médios de 152mm e pesados de 236mm.
O emprego eficaz dos morteiros (aliás também da artilharia) pressupõe um bom suporte cartográfico e a observação do tiro. Durante todo o tempo da guerra colonial, nem sempre este ideal foi alcançado, pelo que o apoio próximo das tropas não foi eficientemente conseguido. Assim, os morteiros de maiores calibres (81 mm, 107mm e, mais tarde, 120mm) foram essencialmente empregues em flagelações e reacções aos ataques a aquartelamentos. Pelo contrário, os morteiros de 60 mm seriam largamente utilizados, sobretudo no apoio imediato das tropas, colmatando assim a falta já referenciada de um lança-granadas eficaz.
1.2.2. O MORTEIRO MÉDIO BRANDT M/931 DE 81mm
O principal morteiro médio utilizado na guerra colonial foi o Brandt m/931, desenvolvido por esta firma em França, no final dos anos 20 (1927), (ainda que baseado no desenho do morteiro Stokes, de origem inglesa) e conhecido como o Brandt 81 mm mle/27/31 (por ter sido redesenhado em 1931). Foi o morteiro das forças francesas na IIª Guerra Mundial. Depois da ocupação nazi foi utilizado pelas forças alemãs a contento e deu origem a um morteiro do mesmo tipo norte-americano e muitas cópias pelo mundo fora.
MORTEIRO MÉDIO BRANDT m/931 de 81mm
Características desta arma
TIPO: Morteiro médio
ORIGEM: França
CALIBRE: 81, 4 mm
COMPRIMENTO DO CANO: 126 cm
PESO DO CANO: 20, 7 Kg
PESO DO BIPÉ: 18, 5 Kg
PESO DO PRATO BASE: 20, 5 Kg
PESO DO APARELHO DE PONTARIA: 1,3 Kg
PESO TOTAL EM POSIÇÃO DE FOGO: 61 Kg
ALCANCE: 4 000 m
ALINHAMENTO DE TIRO: Recurso a aparelho de pontaria apropriado
CAPACIDADE DE FOGO: Variável (15 a 30 gpm)
FUNCIONAMENTO: Ante carga, com percutor fixo e de tubo de alma lisa. O disparo dá-se por queda da granada sobre o percutor e o lançamento por acção dos gases da carga propulsora e das cargas suplementares, se as houver.
MUNIÇÃO: Variada (granada explosiva normal (3, 2 Kg), explosiva de grande potência (6, 9 Kg), de fumos, iluminação e de treino). As granadas podiam levar cargas suplementares presas nas alhetas que lhe davam um maior alcance. Havia granadas que armavam por inércia e só depois disso é que rebentavam ao contacto e outras que rebentavam pelo contacto da mola do nariz.
1.2.3. O MORTEIRO PESADO M2 M/951
O primeiro morteiro pesado M2 entrou ao serviço das forças dos EUA, em 1943, embora o primeiro morteiro de 107mm, o M1, tenha sido introduzido em 1928. O M2 entrou em serviço na Campanha da Sicília e com grande êxito, seguindo o acompanhamento da evolução da IIª Guerra Mundial até ao seu término. Fez ainda a Guerra da Coreia e a partir de 1951 foi, gradualmente, sendo substituído pelo morteiro M30, também de 107mm. No exército português foi nesta data que entrou ao serviço e acompanhou toda a campanha de África da guerra colonial.
MORTEIRO PESADO M2 M/951
Características desta arma
TIPO: Morteiro pesado
ORIGEM: EUA
CALIBRE: 107 mm
COMPRIMENTO DO CANO: 121,92 cm
PESO DO CANO:
PESO DO BIPÉ:
PESO DO PRATO BASE:
PESO TOTAL EM POSIÇÃO DE FOGO: 151 Kg
ALCANCE MÁXIMO: 4 000 m
ALCANCE MÍNIMO: 515 m
ALINHAMENTO DE TIRO: Recurso a aparelho de pontaria apropriado
CAPACIDADE DE FOGO: 5 gpm por 20 minutos.
FUNCIONAMENTO: Ante carga, com percutor fixo
MUNIÇÃO: Granada explosiva (11,1 Kg c/3,6 Kg TNT) e de fumos.
1.2.4. AS FORÇAS DO PAIGC
As forças dos guerrilheiros utilizavam morteiros médios e pesados de origem soviética, da china ou dos países satélites.
Enquanto o mundo ocidental utilizava como morteiro médio padrão o calibre 81mm, de origem francesa, os soviéticos e seus satélites enveredavam pelo modelo de 82mm. O primeiro morteiro médio soviético conhecido e difundido, mesmo após a II Guerra Mundial foi o M1937, seguindo-se o M1941, o M1941/42 e o M1943. De todos estes modelos os que tiveram maior expansão nos países comunistas foram o M1937 (Novo Modelo/Tipo) e o M1941 (82-PM-41). Por exemplo a China produzia o M1937 com o nome de Type 53.
1.2.5. O MORTEIRO MÉDIO M1937 (NOVO TIPO/MODELO)
O morteiro médio M1937 (New Type) tem origem na União Soviética, produzido nas fábricas estatais, em 1937. Fez a segunda guerra mundial, o conflito com a Finlândia e apoiou os movimentos comunistas na guerra da Coreia, em paralelo, especialmente, com o morteiro médio 82-PM-41.
MORTEIRO MÉDIO M1937, CALIBRE 82mm
Características desta arma:
TIPO: Morteiro médio
ORIGEM: URSS
CALIBRE: 82 mm
COMPRIMENTO DO CANO: 122 cm
PESO DO CANO: 19,6Kg
TAMANHO DO PRATO BASE: 50cm
PESO DO BIPÉ: 20Kg
PESO DO PRATO BASE: 21,3Kg
PESO TOTAL EM POSIÇÃO DE FOGO: 60 Kg
ALCANCE MÁXIMO: 3040 m
ALCANCE MÍNIMO:
ALINHAMENTO DE TIRO: Recurso a aparelho de pontaria apropriado (MPM-44)
CAPACIDADE DE FOGO: 15/20 gpm.
FUNCIONAMENTO: Ante carga, com percutor fixo
MUNIÇÃO: Granada explosiva (3,05 Kg) e de fumos.
Capa do Manual de Instruções do morteiro médio de 82mm M1943, em russo.
Em primeiro lugar, do lado esquerdo, granada de morteiro 82mm HE soviética ao lado de granadas do morteiro 50mm, do mesmo país.
1.2.6. O MORTEIRO PESADO M1938
O morteiro pesado M1938 de 120mm, com origem na antiga União Soviética, foi produzido com base no sistema do excelente morteiro pesado Brandt francês, de 120mm, de 1935. O M1938 generalizou-se pelas forças do Exército Vermelho, da China e dos seus satélites. Para se movimentar entre pequenas distâncias o morteiro era dividido rapidamente em três partes (cano, prato e bipé), para facilitar o seu transporte e recolocação. Para viagens mais longas todo o sistema fechava-se em si próprio e era colocado num reboque com rodas. A arma foi considerada tão boa que os alemães a copiaram (Granatwerfer 42), embora o modelo alemão tivesse um alcance maior. A arma foi usada em outros conflitos nomeadamente a guerra da Coreia e profusamente no Vietname.
Outro modelo de morteiro pesado foi o de 120mm M1943, que é semelhante ao modelo anterior, embora este último seja um pouco mais sofisticado. Foi também distribuído pelas forças do Pacto de Varsóvia, pela China e por outros países satélites.
Devemos também referir, a título de curiosidade, outros modelos de morteiros pesados na antiga União Soviética que foram o morteiro de 107mm M1938, semelhante ao de 120mm, mas destinado às tropas de montanha, mas sem ter a profusão de distribuição e a fama dos já mencionados e o morteiro de 160mm de 1943.
Em 1953 surgiu o morteiro de 240mm M-240, que necessita de uma equipa de nove elementos para operar e disparar uma granada por minuto.
MORTEIRO PESADO M1938 de 120mm
MORTEIRO PESADO 120mm M1943, no atrelado apropriado
Características desta arma:
TIPO: Morteiro pesado
ORIGEM: URSS
CALIBRE: 120 mm
COMPRIMENTO DO CANO: 185 cm
PESO DO CANO:
TAMANHO DO PRATO BASE: 100cm
PESO DO BIPÉ: 20Kg
PESO DO PRATO BASE:
PESO TOTAL EM POSIÇÃO DE FOGO: 170 Kg
ALCANCE MÁXIMO: 5700 m
ALCANCE MÍNIMO: 400m
ALINHAMENTO DE TIRO: Recurso a aparelho de pontaria apropriado (MPM-41/MP42)
CAPACIDADE DE FOGO: 12/15 gpm.
FUNCIONAMENTO: Ante carga, com percutor fixo/ou manual
MUNIÇÃO: Granada explosiva (15,4 Kg) e de fumos (16Kg) e Incendiária (16,7Kg).
1.2.7. OBSERVAÇÕES
Em termos técnicos de morteiros médios as forças equivaliam-se, embora me pareça que o Exército português tivesse mais morteiros 81mm no terreno do que as forças do PAIGC os morteiros 82mm. O morteiro 81mm era a arma preferencial de defesa dos aquartelamentos e era usado com grande à vontade, dado o denominado “jeito” natural que o soldado português tem pelo morteiro. De facto, embora houvesse nos aquartelamentos apontadores para esta arma, na maior parte das vezes muitos outros elementos eram ensinados a apontar com o morteiro, de forma a poderem dar uma resposta rápida em caso de ataque às instalações. Ou seja, o primeiro homem a chegar ao espaldão da arma, nem sempre era o seu apontador e, enquanto este não chegava, o outro ou outros iniciavam a reacção. Esta reacção era por vezes tão rápida que acontecia casos imprevistos, como o que relato a seguir.
Em 1 de Dezembro de 1972, o IN aproximou-se do quartel de Galomaro, sede do Batalhão de Caçadores 3872, pelo início da noite e a coberto de uma manada de animais que pastava um pouco para lá do arame. No entanto, por sorte e também atenção de uma das sentinelas, que desconfiada reagiu, atirando diversos tiros para a área onde estaria parte do dispositivo de ataque do IN, o que até provocou a ira do comandante, mas também o alerta do resto da companhia (CCS) e quando, logo em seguida, os guerrilheiros deram início à flagelação, a maioria já não foi apanhada tão desprevenida. Isto para falar da eficácia de elementos da enfermagem, que tendo saído do seu abrigo “caíram” no espaldão do morteiro 81 e iniciaram a reacção ao ataque. Ou seja, quem lançou as primeiras granadas do 81 foi um 1º cabo enfermeiro (André António), que depois foi auxiliado por outro 1º cabo enfermeiro (Augusto Catroga). A sua pronta reacção e o acerto da sua pontaria fizeram travar o ataque inimigo, que retirou com baixas confirmadas pelos rastos de sangue encontrados e por um guerrilheiro morto que enterraram já a alguma distância do aquartelamento.
No entanto, há algumas situações curiosas nesta reacção. O 1º cabo auxiliar enfermeiro que iniciou a resposta com o morteiro 81mm, saiu do seu abrigo passando por um buraco que, mais tarde, já não conseguiu atravessar (dedução: os ataques emagrecem ou a reacção engorda?). Depois, já no espaldão, foi tal a rapidez e a ânsia de ripostar que a primeira granada que lançou com o morteiro foi com cavilha e tudo (deve ter partido algumas cabeças no IN!), mas teve em seguida a calma para atirar certeiramente com a ajuda de outro camarada, pondo os guerrilheiros em rápida retirada. O outro pormenor interessante é que o guerrilheiro morto e por nós encontrado enterrado, era o enfermeiro do grupo atacante (tinha com ele a bolsa de enfermagem. Ironias do destino!).
Na verdade, pelo que observei também, os nossos apontadores não são lá muito de usar os aparelhos de pontaria, pelo menos nos morteiros 60 e 81, eram mais de usar o método do “olhómetro” e, muitas vezes, com bons resultados. Quase em todos os quartéis e nos espaldões dos morteiros, o pessoal colocava um sistema (estacas de madeira, ou simples anotações nos bidons que formavam o espaldão) que indicavam distâncias e nomeavam zonas a atingir em caso de ataque ao quartel e para onde viravam o morteiro, com a devida e já pré estudada inclinação. É claro que estes cálculos eram previamente testados.
No aquartelamento do Dulombi (CCAÇ3491), após os ataques do IN e consequentes respostas com os morteiros 81, deixávamos passar uma meia hora, ¾ de hora e lançávamos uma ou duas granadas com as cargas todas para as zonas que muitas das vezes o IN usava para proceder à retirada, para sentirem que não obstante estarem a uma distância do quartel que pudessem pensar estar a salvo, ainda lhes “mordíamos” os calcanhares. Ainda no Dulombi, durante uma das várias flagelações do IN, este atacou do lado onde ficava a tabanca da população (lado contrário ao seu uso e costume), o que obrigou a uma rotação dos morteiros de 180º. Na reacção, uma das primeiras granadas que foram lançadas em resposta, ainda com pessoal a correr para as valas, saiu, por defeito, meio em parafuso, em voo baixo e caiu no meio da parada, perto do monumento aos mortos da companhia dos “velhinhos” (CCAÇ2700), não rebentando. Isto deveu-se a ser uma granada de armar por inércia, não tendo conseguido projectar-se o suficiente para armar a percussão. Se fosse das outras, das de mola...!
O morteiro 81mm era, como já disse, mais usado em defesa dos aquartelamentos, mas também em algumas situações ofensivas e de protecção a operações de certa envergadura. (Explo: “Ao atingir o local, onde dias antes tinha sido o contacto com o IN, a CCav sofreu uma emboscada que lhe provocou 1 morto no primeiro tiro disparado com RPG. Imediatamente a seguir entraram em acção os morteiros 82, cujas saídas das granadas eram perfeitamente audíveis. A CCaç 2403, que pela primeira e última vez se fez acompanhar de um morteiro 81, abriu fogo sobre a posição bem referenciada dos do IN, o que, segundo informação do Aferes Mouzinho, acabou com o ataque dos morteiros IN. Apesar da utilidade do morteiro 81 nesta acção, revelou-se impraticável sobrecarregar o pessoal com esta arma quando já estava bem carregado com a sua arma, mais munições, água, ração de combate e as granadas para as bazucas e morteiro 60. Foi o maior contacto da Companhia com o IN”. Actividades da CCAÇ2403, na zona Leste/Rio Corubalo, relatada pelo seu então Capitão Hilário Peixeiro P8284, do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, com a devida vénia).
O IN usava o morteiro 82mm em situações de defesa das suas áreas de implantação e transportava os morteiros para flagelar os nossos quartéis, mas nem sempre com muita eficácia. Infelizmente numa das vezes que foram eficazes foi contra o quartel de Cancolim, em Março de 1972, onde estava a CCAÇ3489, do meu Batalhão (BCAÇ3872), que tinha chegado à Guiné em 24 de Dezembro de 1971 – éramos ainda muito “periquitos” - em que uma granada de morteiro 82mm acertou num cruzamento de valas, matando três camaradas, o que não era muito usual, mas aconteceu.
Os morteiros pesados eram mais usados em defesa de aquartelamentos, isto no caso dos portugueses, porque os elementos do PAIGC, para além de flagelações com eles colocados em bases quer no Senegal, quer na República da Guiné-Conacri, conseguiram introduzir em território da Guiné morteiros 120mm para os apoiar em ataques e flagelações aos nossos aquartelamentos, sendo que, alguns deles, foram apreendidos pelas nossas forças. Sabe-se que, usualmente, os morteiros 120mm eram dos modelos referenciados M1938 ou ainda M1943.
As forças portuguesas chegaram a usar em seu proveito morteiros 82mm e 120mm apreendidos, aliás como o IN também chegou a usar morteiros nossos, (mais as nossas granadas). Havia até a ideia, que os soviéticos tinham calibrado o seu morteiro médio para 82mm a fim de usar as granadas inimigas e ocidentais que eram de 81mm. Com certeza que os morteiros 82 podiam usar as nossas granadas, com uma pequena diferença no seu diâmetro, só que essa pequena diferença, era suficiente para deixar alguns gases escaparem pelo pequeno intervalo, entre o projéctil e o cano, alterando a estabilidade do projéctil e consequentemente a sua direcção e mesmo o seu alcance.
A força de impacto de um projéctil de um morteiro pesado deve ser aterrorizante para quem está debaixo desse intenso fogo. As guarnições de Guidage, Gadamael, Guileje em 1973 e Canquelifá em 1974 (entre outras), conheceram bem o poder das granadas do morteiro 120mm usado pelo IN.
O Exército português recebeu em 1974 morteiros calibre 120mm Tampella B M/74, de origem finlandesa - desconheço se ainda foram colocados em África e já em 1986, entrou ao serviço o morteiro médio 81mm da Royal Ordnance (actual BAE Systems) L16A2 M/86, de origem inglesa.
1.3. OS CANHÕES SEM RECUO
Os canhões sem recuo (CSR) são um tipo particular de canhões, com uma retro-abertura que permite a saída dos gases provocados pelo disparo da sua munição, não tendo, deste modo, o habitual recuo da arma que surge nos canhões convencionais. Os CSR eram, essencialmente, usados como arma anti-carro, contudo, a partir dos anos 70 (segundo alguns autores), foram sendo substituídos nesta tarefa pelos mísseis anti-carro. Posteriormente, os CSR ligeiros passaram a ser utilizados como arma de apoio da infantaria, nos combates contra veículos blindados ligeiros e anti-pessoal.
A primeira arma sem recuo foi desenvolvida pelo Comandante Cleland Davis, da Marinha dos EUA, um pouco antes do 1º conflito mundial. O seu projecto denominou-se “Davis Gun”.
A União Soviética desenvolveu a partir de 1923 o DRP (Dinamo Reaktivna Pushka – Canhão de Reacção Dinâmica). Na década de 30 foram testadas diversas armas, com calibres que variavam entre o 37mm e o 305mm, e os modelos mais ligeiros foram colocados em aeronaves (Grigorovich IZ e Tupolev I-12). O CSR mais conhecido foi o modelo de 1935, de 76mm, desenhado por Leonid Kurchevsky, que num pequeno número foram montados em camiões e usados contra os finlandeses. Estes apreenderam dois deles e ofereceram um aos alemães.
Durante a IIª Guerra Mundial os canhões sem recuo não se desenvolveram por aí além, aperfeiçoaram-se antes os Lança Granadas Foguete (alemães, americanos e depois os russos), no entanto na Guerra da Coreia os CSR apareceram em força no Exército dos EUA, nos calibres 57mm, 75mm (estes já vinham da II GM e seriam também usado na Guerra da Coreia) e o M27 de 105mm, que não teve êxito (usado na Guerra da Coreia). Posteriormente surgiu o modelo M40, em 106mm (Vietname) e M67, em 90 mm (Vietname). Os Soviéticos também apostaram nos anos 50 na tecnologia dos canhões sem recuo, surgindo modelos nos calibres 73mm, 82mm e 107mm. Os ingleses também investiram neste tipo de arma (Mobat e Wombat, ambos no calibre 120mm). Actualmente, um dos mais conhecidos CSR é o Carl Gustav, de origem sueca, que teve o seu início em 1946 e que foi evoluindo tornando-se uma das armas das forças da NATO (o exército português tem hoje ao seu serviço o CG M2-550, no calibre 84mm).
Como funciona o disparo de um CSR:
1º Momento: O projéctil e a arma;
2º Momento: O projéctil é inserido na culatra da arma pela retaguarda;
3º Momento: Dá-se o disparo;
4º Momento: A força dos gases da carga propulsora projecta a granada ao longo do cano, saindo para o exterior. Os gases expelidos saem pelos buracos existentes no invólucro e depois pela parte posterior da arma, criando um cone de fogo.
Imagem recolhida da wikipédia, com a devida vénia
1.3.1 AS FORÇAS PORTUGUESAS
O Exército português possuía os canhões sem recuo (CSR) M18, no calibre 57mm (no EP CSR 5,7cm M/52), de origem EUA, que surgiu em 1945, o M20, no calibre 75mm (no EP 7,5cm M/52), também surgido nos finais da II GM e o M40, surgido em meados dos anos 50, no calibre 106mm (no EP 10,6cm) - embora verdadeiramente fosse do calibre 105mm, mas para não se confundir com o M27, ficou conhecido por 106.
Os canhões sem recuo não terão sido muito usados pelas forças portuguesas, isto em termos ofensivos, mas o CSR Ligeiro 5,7 cm, o CSR 10,6 cm e CSR´s apreendidos às forças IN, mormente o famoso B10, foram usados para defesa de aquartelamentos, ao contrário, o PAIGC usava-os com frequência.
1.3.2. O CANHÃO SEM RECUO M40 DE 106mm (10,6 cm)
O canhão sem recuo (CSR) M40 de 106mm fabricado pelos EUA evoluiu do CSR M27, do início dos anos 50, no calibre 105mm, mas que se revelou um flop, pelo que veio a ser substituído pelo M40, já em meados dos anos 50, mantendo-se o mesmo calibre, embora fosse apelidado de 106mm, para não se confundir com o anterior. O CSR M40 foi usado na guerra do Vietname e em conflitos posteriores, embora como arma anti-carro tenha sido substituída nas forças norte-americanas, pelo sistema anti-tank BGM-71 TOW. Hoje em dia, no conflito da Líbia, vêem-se as forças rebeldes com este tipo de CSR, montado em jipes, usando-o quer em tiro directo, quer em fogo indirecto.
O CSR M40 tem colocado no topo uma arma de calibre 12,7mm, denominada M8 e do lado esquerdo do canhão tem uma roda para afinação da elevação da arma, tendo no centro da mesma o gatilho. Quando este é puxado, dispara a M8, quando é empurrado dispara o canhão. A espingarda serve para verificar se o tiro do canhão está centrado no alvo a atingir. A arma está assente num tripé ou pode ser montada em diversos tipos de viatura para uma melhor rapidez de movimentação e utilização (Jeep M151, Land Rover Defenders, M113, Mercedes Benz G Wagen, HMMWVs, Toyota Land Cruisers, AIL Storms, etc. A arma foi adquirida por mais de 50 países, em especial os que tinham ligação aos EUA.
Canhão Sem Recuo M40 de 106 mm (CSR 10,6 cm) * Foto Recolhida do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, com a devida vénia.
Características desta arma:
TIPO: Canhão Sem Recuo (pesado) CSR 106mm
ORIGEM: EUA
ANO: 1954
CALIBRE: 105 mm
COMPRIMENTO: 3,040m
PESO: 209,5 Kg
ALTURA: 1, 12 m
ALCANCE MÁXIMO: 6870 m
ALCANCE PRÁTICO: 1350m
CAPACIDADE DE FOGO: 1 gpm
ALINHAMENTO POR APARELHO DE PONTARIA: Colocado do lado esquerdo da arma, ao lado da espingarda M8.
FUNCIONAMENTO: O projéctil está ligado ao cartucho perfurado, como numa munição de arma ligeira, para um melhor alinhamento, carregamento e extracção do cartucho. O cartucho está perfurado para melhor saída dos gases, após o disparo, evitando o recuo da arma.
MUNIÇÃO: Granada explosiva HEAT 106X607mm
VELOCIDADE DE SAÍDA: 503 m por segundo (podendo penetrar 400 mm de blindagem).
Granada Explosiva para CSR M40 10,6 cm
O CSR M40 10,6 cm colocado num Jipe. Buruntuma 1973.
1.3.3. AS FORÇAS DO PAIGC
As forças do PAIGC tinham diversos CSR, oriundos da União Soviética, da China e dos seus países satélites. O mais famoso dos seus canhões sem recuo, muito usado nas matas da Guiné foi o CSR B-10.
O B-10 (Bezotkatnojie orudie-10), também conhecido na antiga Alemanha de Leste por RG82, foi desenvolvido a partir do CSR SPG-82 da União Soviética, da IIª GM, entrando ao serviço em 1954, mantendo-se até meados dos anos 60, quando foi substituído pelo CSR SPG-9, embora se mantivesse ao serviço das forças pára-quedistas, até aos anos 80. Não obstante ser, agora, obsoleto, foi usado por muitos países durante o período da guerra fria.
O princípio da arma é semelhante aos CSR e consiste num cano comprido e largo, com um aparelho de pontaria do tipo PBO-2 (aumento de 5,5X para tiro directo e aumento de 2.5X para tiro indirecto), colocado na lateral esquerda. A arma encontra-se montada numa armação com duas rodas, que podem ser retiradas e possui um tripé integrado e uma pequena roda no extremo do cano, para prevenir que toque o chão, quando está a ser rebocado. Pode ser atrelado a um veículo ou puxado pelos 4 homens necessários para o seu manejo, através das pegas colocadas em cada lado do cano. O disparo dá-se através de um gatilho colocado à direita da arma.
Existem duas versões chinesas para a arma, a Type-65, com um peso de 28,2 Kg, com tripé, mas sem rodas e o Type 65-1, que se pode separar em duas partes para um mais fácil transporte para longas distâncias.
CANHÃO SEM RECUO B-10
Características desta arma:
TIPO: Canhão Sem Recuo CSR B-10
ORIGEM: União Soviética
ANO: 1954
CALIBRE: 82 mm
COMPRIMENTO: 1,660m
PESO: 85,3 Kg (71,7 Kg, sem rodas)
ALTURA:
ALCANCE MÁXIMO: 4500 m
ALCANCE PRÁTICO: 400m
CAPACIDADE DE FOGO: 5 gpm
ALINHAMENTO POR APARELHO DE PONTARIA: Colocado do lado esquerdo da arma e a funcionar por sistema óptico.
FUNCIONAMENTO: Percussão do cartucho, após carregamento por abertura da culatra.
MUNIÇÃO: Granada explosiva HEAT Bk-881 de 3,6 Kg ou HE de 4,5Kg
VELOCIDADE DE SAÍDA: (pode penetrar até 240mm de blindagem)
1.3.4. OBSERVAÇÕES
Os canhões sem recuo não foram usados pelas nossas forças da mesma forma que os usados pelo PAIGC. Na verdade, embora conste a formação de pelotões para utilização do CSR 5,7cm, para a Guiné, não sabemos se terão efectivamente actuado na nossa frente de luta. Quanto ao CSR 10,6 cm, esse era usado, no tempo em apreciação, em situação defensiva, montado em jipes, assegurando a defesa de alguns aquartelamentos. Era uma excelente arma e montado no jipe poderia ser deslocado para acorrer a zonas do quartel que estivessem a sofrer um ataque. Poderia também ser usado em escoltas, em situações operacionais que o seu uso fosse ponderado (no entanto, nas zonas por onde andei, nunca vi nenhum ser utilizado desse modo). Sei que em aquartelamentos maiores a arma montada no Jipe era transportada, às vezes debaixo de fogo, para a zona de onde o IN estava a lançar o ataque, por quem era responsável pela arma.
O nosso camarada Luís Borrega referiu no Facebook (Grupo de Ex-Combatentes Restrito de Galomaro) o seguinte e que manifesta a forma com o nos desenrascávamos na utilização deste meio e que reproduzo com a devida vénia: “Nós em Pitche tínhamos um Canhão S/R, montado num Jeep, mas tínhamos um réplica feita com tronco de árvore, montado igualmente noutro Jeep. Ambos estavam tapados com lonas e os habitantes da Tabanca não sabiam qual era o verdadeiro e o falso. À noite o comandante de um abrigo periférico (Fur.) era chamado e era-lhe comunicado que o CSR seria posicionado nessa noite nesse abrigo. Todos os dias havia um “roulement” para atribuir o CSR”.
Podemos aqui notar, também, da mesma forma que para o morteiro 81mm, havia a necessidade de instruir mais pessoal para utilizar este tipo de arma, de forma a retirar rendimento da mesma.
O PAIGC utilizava essencialmente o CSR para defesa das suas instalações, mas também para flagelações aos nossos aquartelamentos e, por vezes, em emboscadas às nossas tropas, seja a colunas auto, seja a elementos apeados.
Em 14 de Dezembro de 1972, encontrava-me em Bolama, num Curso de Unidades Africanas, dirigido pelo então Major Coutinho e Lima (que viria a ser conhecido, mais tarde, por ter ordenado a retirada das nossas forças de Guileje) e, nesse dia, chegara um Batalhão de “periquitos” para efectuar o IAO. Como parece que era, às vezes hábito, o IN (grupo comandado pelo Nino) resolveu “brindar-nos” com uma flagelação ao princípio da noite, executada, entre outras armas, com canhões sem recuo. Encontrava-me na messe e lá “voei” para debaixo do edifício que era do tipo colonial, a ver se aquilo passava. Nunca tinha sofrido um ataque por meio de CSR e o que me impressionou foi ouvir o estampido de saídas e praticamente logo ouvíamos o rebentamento de uma granada. Enquanto nas saídas de morteiros nós ouvíamos os “blop!” e depois a ansiedade de onde iria cair, até ouvir-se o rebentamento No caso do CSR não dava tempo, era como se dizia: “boom!”, “boom!”. Neste caso, a flagelação sofrida provocou feridos ligeiros, mais por acidentes, entre a malta do batalhão acabado de chegar. O pessoal que estava ao rádio aquando da flagelação referiu que se ouvia as transmissões do IN, em espanhol (presumivelmente seriam cubanos a orientar o ataque). No dia seguinte, numa das palmeiras lá estava o impacto de uma “canhoada”, que até vinha bem dirigida, senão fosse a tal palmeira.
Em 17 de Abril de 1972, os guerrilheiros do PAIGC, comandados por Paulo Malu, emboscaram uma coluna da CCAÇ 3490 (Saltinho), na zona do Quirafo, recorrendo nessa acção à utilização de um CSR e foi o que já muito foi falado, uma das mais duras emboscadas, em termos de perdas de vidas, de toda a guerra na Guiné.
O CSR B-10 era uma excelente arma e relativamente manobrável para aquele tipo de cenário, daí o recurso ao seu uso por parte dos guerrilheiros. As forças portuguesas também utilizaram estes CSR´s (apreendidos) mas sempre no sentido defensivo.
Não esquecer que o uso deste tipo de armamento requeria os cuidados semelhantes aos que se tinham com os LGF, ou seja, aquando do disparo da arma, ninguém podia estar atrás da mesma, por causa do cone de fogo que lançava à retaguarda.
Luís Dias
Nota do autor: Na recolha para este trabalho foram coligidos elementos, material e fotos, com a devida vénia, da Wikipédia/Internet; Infantry Weapons of the World, da Brassens, Editor J.L.H. Owen; Guerra Colonial, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, Edição Diário de Notícias; Modern Firearms & Ammunition Encyclopedie; Gunpédia; Probertencyclopaedia.com; Guerra Colonial.org/gallery.
Guiné 1971 – 1974
IIª PARTE (Continuação)
1.2. OS MORTEIROS MÉDIOS E PESADOS
A palavra morteiro advém da palavra inglesa “mortar”, que quer dizer almofariz e que, segundo a lenda, terá sido nele que se inventou a pólvora. Os primeiros morteiros terão surgido no século XIV, mas como tinham ainda um tiro muito impreciso era a bombarda que reinava. Os morteiros actuais desenvolveram-se daqueles que foram utilizados no 1º conflito mundial, onde foram especialmente concebidos para as guerras de trincheira (“trench mortars”) e como arma de apoio da infantaria, embora os morteiros pesados são, em alguns casos e para alguns autores, usados como arma de artilharia.
Os morteiros foram o terror das trincheiras durante a Iª GM, uma vez que eram muito mais eficientes do que canhões na devastação de posições defensivas, por causa da trajectória em parábola do projéctil. O seu uso foi consagrado pelos alemães, que tiraram lições da guerra russo-japonesa de 1904, em Port Arthur.
O morteiro é uma boca-de-fogo, de carregar pela boca, destinado a lançar granadas, normalmente em tiro curvo, capaz de alcançar alvos em áreas denominadas “zonas mortas” (desenfiados ou em contra-encosta). Pode fazê-lo nas modalidades de tiro seguintes: directo, mascarado ou indirecto.
Os morteiros podem ser classificados da seguinte forma:
LIGEIROS
Com Peso até cerca de 18 Kg, com calibre até 60mm e alcance máximo até 1900m.
Executam, normalmente, tiro directo.
MÉDIOS
Com peso até 70 Kg, com calibre entre 60 e 100mm e alcance máximo até 6000m.
Particularmente vocacionado para o tiro mascarado. O seu peso e dimensões não aconselham a sua utilização em posições muito avançadas.
PESADOS
Peso até 300 Kg, com calibre superior a 100mm e alcance máximo até 9000m.
Vocacionado para o tiro indirecto. O seu peso e dimensões aconselham a sua utilização em posições muito afastadas da frente.
São armas robustas, de funcionamento simples, de entrada em posição morosa (médios e pesados especialmente), que podem atirar diverso tipo de granadas (instrução, fumos, incendiárias, explosivas, iluminação, etc.) e que podem ser colocadas em reparos apropriados para defesa de instalações, em reparos com rodas e em viaturas.
O funcionamento é feito por ante carga, com percutor fixo (o disparo é obtido pela queda do projéctil sobre o percutor) ou móvel (accionado por um mecanismo de disparo manual, após a queda do projéctil no interior do cano).
1.2.1. AS FORÇAS PORTUGUESAS
Os soldados portugueses terão um jeito muito especial para o uso de morteiros, conforme relatos existentes da Iª GM (“Livro de Ouro da Infantaria Portuguesa”), sendo neste conflito que maior desenvolvimento teve este tipo de arma. Os portugueses possuíam, então, morteiros ligeiros de 75mm, médios de 152mm e pesados de 236mm.
O emprego eficaz dos morteiros (aliás também da artilharia) pressupõe um bom suporte cartográfico e a observação do tiro. Durante todo o tempo da guerra colonial, nem sempre este ideal foi alcançado, pelo que o apoio próximo das tropas não foi eficientemente conseguido. Assim, os morteiros de maiores calibres (81 mm, 107mm e, mais tarde, 120mm) foram essencialmente empregues em flagelações e reacções aos ataques a aquartelamentos. Pelo contrário, os morteiros de 60 mm seriam largamente utilizados, sobretudo no apoio imediato das tropas, colmatando assim a falta já referenciada de um lança-granadas eficaz.
1.2.2. O MORTEIRO MÉDIO BRANDT M/931 DE 81mm
O principal morteiro médio utilizado na guerra colonial foi o Brandt m/931, desenvolvido por esta firma em França, no final dos anos 20 (1927), (ainda que baseado no desenho do morteiro Stokes, de origem inglesa) e conhecido como o Brandt 81 mm mle/27/31 (por ter sido redesenhado em 1931). Foi o morteiro das forças francesas na IIª Guerra Mundial. Depois da ocupação nazi foi utilizado pelas forças alemãs a contento e deu origem a um morteiro do mesmo tipo norte-americano e muitas cópias pelo mundo fora.
MORTEIRO MÉDIO BRANDT m/931 de 81mm
Características desta arma
TIPO: Morteiro médio
ORIGEM: França
CALIBRE: 81, 4 mm
COMPRIMENTO DO CANO: 126 cm
PESO DO CANO: 20, 7 Kg
PESO DO BIPÉ: 18, 5 Kg
PESO DO PRATO BASE: 20, 5 Kg
PESO DO APARELHO DE PONTARIA: 1,3 Kg
PESO TOTAL EM POSIÇÃO DE FOGO: 61 Kg
ALCANCE: 4 000 m
ALINHAMENTO DE TIRO: Recurso a aparelho de pontaria apropriado
CAPACIDADE DE FOGO: Variável (15 a 30 gpm)
FUNCIONAMENTO: Ante carga, com percutor fixo e de tubo de alma lisa. O disparo dá-se por queda da granada sobre o percutor e o lançamento por acção dos gases da carga propulsora e das cargas suplementares, se as houver.
MUNIÇÃO: Variada (granada explosiva normal (3, 2 Kg), explosiva de grande potência (6, 9 Kg), de fumos, iluminação e de treino). As granadas podiam levar cargas suplementares presas nas alhetas que lhe davam um maior alcance. Havia granadas que armavam por inércia e só depois disso é que rebentavam ao contacto e outras que rebentavam pelo contacto da mola do nariz.
1.2.3. O MORTEIRO PESADO M2 M/951
O primeiro morteiro pesado M2 entrou ao serviço das forças dos EUA, em 1943, embora o primeiro morteiro de 107mm, o M1, tenha sido introduzido em 1928. O M2 entrou em serviço na Campanha da Sicília e com grande êxito, seguindo o acompanhamento da evolução da IIª Guerra Mundial até ao seu término. Fez ainda a Guerra da Coreia e a partir de 1951 foi, gradualmente, sendo substituído pelo morteiro M30, também de 107mm. No exército português foi nesta data que entrou ao serviço e acompanhou toda a campanha de África da guerra colonial.
MORTEIRO PESADO M2 M/951
Características desta arma
TIPO: Morteiro pesado
ORIGEM: EUA
CALIBRE: 107 mm
COMPRIMENTO DO CANO: 121,92 cm
PESO DO CANO:
PESO DO BIPÉ:
PESO DO PRATO BASE:
PESO TOTAL EM POSIÇÃO DE FOGO: 151 Kg
ALCANCE MÁXIMO: 4 000 m
ALCANCE MÍNIMO: 515 m
ALINHAMENTO DE TIRO: Recurso a aparelho de pontaria apropriado
CAPACIDADE DE FOGO: 5 gpm por 20 minutos.
FUNCIONAMENTO: Ante carga, com percutor fixo
MUNIÇÃO: Granada explosiva (11,1 Kg c/3,6 Kg TNT) e de fumos.
1.2.4. AS FORÇAS DO PAIGC
As forças dos guerrilheiros utilizavam morteiros médios e pesados de origem soviética, da china ou dos países satélites.
Enquanto o mundo ocidental utilizava como morteiro médio padrão o calibre 81mm, de origem francesa, os soviéticos e seus satélites enveredavam pelo modelo de 82mm. O primeiro morteiro médio soviético conhecido e difundido, mesmo após a II Guerra Mundial foi o M1937, seguindo-se o M1941, o M1941/42 e o M1943. De todos estes modelos os que tiveram maior expansão nos países comunistas foram o M1937 (Novo Modelo/Tipo) e o M1941 (82-PM-41). Por exemplo a China produzia o M1937 com o nome de Type 53.
1.2.5. O MORTEIRO MÉDIO M1937 (NOVO TIPO/MODELO)
O morteiro médio M1937 (New Type) tem origem na União Soviética, produzido nas fábricas estatais, em 1937. Fez a segunda guerra mundial, o conflito com a Finlândia e apoiou os movimentos comunistas na guerra da Coreia, em paralelo, especialmente, com o morteiro médio 82-PM-41.
MORTEIRO MÉDIO M1937, CALIBRE 82mm
Características desta arma:
TIPO: Morteiro médio
ORIGEM: URSS
CALIBRE: 82 mm
COMPRIMENTO DO CANO: 122 cm
PESO DO CANO: 19,6Kg
TAMANHO DO PRATO BASE: 50cm
PESO DO BIPÉ: 20Kg
PESO DO PRATO BASE: 21,3Kg
PESO TOTAL EM POSIÇÃO DE FOGO: 60 Kg
ALCANCE MÁXIMO: 3040 m
ALCANCE MÍNIMO:
ALINHAMENTO DE TIRO: Recurso a aparelho de pontaria apropriado (MPM-44)
CAPACIDADE DE FOGO: 15/20 gpm.
FUNCIONAMENTO: Ante carga, com percutor fixo
MUNIÇÃO: Granada explosiva (3,05 Kg) e de fumos.
Capa do Manual de Instruções do morteiro médio de 82mm M1943, em russo.
Em primeiro lugar, do lado esquerdo, granada de morteiro 82mm HE soviética ao lado de granadas do morteiro 50mm, do mesmo país.
1.2.6. O MORTEIRO PESADO M1938
O morteiro pesado M1938 de 120mm, com origem na antiga União Soviética, foi produzido com base no sistema do excelente morteiro pesado Brandt francês, de 120mm, de 1935. O M1938 generalizou-se pelas forças do Exército Vermelho, da China e dos seus satélites. Para se movimentar entre pequenas distâncias o morteiro era dividido rapidamente em três partes (cano, prato e bipé), para facilitar o seu transporte e recolocação. Para viagens mais longas todo o sistema fechava-se em si próprio e era colocado num reboque com rodas. A arma foi considerada tão boa que os alemães a copiaram (Granatwerfer 42), embora o modelo alemão tivesse um alcance maior. A arma foi usada em outros conflitos nomeadamente a guerra da Coreia e profusamente no Vietname.
Outro modelo de morteiro pesado foi o de 120mm M1943, que é semelhante ao modelo anterior, embora este último seja um pouco mais sofisticado. Foi também distribuído pelas forças do Pacto de Varsóvia, pela China e por outros países satélites.
Devemos também referir, a título de curiosidade, outros modelos de morteiros pesados na antiga União Soviética que foram o morteiro de 107mm M1938, semelhante ao de 120mm, mas destinado às tropas de montanha, mas sem ter a profusão de distribuição e a fama dos já mencionados e o morteiro de 160mm de 1943.
Em 1953 surgiu o morteiro de 240mm M-240, que necessita de uma equipa de nove elementos para operar e disparar uma granada por minuto.
MORTEIRO PESADO M1938 de 120mm
MORTEIRO PESADO 120mm M1943, no atrelado apropriado
Características desta arma:
TIPO: Morteiro pesado
ORIGEM: URSS
CALIBRE: 120 mm
COMPRIMENTO DO CANO: 185 cm
PESO DO CANO:
TAMANHO DO PRATO BASE: 100cm
PESO DO BIPÉ: 20Kg
PESO DO PRATO BASE:
PESO TOTAL EM POSIÇÃO DE FOGO: 170 Kg
ALCANCE MÁXIMO: 5700 m
ALCANCE MÍNIMO: 400m
ALINHAMENTO DE TIRO: Recurso a aparelho de pontaria apropriado (MPM-41/MP42)
CAPACIDADE DE FOGO: 12/15 gpm.
FUNCIONAMENTO: Ante carga, com percutor fixo/ou manual
MUNIÇÃO: Granada explosiva (15,4 Kg) e de fumos (16Kg) e Incendiária (16,7Kg).
1.2.7. OBSERVAÇÕES
Em termos técnicos de morteiros médios as forças equivaliam-se, embora me pareça que o Exército português tivesse mais morteiros 81mm no terreno do que as forças do PAIGC os morteiros 82mm. O morteiro 81mm era a arma preferencial de defesa dos aquartelamentos e era usado com grande à vontade, dado o denominado “jeito” natural que o soldado português tem pelo morteiro. De facto, embora houvesse nos aquartelamentos apontadores para esta arma, na maior parte das vezes muitos outros elementos eram ensinados a apontar com o morteiro, de forma a poderem dar uma resposta rápida em caso de ataque às instalações. Ou seja, o primeiro homem a chegar ao espaldão da arma, nem sempre era o seu apontador e, enquanto este não chegava, o outro ou outros iniciavam a reacção. Esta reacção era por vezes tão rápida que acontecia casos imprevistos, como o que relato a seguir.
Em 1 de Dezembro de 1972, o IN aproximou-se do quartel de Galomaro, sede do Batalhão de Caçadores 3872, pelo início da noite e a coberto de uma manada de animais que pastava um pouco para lá do arame. No entanto, por sorte e também atenção de uma das sentinelas, que desconfiada reagiu, atirando diversos tiros para a área onde estaria parte do dispositivo de ataque do IN, o que até provocou a ira do comandante, mas também o alerta do resto da companhia (CCS) e quando, logo em seguida, os guerrilheiros deram início à flagelação, a maioria já não foi apanhada tão desprevenida. Isto para falar da eficácia de elementos da enfermagem, que tendo saído do seu abrigo “caíram” no espaldão do morteiro 81 e iniciaram a reacção ao ataque. Ou seja, quem lançou as primeiras granadas do 81 foi um 1º cabo enfermeiro (André António), que depois foi auxiliado por outro 1º cabo enfermeiro (Augusto Catroga). A sua pronta reacção e o acerto da sua pontaria fizeram travar o ataque inimigo, que retirou com baixas confirmadas pelos rastos de sangue encontrados e por um guerrilheiro morto que enterraram já a alguma distância do aquartelamento.
No entanto, há algumas situações curiosas nesta reacção. O 1º cabo auxiliar enfermeiro que iniciou a resposta com o morteiro 81mm, saiu do seu abrigo passando por um buraco que, mais tarde, já não conseguiu atravessar (dedução: os ataques emagrecem ou a reacção engorda?). Depois, já no espaldão, foi tal a rapidez e a ânsia de ripostar que a primeira granada que lançou com o morteiro foi com cavilha e tudo (deve ter partido algumas cabeças no IN!), mas teve em seguida a calma para atirar certeiramente com a ajuda de outro camarada, pondo os guerrilheiros em rápida retirada. O outro pormenor interessante é que o guerrilheiro morto e por nós encontrado enterrado, era o enfermeiro do grupo atacante (tinha com ele a bolsa de enfermagem. Ironias do destino!).
Na verdade, pelo que observei também, os nossos apontadores não são lá muito de usar os aparelhos de pontaria, pelo menos nos morteiros 60 e 81, eram mais de usar o método do “olhómetro” e, muitas vezes, com bons resultados. Quase em todos os quartéis e nos espaldões dos morteiros, o pessoal colocava um sistema (estacas de madeira, ou simples anotações nos bidons que formavam o espaldão) que indicavam distâncias e nomeavam zonas a atingir em caso de ataque ao quartel e para onde viravam o morteiro, com a devida e já pré estudada inclinação. É claro que estes cálculos eram previamente testados.
No aquartelamento do Dulombi (CCAÇ3491), após os ataques do IN e consequentes respostas com os morteiros 81, deixávamos passar uma meia hora, ¾ de hora e lançávamos uma ou duas granadas com as cargas todas para as zonas que muitas das vezes o IN usava para proceder à retirada, para sentirem que não obstante estarem a uma distância do quartel que pudessem pensar estar a salvo, ainda lhes “mordíamos” os calcanhares. Ainda no Dulombi, durante uma das várias flagelações do IN, este atacou do lado onde ficava a tabanca da população (lado contrário ao seu uso e costume), o que obrigou a uma rotação dos morteiros de 180º. Na reacção, uma das primeiras granadas que foram lançadas em resposta, ainda com pessoal a correr para as valas, saiu, por defeito, meio em parafuso, em voo baixo e caiu no meio da parada, perto do monumento aos mortos da companhia dos “velhinhos” (CCAÇ2700), não rebentando. Isto deveu-se a ser uma granada de armar por inércia, não tendo conseguido projectar-se o suficiente para armar a percussão. Se fosse das outras, das de mola...!
O morteiro 81mm era, como já disse, mais usado em defesa dos aquartelamentos, mas também em algumas situações ofensivas e de protecção a operações de certa envergadura. (Explo: “Ao atingir o local, onde dias antes tinha sido o contacto com o IN, a CCav sofreu uma emboscada que lhe provocou 1 morto no primeiro tiro disparado com RPG. Imediatamente a seguir entraram em acção os morteiros 82, cujas saídas das granadas eram perfeitamente audíveis. A CCaç 2403, que pela primeira e última vez se fez acompanhar de um morteiro 81, abriu fogo sobre a posição bem referenciada dos do IN, o que, segundo informação do Aferes Mouzinho, acabou com o ataque dos morteiros IN. Apesar da utilidade do morteiro 81 nesta acção, revelou-se impraticável sobrecarregar o pessoal com esta arma quando já estava bem carregado com a sua arma, mais munições, água, ração de combate e as granadas para as bazucas e morteiro 60. Foi o maior contacto da Companhia com o IN”. Actividades da CCAÇ2403, na zona Leste/Rio Corubalo, relatada pelo seu então Capitão Hilário Peixeiro P8284, do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, com a devida vénia).
O IN usava o morteiro 82mm em situações de defesa das suas áreas de implantação e transportava os morteiros para flagelar os nossos quartéis, mas nem sempre com muita eficácia. Infelizmente numa das vezes que foram eficazes foi contra o quartel de Cancolim, em Março de 1972, onde estava a CCAÇ3489, do meu Batalhão (BCAÇ3872), que tinha chegado à Guiné em 24 de Dezembro de 1971 – éramos ainda muito “periquitos” - em que uma granada de morteiro 82mm acertou num cruzamento de valas, matando três camaradas, o que não era muito usual, mas aconteceu.
Os morteiros pesados eram mais usados em defesa de aquartelamentos, isto no caso dos portugueses, porque os elementos do PAIGC, para além de flagelações com eles colocados em bases quer no Senegal, quer na República da Guiné-Conacri, conseguiram introduzir em território da Guiné morteiros 120mm para os apoiar em ataques e flagelações aos nossos aquartelamentos, sendo que, alguns deles, foram apreendidos pelas nossas forças. Sabe-se que, usualmente, os morteiros 120mm eram dos modelos referenciados M1938 ou ainda M1943.
As forças portuguesas chegaram a usar em seu proveito morteiros 82mm e 120mm apreendidos, aliás como o IN também chegou a usar morteiros nossos, (mais as nossas granadas). Havia até a ideia, que os soviéticos tinham calibrado o seu morteiro médio para 82mm a fim de usar as granadas inimigas e ocidentais que eram de 81mm. Com certeza que os morteiros 82 podiam usar as nossas granadas, com uma pequena diferença no seu diâmetro, só que essa pequena diferença, era suficiente para deixar alguns gases escaparem pelo pequeno intervalo, entre o projéctil e o cano, alterando a estabilidade do projéctil e consequentemente a sua direcção e mesmo o seu alcance.
A força de impacto de um projéctil de um morteiro pesado deve ser aterrorizante para quem está debaixo desse intenso fogo. As guarnições de Guidage, Gadamael, Guileje em 1973 e Canquelifá em 1974 (entre outras), conheceram bem o poder das granadas do morteiro 120mm usado pelo IN.
O Exército português recebeu em 1974 morteiros calibre 120mm Tampella B M/74, de origem finlandesa - desconheço se ainda foram colocados em África e já em 1986, entrou ao serviço o morteiro médio 81mm da Royal Ordnance (actual BAE Systems) L16A2 M/86, de origem inglesa.
1.3. OS CANHÕES SEM RECUO
Os canhões sem recuo (CSR) são um tipo particular de canhões, com uma retro-abertura que permite a saída dos gases provocados pelo disparo da sua munição, não tendo, deste modo, o habitual recuo da arma que surge nos canhões convencionais. Os CSR eram, essencialmente, usados como arma anti-carro, contudo, a partir dos anos 70 (segundo alguns autores), foram sendo substituídos nesta tarefa pelos mísseis anti-carro. Posteriormente, os CSR ligeiros passaram a ser utilizados como arma de apoio da infantaria, nos combates contra veículos blindados ligeiros e anti-pessoal.
A primeira arma sem recuo foi desenvolvida pelo Comandante Cleland Davis, da Marinha dos EUA, um pouco antes do 1º conflito mundial. O seu projecto denominou-se “Davis Gun”.
A União Soviética desenvolveu a partir de 1923 o DRP (Dinamo Reaktivna Pushka – Canhão de Reacção Dinâmica). Na década de 30 foram testadas diversas armas, com calibres que variavam entre o 37mm e o 305mm, e os modelos mais ligeiros foram colocados em aeronaves (Grigorovich IZ e Tupolev I-12). O CSR mais conhecido foi o modelo de 1935, de 76mm, desenhado por Leonid Kurchevsky, que num pequeno número foram montados em camiões e usados contra os finlandeses. Estes apreenderam dois deles e ofereceram um aos alemães.
Durante a IIª Guerra Mundial os canhões sem recuo não se desenvolveram por aí além, aperfeiçoaram-se antes os Lança Granadas Foguete (alemães, americanos e depois os russos), no entanto na Guerra da Coreia os CSR apareceram em força no Exército dos EUA, nos calibres 57mm, 75mm (estes já vinham da II GM e seriam também usado na Guerra da Coreia) e o M27 de 105mm, que não teve êxito (usado na Guerra da Coreia). Posteriormente surgiu o modelo M40, em 106mm (Vietname) e M67, em 90 mm (Vietname). Os Soviéticos também apostaram nos anos 50 na tecnologia dos canhões sem recuo, surgindo modelos nos calibres 73mm, 82mm e 107mm. Os ingleses também investiram neste tipo de arma (Mobat e Wombat, ambos no calibre 120mm). Actualmente, um dos mais conhecidos CSR é o Carl Gustav, de origem sueca, que teve o seu início em 1946 e que foi evoluindo tornando-se uma das armas das forças da NATO (o exército português tem hoje ao seu serviço o CG M2-550, no calibre 84mm).
Como funciona o disparo de um CSR:
1º Momento: O projéctil e a arma;
2º Momento: O projéctil é inserido na culatra da arma pela retaguarda;
3º Momento: Dá-se o disparo;
4º Momento: A força dos gases da carga propulsora projecta a granada ao longo do cano, saindo para o exterior. Os gases expelidos saem pelos buracos existentes no invólucro e depois pela parte posterior da arma, criando um cone de fogo.
Imagem recolhida da wikipédia, com a devida vénia
1.3.1 AS FORÇAS PORTUGUESAS
O Exército português possuía os canhões sem recuo (CSR) M18, no calibre 57mm (no EP CSR 5,7cm M/52), de origem EUA, que surgiu em 1945, o M20, no calibre 75mm (no EP 7,5cm M/52), também surgido nos finais da II GM e o M40, surgido em meados dos anos 50, no calibre 106mm (no EP 10,6cm) - embora verdadeiramente fosse do calibre 105mm, mas para não se confundir com o M27, ficou conhecido por 106.
Os canhões sem recuo não terão sido muito usados pelas forças portuguesas, isto em termos ofensivos, mas o CSR Ligeiro 5,7 cm, o CSR 10,6 cm e CSR´s apreendidos às forças IN, mormente o famoso B10, foram usados para defesa de aquartelamentos, ao contrário, o PAIGC usava-os com frequência.
1.3.2. O CANHÃO SEM RECUO M40 DE 106mm (10,6 cm)
O canhão sem recuo (CSR) M40 de 106mm fabricado pelos EUA evoluiu do CSR M27, do início dos anos 50, no calibre 105mm, mas que se revelou um flop, pelo que veio a ser substituído pelo M40, já em meados dos anos 50, mantendo-se o mesmo calibre, embora fosse apelidado de 106mm, para não se confundir com o anterior. O CSR M40 foi usado na guerra do Vietname e em conflitos posteriores, embora como arma anti-carro tenha sido substituída nas forças norte-americanas, pelo sistema anti-tank BGM-71 TOW. Hoje em dia, no conflito da Líbia, vêem-se as forças rebeldes com este tipo de CSR, montado em jipes, usando-o quer em tiro directo, quer em fogo indirecto.
O CSR M40 tem colocado no topo uma arma de calibre 12,7mm, denominada M8 e do lado esquerdo do canhão tem uma roda para afinação da elevação da arma, tendo no centro da mesma o gatilho. Quando este é puxado, dispara a M8, quando é empurrado dispara o canhão. A espingarda serve para verificar se o tiro do canhão está centrado no alvo a atingir. A arma está assente num tripé ou pode ser montada em diversos tipos de viatura para uma melhor rapidez de movimentação e utilização (Jeep M151, Land Rover Defenders, M113, Mercedes Benz G Wagen, HMMWVs, Toyota Land Cruisers, AIL Storms, etc. A arma foi adquirida por mais de 50 países, em especial os que tinham ligação aos EUA.
Canhão Sem Recuo M40 de 106 mm (CSR 10,6 cm) * Foto Recolhida do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, com a devida vénia.
Características desta arma:
TIPO: Canhão Sem Recuo (pesado) CSR 106mm
ORIGEM: EUA
ANO: 1954
CALIBRE: 105 mm
COMPRIMENTO: 3,040m
PESO: 209,5 Kg
ALTURA: 1, 12 m
ALCANCE MÁXIMO: 6870 m
ALCANCE PRÁTICO: 1350m
CAPACIDADE DE FOGO: 1 gpm
ALINHAMENTO POR APARELHO DE PONTARIA: Colocado do lado esquerdo da arma, ao lado da espingarda M8.
FUNCIONAMENTO: O projéctil está ligado ao cartucho perfurado, como numa munição de arma ligeira, para um melhor alinhamento, carregamento e extracção do cartucho. O cartucho está perfurado para melhor saída dos gases, após o disparo, evitando o recuo da arma.
MUNIÇÃO: Granada explosiva HEAT 106X607mm
VELOCIDADE DE SAÍDA: 503 m por segundo (podendo penetrar 400 mm de blindagem).
Granada Explosiva para CSR M40 10,6 cm
O CSR M40 10,6 cm colocado num Jipe. Buruntuma 1973.
1.3.3. AS FORÇAS DO PAIGC
As forças do PAIGC tinham diversos CSR, oriundos da União Soviética, da China e dos seus países satélites. O mais famoso dos seus canhões sem recuo, muito usado nas matas da Guiné foi o CSR B-10.
O B-10 (Bezotkatnojie orudie-10), também conhecido na antiga Alemanha de Leste por RG82, foi desenvolvido a partir do CSR SPG-82 da União Soviética, da IIª GM, entrando ao serviço em 1954, mantendo-se até meados dos anos 60, quando foi substituído pelo CSR SPG-9, embora se mantivesse ao serviço das forças pára-quedistas, até aos anos 80. Não obstante ser, agora, obsoleto, foi usado por muitos países durante o período da guerra fria.
O princípio da arma é semelhante aos CSR e consiste num cano comprido e largo, com um aparelho de pontaria do tipo PBO-2 (aumento de 5,5X para tiro directo e aumento de 2.5X para tiro indirecto), colocado na lateral esquerda. A arma encontra-se montada numa armação com duas rodas, que podem ser retiradas e possui um tripé integrado e uma pequena roda no extremo do cano, para prevenir que toque o chão, quando está a ser rebocado. Pode ser atrelado a um veículo ou puxado pelos 4 homens necessários para o seu manejo, através das pegas colocadas em cada lado do cano. O disparo dá-se através de um gatilho colocado à direita da arma.
Existem duas versões chinesas para a arma, a Type-65, com um peso de 28,2 Kg, com tripé, mas sem rodas e o Type 65-1, que se pode separar em duas partes para um mais fácil transporte para longas distâncias.
CANHÃO SEM RECUO B-10
Características desta arma:
TIPO: Canhão Sem Recuo CSR B-10
ORIGEM: União Soviética
ANO: 1954
CALIBRE: 82 mm
COMPRIMENTO: 1,660m
PESO: 85,3 Kg (71,7 Kg, sem rodas)
ALTURA:
ALCANCE MÁXIMO: 4500 m
ALCANCE PRÁTICO: 400m
CAPACIDADE DE FOGO: 5 gpm
ALINHAMENTO POR APARELHO DE PONTARIA: Colocado do lado esquerdo da arma e a funcionar por sistema óptico.
FUNCIONAMENTO: Percussão do cartucho, após carregamento por abertura da culatra.
MUNIÇÃO: Granada explosiva HEAT Bk-881 de 3,6 Kg ou HE de 4,5Kg
VELOCIDADE DE SAÍDA: (pode penetrar até 240mm de blindagem)
1.3.4. OBSERVAÇÕES
Os canhões sem recuo não foram usados pelas nossas forças da mesma forma que os usados pelo PAIGC. Na verdade, embora conste a formação de pelotões para utilização do CSR 5,7cm, para a Guiné, não sabemos se terão efectivamente actuado na nossa frente de luta. Quanto ao CSR 10,6 cm, esse era usado, no tempo em apreciação, em situação defensiva, montado em jipes, assegurando a defesa de alguns aquartelamentos. Era uma excelente arma e montado no jipe poderia ser deslocado para acorrer a zonas do quartel que estivessem a sofrer um ataque. Poderia também ser usado em escoltas, em situações operacionais que o seu uso fosse ponderado (no entanto, nas zonas por onde andei, nunca vi nenhum ser utilizado desse modo). Sei que em aquartelamentos maiores a arma montada no Jipe era transportada, às vezes debaixo de fogo, para a zona de onde o IN estava a lançar o ataque, por quem era responsável pela arma.
O nosso camarada Luís Borrega referiu no Facebook (Grupo de Ex-Combatentes Restrito de Galomaro) o seguinte e que manifesta a forma com o nos desenrascávamos na utilização deste meio e que reproduzo com a devida vénia: “Nós em Pitche tínhamos um Canhão S/R, montado num Jeep, mas tínhamos um réplica feita com tronco de árvore, montado igualmente noutro Jeep. Ambos estavam tapados com lonas e os habitantes da Tabanca não sabiam qual era o verdadeiro e o falso. À noite o comandante de um abrigo periférico (Fur.) era chamado e era-lhe comunicado que o CSR seria posicionado nessa noite nesse abrigo. Todos os dias havia um “roulement” para atribuir o CSR”.
Podemos aqui notar, também, da mesma forma que para o morteiro 81mm, havia a necessidade de instruir mais pessoal para utilizar este tipo de arma, de forma a retirar rendimento da mesma.
O PAIGC utilizava essencialmente o CSR para defesa das suas instalações, mas também para flagelações aos nossos aquartelamentos e, por vezes, em emboscadas às nossas tropas, seja a colunas auto, seja a elementos apeados.
Em 14 de Dezembro de 1972, encontrava-me em Bolama, num Curso de Unidades Africanas, dirigido pelo então Major Coutinho e Lima (que viria a ser conhecido, mais tarde, por ter ordenado a retirada das nossas forças de Guileje) e, nesse dia, chegara um Batalhão de “periquitos” para efectuar o IAO. Como parece que era, às vezes hábito, o IN (grupo comandado pelo Nino) resolveu “brindar-nos” com uma flagelação ao princípio da noite, executada, entre outras armas, com canhões sem recuo. Encontrava-me na messe e lá “voei” para debaixo do edifício que era do tipo colonial, a ver se aquilo passava. Nunca tinha sofrido um ataque por meio de CSR e o que me impressionou foi ouvir o estampido de saídas e praticamente logo ouvíamos o rebentamento de uma granada. Enquanto nas saídas de morteiros nós ouvíamos os “blop!” e depois a ansiedade de onde iria cair, até ouvir-se o rebentamento No caso do CSR não dava tempo, era como se dizia: “boom!”, “boom!”. Neste caso, a flagelação sofrida provocou feridos ligeiros, mais por acidentes, entre a malta do batalhão acabado de chegar. O pessoal que estava ao rádio aquando da flagelação referiu que se ouvia as transmissões do IN, em espanhol (presumivelmente seriam cubanos a orientar o ataque). No dia seguinte, numa das palmeiras lá estava o impacto de uma “canhoada”, que até vinha bem dirigida, senão fosse a tal palmeira.
Em 17 de Abril de 1972, os guerrilheiros do PAIGC, comandados por Paulo Malu, emboscaram uma coluna da CCAÇ 3490 (Saltinho), na zona do Quirafo, recorrendo nessa acção à utilização de um CSR e foi o que já muito foi falado, uma das mais duras emboscadas, em termos de perdas de vidas, de toda a guerra na Guiné.
O CSR B-10 era uma excelente arma e relativamente manobrável para aquele tipo de cenário, daí o recurso ao seu uso por parte dos guerrilheiros. As forças portuguesas também utilizaram estes CSR´s (apreendidos) mas sempre no sentido defensivo.
Não esquecer que o uso deste tipo de armamento requeria os cuidados semelhantes aos que se tinham com os LGF, ou seja, aquando do disparo da arma, ninguém podia estar atrás da mesma, por causa do cone de fogo que lançava à retaguarda.
Luís Dias
Nota do autor: Na recolha para este trabalho foram coligidos elementos, material e fotos, com a devida vénia, da Wikipédia/Internet; Infantry Weapons of the World, da Brassens, Editor J.L.H. Owen; Guerra Colonial, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, Edição Diário de Notícias; Modern Firearms & Ammunition Encyclopedie; Gunpédia; Probertencyclopaedia.com; Guerra Colonial.org/gallery.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
ALGUMAS IMAGENS DO 10 DE JUNHO DE 2011, EM FRENTE AO MONUMENTO AOS COMBATENTES EM BELÉM-LISBOA
No passado dia 10 de Junho, promovida pela Comissão Executiva do Encontro Nacional de Combatentes, realizou-se junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar, "uma homenagem à memória de todos quantos, ao longo da nossa história, chamados um dia a Servir, tombaram no campo da honra, em qualquer época ou ponto do globo." (retirado do Convite/Programa, que se anexa).
Cartaz sobre o Programa das Comemorações e de seguida diversas imagens gerais do acontecimento.
O Editor no Forte do Bom Sucesso, junto à parte da frente do célebre FIAT G-91, que o IN denominava o "Já Passou".
Diversos membros pertencentes à imensa "Tabanca Grande" (Blogue do Luís Graça & Camaradas da Guiné).
Da esq/p/Dta: Virgínio Briote,António Santos, Vítor Caseiro, Magalhães Ribeiro,Luís Dias e a esposa Maria.
Lápide com os nomes dos mortos da Guerra Colonial.
Estas duas fotos anteriores, que apresentamos com a devida vénia, são da autoria de Arménio Estorninho, membro da "Tabanca Grande" e foram publicadas no blogue do Luís Graça & Camaradas da Guiné
Cartaz sobre o Programa das Comemorações e de seguida diversas imagens gerais do acontecimento.
O Editor no Forte do Bom Sucesso, junto à parte da frente do célebre FIAT G-91, que o IN denominava o "Já Passou".
Diversos membros pertencentes à imensa "Tabanca Grande" (Blogue do Luís Graça & Camaradas da Guiné).
Da esq/p/Dta: Virgínio Briote,António Santos, Vítor Caseiro, Magalhães Ribeiro,Luís Dias e a esposa Maria.
Lápide com os nomes dos mortos da Guerra Colonial.
Estas duas fotos anteriores, que apresentamos com a devida vénia, são da autoria de Arménio Estorninho, membro da "Tabanca Grande" e foram publicadas no blogue do Luís Graça & Camaradas da Guiné
terça-feira, 7 de junho de 2011
FOTOS DA CHEGADA DA CCAÇ 3491 AO DULOMBI
Caros Camaradas e Amigos
O Blogue dos nossos velhinhos da CCAÇ 2700, editou diversas fotos referentes à nossa chegada ao Dulombi, em 24 de Janeiro de 1972, fotos de um momento histórico para as duas companhias: para a 27$00 (como também eram conhecidos), era sentirem que estava próximo o momento do regresso, para nós, infelizmente, seria o início de uma "aventura", que se iria prolongar por 27 meses e meio em terras da Guiné(É MUITO...!, como dizia o nosso lema).
Para os elementos da nossa companhia, os primeiros contactos com os “velhinhos” foram de certo espanto. Aquela malta de camuflados gastos, apresentando uma cor de pele tipo amarelada, muito longe do “bronze” que aquele calor podia proporcionar (pensávamos nós), a maioria bastante magra (e não era de certeza de fazerem muito ginásio), punha a nossa imaginação a trabalhar: “O que é que nos vai acontecer? Também vamos ficar assim? Vamos ter este aspecto, de meio loucos?”. As primeiras impressões que eles nos causaram foram, terríveis.
As fotos são do Ricardo Lemos e foram-nos gentilmente cedidas para publicação pelo editor do Blogue, Fernando Barata. A ambos, fica aqui lavrado, o nosso agradecimento.
Existem no blogue: http://dulombi.blogspot.com, mais fotos da autoria também do Ricardo Lemos que merecem ser visionadas, porque são fotos excelentes da chegada da 27$00 a Bissau e a sua ida em coluna militar para o Cumeré.

Uma equipa da Radio Televisão do Dulombi estava a postos para proporcionar ao vivo e a cores a chegada dos desgraçados que vinham substituir os "Antes Quebrar que Torcer".

A Chegada dos "periquitos" foi preparada com muito cuidado pelos "velhinhos". Aqui a preocupação da malta da "Ferrugem" nuns versos exibidos numa placa em chapa;
"Ó PIRIQUITOS,
NÃO VALE A PENA CHORAR
A VELHICE,
DESEJA-VOS BOA SORTE,
ATÉ A COMISSÃO ACABAR."

A azáfama da chegada foi grande, dando origem a um forte aglomerado de viaturas que podiam chamar a atenção do IN, mas a "velhice" estava ciente dos perigos e tinha montado um esquema reactivo em conformidade.

O encontro das duas companhias teve início, já dentro do aquartelamento e num terreno preparado para o efeito.

Os camiões parquearam no campo de futebol (bem de frente para a zona de onde o IN mais vezes lançava as suas flagelações sobre o quartel. Era mesmo para testar ou brincar com o fogo. Se os gajos têm escolhido aquele momento para um ataque, teria sido a real confusão!Eh!Eh!Eh!).

Os elementos da CCAÇ3491 começam a saltar das viaturas e há uma primeira confraternização com os elementos da CCAÇ2700.Essa confraternização iria estender-se por mais 45 dias.
O Blogue dos nossos velhinhos da CCAÇ 2700, editou diversas fotos referentes à nossa chegada ao Dulombi, em 24 de Janeiro de 1972, fotos de um momento histórico para as duas companhias: para a 27$00 (como também eram conhecidos), era sentirem que estava próximo o momento do regresso, para nós, infelizmente, seria o início de uma "aventura", que se iria prolongar por 27 meses e meio em terras da Guiné(É MUITO...!, como dizia o nosso lema).
Para os elementos da nossa companhia, os primeiros contactos com os “velhinhos” foram de certo espanto. Aquela malta de camuflados gastos, apresentando uma cor de pele tipo amarelada, muito longe do “bronze” que aquele calor podia proporcionar (pensávamos nós), a maioria bastante magra (e não era de certeza de fazerem muito ginásio), punha a nossa imaginação a trabalhar: “O que é que nos vai acontecer? Também vamos ficar assim? Vamos ter este aspecto, de meio loucos?”. As primeiras impressões que eles nos causaram foram, terríveis.
As fotos são do Ricardo Lemos e foram-nos gentilmente cedidas para publicação pelo editor do Blogue, Fernando Barata. A ambos, fica aqui lavrado, o nosso agradecimento.
Existem no blogue: http://dulombi.blogspot.com, mais fotos da autoria também do Ricardo Lemos que merecem ser visionadas, porque são fotos excelentes da chegada da 27$00 a Bissau e a sua ida em coluna militar para o Cumeré.

Uma equipa da Radio Televisão do Dulombi estava a postos para proporcionar ao vivo e a cores a chegada dos desgraçados que vinham substituir os "Antes Quebrar que Torcer".

A Chegada dos "periquitos" foi preparada com muito cuidado pelos "velhinhos". Aqui a preocupação da malta da "Ferrugem" nuns versos exibidos numa placa em chapa;
"Ó PIRIQUITOS,
NÃO VALE A PENA CHORAR
A VELHICE,
DESEJA-VOS BOA SORTE,
ATÉ A COMISSÃO ACABAR."

A azáfama da chegada foi grande, dando origem a um forte aglomerado de viaturas que podiam chamar a atenção do IN, mas a "velhice" estava ciente dos perigos e tinha montado um esquema reactivo em conformidade.

O encontro das duas companhias teve início, já dentro do aquartelamento e num terreno preparado para o efeito.

Os camiões parquearam no campo de futebol (bem de frente para a zona de onde o IN mais vezes lançava as suas flagelações sobre o quartel. Era mesmo para testar ou brincar com o fogo. Se os gajos têm escolhido aquele momento para um ataque, teria sido a real confusão!Eh!Eh!Eh!).

Os elementos da CCAÇ3491 começam a saltar das viaturas e há uma primeira confraternização com os elementos da CCAÇ2700.Essa confraternização iria estender-se por mais 45 dias.
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