quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Armamento e Equipamento das Forças Armadas Portuguesas e dos Guerrilheiros do PAIGC- GUINÉ 1971-1974


IIª PARTE

1. ARMAMENTO MÉDIO E PESADO

1.1. AS METRALHADORAS PESADAS


1.1.1 AS FORÇAS PORTUGUESAS:

Na década de 1860 e durante a Guerra Civil Americana surgiram em combate as primeiras metralhadoras, devido ao trabalho do norte-americano Richard Gatling (embora fosse licenciado em medicina, ele preferiu continuar a sua actividade de inventor, em vez de exercer a profissão de médico). A sua Gatling patenteada em 1862 (cujo modelo terá tido origem no desenho da “mitrailleuse” do exército belga), perdurou durante muitos anos no exército dos EUA, tendo sido considerada obsoleta em 1911. No entanto, não se tratava de uma arma automática, porque o seu sistema operativo era manual, com recurso ao uso de diversos canos, dispostos circularmente. Mais tarde, o conceito da Gatling veio a ser retomado nos anos 40/50, devido à necessidade de se obter maiores cadências de fogo, em especial nas aeronaves, com posterior recurso a motores eléctricos para circular rapidamente os diversos canos. De facto, uma arma de um só cano que tivesse uma cadência de 500/600 tiros por minuto (tpm) já era bastante razoável, mas a Gatling já podia fazê-lo com a mesma capacidade, mas com diversos canos (por exemplo 6x500 tpm). Com a utilização moderna e com recurso a calibres que podem variar entre o 5,56 mm e o 37mm essa capacidade aumentou grandemente. O canhão M61-Vulcan, de 20mm, de 6 canos, da General Dynamics, é capaz de lançar 6 000 projécteis por minuto. É também conhecido o canhão GAU-8 Avenger, no calibre 30mm, de 7 canos, colocado em aviões de ataque ao solo (A-10 Thunderbolt II – “Warthog”), utilizado para destruir carros de combate. O Gatling foi também uma referência na Guerra do Vietname, colocado em helicópteros, usando fitas de 4 000 cartuchos e também com a capacidade de disparar 6 000 tpm (Minigun M134, no calibre 7,62mm).

Napoleão III seguiu com interesse o progresso da arma Gatling, tendo mandado desenvolver em França uma metralhadora capaz de efectuar disparos múltiplos. Surgem, assim, as metralhadoras Reffye (com 25 canos de 13mm cada) e a Christophe-Montigny (com 19, 31 ou 37 canos).

Portugal, possivelmente depois de 1872, adquiriu algumas metralhadoras Montigny (há um modelo de 37 canos no Museu da Academia Militar - a Armada recebeu um modelo de 31 canos). De notar que o conjunto da metralhadora, reparo de rodas e duas caixas de munições pesavam pouco mais de uma tonelada (!). A arma, com pessoal bem treinado era capaz de efectuar entre 220 a 250 tpm. Enquanto a repetição do disparo, no caso da Gatling, se fazia através de um movimento manual de uma manivela ou alavanca, fazendo girar os canos envolta de um feixe central, conseguindo que os mesmos procedessem às diversas operações de extracção, introdução e percussão, outras, como no caso da Montigny, o efeito era o mesmo mas através de um feixe de canos fixos, sendo o disparo obtido por uma alavanca e no caso da Nordendelt (inventada em 1873, pelo engenheiro sueco Helge Palmcrantz), com recurso a canos dispostos em paralelo, o disparo dava-se, também, por efeito de uma alavanca, sendo que os cartuchos percutidos caíam pela força da gravidade (mais tarde a metralhadora ligeira dinamarquesa Madsen, usada no nosso país pelas unidades de cavalaria, iria adoptar um sistema semelhante na extracção das cápsulas detonadas). Portugal adquire as metralhadoras Nordenfeldt, no calibre 25mm, em 1880, que foram aplicadas na corveta-couraçado Vasco da Gama, servindo como defesa contra torpedeiros.

Com o início das Campanhas de África de Pacificação na década de 1890, a Nordenfeldt, alterada muitas vezes para os calibres das espingardas (11mm, depois 8mm e mais tarde 6,5mm), foi usada quer por forças da marinha de guerra, quer pelo exército, conjuntamente com a Gardner e a Gatling (normalmente utilizadas pela Armada).

No período de renovação militar do tempo do final do reinado de D. Carlos, a metralhadora Vickers-Maxim é a seleccionada para o Exército Português. A Maxim é já uma arma revolucionária, porque é a primeira metralhadora automática, de um só cano, com apenas 20 kg e capaz de disparar 600 tpm. O seu inventor foi o norte-americano Hiram Maxim, que conseguiu tornar obsoletas as metralhadoras então existentes, com o seu modelo, introduzido em 1884. A arma que veio para Portugal tomou o nome da Maxim m/906, no calibre 6,5mm e foi construída na Inglaterra, depois de Maxim se ter unido à fábrica inglesa Vickers.

Com a entrada de Portugal no primeiro conflito mundial a Inglaterra fornece a metralhadora Vickers à Força Expedicionária (1917), no calibre 7,7mm (m/917) ficando a Maxim na metrópole e sendo também enviada nas expedições que partem para África. Após a Iª Guerra Mundial a Vickers irá substituindo, definitivamente, a Maxim. A Vickers foi evoluindo os seus modelos e Portugal foi acompanhando esta evolução adquirindo os modelos melhorados (m/930, no calibre 7,7mm, m/937, no calibre 7,7mm e m/939, já no calibre 7,9mm). A partir de finais dos anos 30 inicia-se um processo de renovação para adquirir outra metralhadora pesada, mas a Vickers irá perdurar, especialmente em África, onde ainda será usada no início da Guerra Colonial.

Em finais dos anos 30, a partir do modelo da metralhadora pesada Breda de 13,2mm, esta fábrica italiana desenvolve um modelo que disparava o cartucho 8mm Breda para consumo interno e outro que disparava o cartucho 7,9mm para exportação. Em 1938, o nosso país decide-se pela compra desta metralhadora pesada, com tripé, a fim de completar as armas que usavam o cartucho 7,9mm mauser (ou 7,92mm), como a metralhadora ligeira Dreyse e espingarda Mauser.


Metralhadora pesada Breda m/938

Características desta arma

ORIGEM: Itália

CALIBRE: 7,92 mm

DATA DE FABRICO INICIAL: 1937

ESTRIAS: 4 no sentido dextrorsum

COMPRIMENTO: 1, 270m

VELOCIDADE INICIAL À BOCA DO CANO: 776 m/s

APARELHO DE PONTARIA: Linha de mira lateral, de alça rectilínea com cursor e

ranhura em “V”, graduada dos 3 aos 30 hectómetros. Ponto de mira de secção

trapezoidal

ALCANCE MÁXIMO: 4000 m

ALCANCE ÚTIL: 3000m

ALCANCE EFICAZ: 3500m

PESO: 11, 30 kg

ALIMENTAÇÃO: Lâmina/Pente com 20 alvéolos

CADÊNCIA DE TIRO: 240 tpm (c/12 lâminas), mas podendo chegar a 400 tpm

MUNIÇÃO: 7, 92 mm Mauser, de percussão central

SEGURANÇA: Imobilização do gatilho

FUNCIONAMENTO: Arma automática, de tiro automático, com tomada de gases

num ponto do cano e com regulador de tomada de gases.


No final da Iª Guerra Mundial (1918), John Browning, de origem norte americana, um dos mais famosos e produtivos inventores de armas de fogo, desenvolve, a partir do modelo da sua metralhadora ligeira M1917, que tinha o calibre .30-06, uma metralhadora para o poderoso calibre .50 BMG (12,7mm), que será conhecida pelo alcunha de “La Deuce” ou “Fifty-cal”. A arma foi usada em veículos, aeronaves, navios, desde 1923 e tomou em 1933 a designação actual de Browning M2HB, depois de ter passado da inicial refrigeração a água, para refrigeração a ar e ter sido redesenhada por Samuel Green. Com exclusão da pistola Browning M1911A1, no calibre .45, a metralhadora Browning é a arma que mais tempo se tem mantido ao serviço das forças armadas americanas. A Browning 12,7mm entrou na maior parte dos conflitos do século XX e XXI, como a IIª Guerra Mundial, a Guerra da Coreia, a Guerra da Indochina, a Crise do Canal do Suez, a Guerra do Vietname, a Guerra do Cambodja, o Conflito das Ilhas Falkland, A Invasão do Panamá, a Guerra do Golfo, a Guerra Civil da Somália, a Guerra do Iraque e a Guerra do Afeganistão.

A chegada da Browning M2 ao nosso país dá-se depois da nossa entrada na NATO e da assinatura do Acordo de Defesa de 1951. Dado ter-se tratado da primeira arma que possuíamos neste calibre, implicou a revisão da tipologia de atribuição às armas. Por exemplo, a Breda passou a ser vista como metralhadora ligeira. A arma foi recebida em múltiplas variantes (fixas, em tripé, em reparos AA, em veículos, em aviões e em reparos quádruplos) e tomou a designação de, metralhadora pesada 12,7mm m/955 Browning M2. Mais de 50 anos depois de a termos recebido a M2 é ainda a metralhadora pesada padrão das nossas forças armadas.





Metralhadora pesada Browning M2HB m/955

Características desta arma

TIPO: Metralhadora pesada

PAÍS DE ORIGEM: EUA

CALIBRE: 12,7mm Browning

DATA DE FABRICO INICIAL: 1921

NÚMERO DE ESTRIAS: 8

ALCANCE MÁXIMO: 6 750 m

ALCANCE PRÁTICO EM TIRO TERRESTRE: 2 380 m

ALCANCE PRÁTICO EM TIRO ANTI-AÉREO: 700 m

COMPRIMENTO DA ARMA: 1, 650m

COMPRIMENTO DO CANO: 1, 140 m

PESO: 38, 1 Kg

VELOCIDADE INICIAL DO PROJÉCTIL À BOCA DO CANO: 893 mps

ENERGIA DO PROJÉCTIL: Cerca de 17000 joules

MUNIÇÃO: 12,7x99mm Winchester

CADÊNCIA DE TIRO: 400 a 600 tpm

ALIMENTAÇÃO: Fita de elos desintegráveis com capacidade variada

SEGURANÇA: Os modelos antigos não possuem, mas o ainda actual M2E2 tem junto ao gatilho um fecho manual de segurança.

FUNCIONAMENTO: Arma de tiro semi e automático com curto recuo do cano, disparando no sistema de culatra fechada.




A metralhadora pesada Browning M2HB, colocada em reparo duplo, num navio de guerra.

Em algumas unidades de cavalaria, em especial as que tinham blindados de origem inglesa existiu ainda a metralhadora média BESA, fabricada naquele país (baseada no modelo checoslovaco ZB-53, de 1936, desenhada por Vaclav Holek), no calibre 7, 9mm.

1.1.2. AS FORÇAS DO PAIGC

As forças de guerrilha do PAIGC estavam bem equipadas no que concerne a metralhadoras pesadas, especialmente fornecidas pela antiga URSS e países satélites; as Goryunov SG-43 e SGM, no calibre 7,62x54mm R, que foram construídas durante a IIª Guerra Mundial e que se mantiveram ao serviço dos russos até aos anos 60, as Degtyarev DShK, no calibre 12,7mm, de 1938, reformuladas em 1946 (DShKM – m/38-46) e, especialmente, as Vladimirov KPV, no calibre 14,5mm, que entraram ao serviço da URSS em 1949.




Metralhadora Pesada Goryunov SG-43

Características desta arma

ORIGEM: URSS

CALIBRE: 7,62mm R

DATA DE FABRICO INICIAL: 1942

ESTRIAS:

COMPRIMENTO: 1, 15m

VELOCIDADE INICIAL À BOCA DO CANO: 800 m/s

ALCANCE:

PESO: 13,8 Kg, 41 Kg com reparo de rodas

ALIMENTAÇÃO: Fitas de 200 OU 250

CADÊNCIA DE TIRO: 500 a 700 tpm

MUNIÇÃO: 7,62X54mmR

SEGURANÇA:

FUNCIONAMENTO: Arma automática, a funcionar por gases.





Metralhadora pesada Degtyarev DShK

Características desta arma

ORIGEM: URSS

CALIBRE: 12,7mm

DATA DE FABRICO INICIAL: 1938

ESTRIAS:

COMPRIMENTO: 1,625 m

VELOCIDADE INICIAL À BOCA DO CANO: 860 m/s

ALCANCE PRÁTICO EM TIRO TERRESTRE: 2000m

ALCANCE PRÁTICO EM TIRO ANTI-AÉREO: 1000m

PESO: 35,5 Kg

ALIMENTAÇÃO: FITAS DE 250

CADÊNCIA DE TIRO: 540 a 600 tpm

MUNIÇÃO: 12,7X108 mm

SEGURANÇA:

FUNCIONAMENTO: Arma automática, a funcionar por gases.



Metralhadora pesada Vladimirov KPV

Características desta arma

ORIGEM: URSS (Krupnokaliberniy Pulemyout Vladimirova)

CALIBRE: 14,5mm

DATA DE FABRICO INICIAL: 1944 (protótipos). Entrada ao serviço do Exército em 1949

ESTRIAS:

COMPRIMENTO: 2m

VELOCIDADE INICIAL À BOCA DO CANO: 990 m/s

ENERGIA DO PROJÉCTIL: Entre 30 a 32000 joules

ALCANCE PRÁTICO EM TIRO TERRESTRE: 1100m

PESO: 49,1 Kg

ALIMENTAÇÃO: Fitas 100

CADÊNCIA DE TIRO: 600 tpm

MUNIÇÃO: 14,5X115 mm

SEGURANÇA:

FUNCIONAMENTO: Arma automática, de curto recuo do cano, com tomada de gases num ponto do cano e arrefecimento a ar.

Metralhadoras Vladimirov KPV, constituídas em quadrupla (bateria anti-aérea – ZPU-4)


1.1.3. OBSERVAÇÕES

A Breda era uma arma que necessitava de rigorosa limpeza sempre que era disparada, em especial na zona de tomada de gases e também de cuidados com os seus pentes/lâminas de 20 cartuchos, que serviam para alimentar a arma, pois qualquer amolgadela ou deformação, mesmo que ligeira, poderia causar interrupções no tiro. As lâminas transportadoras dos cartuchos podiam ser ligadas umas às outras, havendo a curiosidade de não ejectarem os invólucros detonados que eram cuidadosamente repostos na lâmina (uma preciosidade limpa e muito ecológica!). Cada metralhadora vinha acompanhada de uma máquina de carregar as lâminas.

A Breda foi usada amplamente nas ex-colónias e ainda viu o início da guerra colonial, vindo a ser substituída por outras de munição NATO, a partir de 1963.

Na Guiné, embora a Breda possa ter sido utilizada anteriormente em viaturas (semi-blindadas ou não), a sua melhor utilização terá sido na defesa dos aquartelamentos. Nos anos a que me reporto (1971-74), existiam ainda metralhadoras Breda em alguns aquartelamentos, contribuindo para a sua defesa imediata.

A metralhadora Browning M2HB (.50 – cartucho de 12,7mm desenvolvido pela fábrica Winchester), é uma das mais fantásticas armas de guerra fabricadas até hoje. Foi criada por John Moses Browning (um dos mais produtivos inventores de armamento de sempre) e, juntamente com a Kalashnikov, são consideradas das armas mais difundidas mundialmente. A Browning pode ser utilizada como arma anti-aérea, terrestre e também naval, em tiro directo ou indirecto. Pode usar munições perfurantes, explosivas, tracejantes, incendiárias e perfurante anti-tanque. Pode ser colocada em reparos e posições apropriadas para aviões, viaturas blindadas ou não e em diverso tipo de barcos/navios, etc.

Com larga utilização na IIª Guerra Mundial, a Browning M2HB, foi sendo actualizada e entrou em todas as guerras em que os EUA estiveram envolvidos, nomeadamente na Guerra da Coreia, do Vietname, do Camboja, das intervenções no Panamá e na Somália, nas Guerras do Golfo, do Afeganistão e do Iraque. Terão sido produzidas mais de 3 milhões desta fantástica arma.

Muito provavelmente a partir de 2011 uma nova metralhadora, a GD-LW50MG, com o peso de 18 kg (+ 10 kg com tripé), fabricada pela firma norte-americana General Dynamics será introduzida nas forças armadas americanas, para substituir as Browning.

A Browning foi utilizada na Guiné em posições de defesa de aquartelamento, em veículos semi-blindados, nas lanchas e nos aviões F-86 Sabre, que estiveram presentes no início do conflito, tendo sido retirados por pressão dos EUA, por serem considerados material NATO (os Harvard T-6 no teatro da Guiné e no tempo em referência, usavam foguetes de 37mm ou serviam de bombardeiros de ataque ao solo, lançando bombas de 2x50Kg ou 6x15Kg. Em outros teatros operacionais (Angola e Moçambique) operavam também com metralhadoras Browning M30, no calibre 7,62mm e em outros países utilizavam Brownings calibre 12,7mm – esta preciosa informação foi-nos prestada pelo camarada Miguel Pessoa).

Em meados 1973, o meu Grupo de Combate (IIº GC da CCAÇ3491) esteve colocado de reforço ao Batalhão de Piche onde, entre outras actividades, participávamos na escolta e protecção aos trabalhos da TECNIL, na estrada entre Piche e Buruntuma. Nessas acções éramos acompanhados por elementos do Esquadrão de Reconhecimento de Cavalaria, com viaturas “Chaimite” e “White” e, nestas últimas, estava montada uma metralhadora Browning 12,7mm em cada uma delas, para além de HK´s-21, morteiro 60mm e dilagramas, se bem me lembro. Operacionalmente pudemos apreciar a forma de trabalhar desta arma, quando numa emboscada do IN a uma coluna, ouvimos o seu cantar, enquanto as viaturas do esquadrão percorriam a área sob fogo do IN, ripostando com eficácia. Num dos locais alvejados pela Browning, estaria um elemento do PAIGC, o qual ao sentir que poderia ser atingido, largou as calças, para se desembaçar das ramagens que, possivelmente, o prendiam e o não deixavam fugir mais depressa. Na brincadeira, nós pensávamos, o que é que terão dito os outros guerrilheiros ao verem chegar o seu “camarada” sem as calças, em pelota. O barulho da arma era impressionante e galvanizava o nosso lado.

As metralhadoras pesadas do PAIGC foram mais utilizadas como armas anti-aéreas, mas também em defesa directa das suas bases e, nalguns casos, em ataques e flagelações aos nossos aquartelamentos. Numa das operações que realizámos, já não me lembro se na área de Piche, se na de Nova Lamego encontrámos uma munição nova de 14,5mm, num dos trilhos, sinal de que, pelo menos, o IN teria transportado uma arma desse calibre por aquela zona.

Das metralhadoras pesadas existentes a Vladimirov KPV, no calibre 14,5mm, era a mais famosa, em especial quando, constituída em posições duplas ou quadruplas [existiam as ZPU-1 (1 cano), ZPU-2 (2 canos) e ZPU-4 (4 canos)], atiravam contra os nossos aviões. Primeiramente foi construída como arma de infantaria, mas a partir dos anos 60 passou a ser utilizada como arma anti-aérea e, na versão KPVT (Tankoviy), como arma dos blindados BTR-60 e BTR-70 e dos BRDM. Foi também utilizada em navios de patrulha e reconhecimento da marinha de guerra russa.

Recentemente a China melhorou a munição 14,5mm (núcleo em tungsténio), dando-lhe uma velocidade de saída entre os 1000 /1030 metros por segundo e com uma energia de 32000 joules (o dobro do calibre 12,7mm), capaz de perfurar uma chapa de 32cm de aço a uma distância de 500m e uma de 20 cm a uma distância de 1000m.

Estrada Piche - Buruntuma – 1“Chaimite” e 2 “Whites” do Esq. Rec. de Cavalaria, estacionado em Bafatá e em Piche-1973.


Nota do autor: Na recolha para este trabalho foram coligidos elementos, material e fotos, com a devida vénia, da Wikipédia/Internet; How stuff Works.com; Infantry Weapons of the World, da Brassens, Editor J.L.H. Owen; Guerra Colonial, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, Edição Diário de Notícias; Modern Firearms & Ammunition Encyclopedie; Armamento do Exército Português, Vol. I – Armamento Ligeiro, de António José Telo e Mário Álvares, da Prefácio; Armas de Fogo, seus Componentes, Capacidades e o seu Uso pelas Forças Policiais, de Luís Dias (PJ - Maio de 2004) e apontamentos e fotos diversas do próprio autor



quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O EMBARQUE PARA A GUINÉ DO BCAÇ3872, EM 18 DE DEZEMBRO DE 1971


Imagens do navio "Angra do Heroísmo" atracado no Cais de Alcântara, em Lisboa, no dia do embarque do BCAÇ3872, com destino à Guiné (18de Dezembro de 1971).

A primeira foto é do camarada Juvenal Amado (que publicamos com a devida vénia) e a segunda é do editor.

Caros Camaradas

O camarada Juvenal Amado (ex-1º Cabo condutor auto da nossa CCS) descobriu imagens do embarque do nosso batalhão (BCAÇ3872) para a Guiné (navio Angra do Heroísmo), já nos idos de 1971, em 18 de Dezembro, no Cais de Alcântara, em Lisboa e alertou-nos para esse facto. Quem puder que se delicie com as poucas imagens existentes, mas um importante documento da nossa partida para aquelas quentes terras. As imagens foram colhidas pelo camarada Carlos Filipe (Trms da CCS).
Junta-se a mensagem dirigida por aquele nosso camarada ao Blogue do Luís Graça & Camaradas da Guiné, com a devida vénia.

Caro Carlos, Luís,Virgínio, Magalhães e restante Tabanca Grande

Embora seja altura de banhos o blogue não tem direito a isso como tenho reparado.
Sendo assim e na sequência de correio trocado com a Fátima Amado, filha do nosso camarada João Amado, falecido em Cancolim, passo a enviar foto do seu pai retirada do seu cartão de identidade, uma vez que na idade militar não conseguiu a nossa nova tertuliana encontrar mais nenhuma.
Também aproveito para enviar um pequeno filme do nosso embarque no Angra de Heroísmo, em 18 de Dezembro de 1971.
São imagens ondes e vêm camaradas de várias companhias, mas os que estão a dançar são da 3489 de Cancolim.
O barco ainda estava preso ao cais (atracado).
São imagens da Cinemateca exibidas na Exposição "O Povo", no Museu da Electricidade, em Lisboa, da qual envio uma brochura.
A Exposição é muito interessante pois revive a nossa história desde o início do Século XX. Quem estiver perto não a perca. A malta do norte devia reinvidicar a exposição pelo menos para o Porto e porque não, dada a sua importância, deveria ser itinerante pelo menos pelas capitais de distrito.
Resta-me acrescentar que foi o nosso camarada Carlos Filipe que as captou a meu pedido.
Um abraço para todos
Juvenal Amado






domingo, 27 de junho de 2010

NOTAS SOBRE A PISTA DE AVIAÇÃO DO DULOMBI, DA AUTORIA DE MIGUEL PESSOA, EX-TENENTE AVIADOR DA BA 12-BISSAU

Vista aérea do Aquartelamento do Dulombi, em 1972, vendo-se ao cimo à esquerda o Heliporto e ainda sem a pista para Do-27.
Caros Camaradas
Junto anexo um post lançado no blogue do Luís Graça & Camaradas da Guiné, em 18 de Junho, sobre a nossa pista para aviões DO-27, do Dulombi (com a devida vénia), bem como comentários do Luís Dias e do Fernando Barata (ex-Alf da CCAÇ2700 - os nossos "velhinhos").


"Lembro-me que nas operações do Grupo Operacional 1201, na BA12, havia um arquiuvador muito prático onde estavam registados dados de todas as pistas existentes no território e que, para além das caracterísiticas específicas de cada uma (comprimento, largura, orientação, condições de utilização, limitações, etc.), incluía fotografias de cada pista, algumas dels tiradas à vertica das mesmas.

Estes dados eram muito importantes para o aviador, principalmente no início da comissão, quando ainda não tinha grande con hecimento do terreno. O número elevado de pistas existentes (cerca de sessenta), a falta de visibilidade horizontal durante uma época do ano e o facto de as pistas por vezes se sucederem num espaço de terreno relativamente curto podiam induzir em erro os menos experientes.Ninguém gosta de aterrar num determinado sítio e descobrir que o que queria é mais ao lado, principalmente quando a pista é afastada do aquartelamento e afinal não há qualquer segurança montada no local.

Por isso era habitual passarmos pelas Operações para visualizar os sítios onde íamos pela primeira vez. Daí ser natural já ter por vezes um conhecimento virtual de determinada pista mesmo antes de lá ter ido - uma espécis de flight simulator da época.

Uma vez recebi um incumbência curiosa; tratava-se de ir abrir ao tráfego aéreo uma pista (Dulombi, senão me falha a memória), isto é comprovar que aquela pista estava em condições de ser utilizada pelos nossos DO-27. Fiquei curioso com esta missão, mas uma visão das fotos da pista rapidamente me elucidou. -na tal fotografia feita à vertical da pista pude verificar que, ao contrário do que sucedia com outros aeródromos, em que a placa a placa de helicópteros surgia, normalmente, ao lado da pista, a uma distância de segurança (1), aqui essa placa surgia cravada no meio da pista, dividindo-a em duas partes mais ou menos iguais, uma para cada lado.

É natural que, tratando-se de duas construções de diferente tipo, uma em cimento e outra em terra batida, a sua utilização intensa (o que não seria no entanto o caso) e principalmente os efeitos da natureza podiam levar à degradação das duas junções e criar um degrau fatal para qualquer avião que ali tentasse aterrar. Assim, durante a época das chuvas, as águas que corriam ao lado da placa de helicópteros arrastavam as terras adjacentes deixando a placa saliente e impedindo a utilização da pista, dado que qualquer das tiras remanescentes (uma para cada lado, recorda-se) eram insuficientes para o DO operar.

Portanto, todos os anos, depois das chuvas terminarem, havia que proceder à recuperação da pista nas zonas adjacentes à placa, de modo a permitir a passagem dos aviões por cima desta sem sobressaltos.

A minha missão não teve problemas de maior, dado que as terras haviam sido repostas e a pista podia ser utilizada em segurança. Mas sempre me interrogava porque havia sido tomada esta opção (falta de espaço para a placa noutro local?) que tornava sazonal o uso daquela pista. É que, sabendo-se das dificuldades sentidas pelos nossos militares nas zonas mais isoladas, a pista de aterragem era sempre uma mais-valia que podia reduzir um pouco esse isolamento e limitar as carências daí resultantes.

NOTA (1): Tratando-se de uma construção em cimento, muitas vezes saliente do chão cerca de um palmo, podia ser um obstáculo intransponível se se perdesse o controlo do avião e ele embicasse na direcção da placa (normalmente por causa dos ventos, pontualmente também me chegaram a aparecer à frente vacas e cães, durante a aterragem....). Pelo menos lembro-me de um DO-27 imobilizado sobre os dois cotos que tinham sido oso trem de aterragem, no meio de uma placa de helicópteros, devida à perda do controlo do avião durante a descolagem. Já não cheguei a ver lá o avião, mas as marcas deixadas pelos cotos eram ainda bem visíveis.

Um abraço
Miguel Pessoa
Ten Pilav da BA12

Caro Miguel Pessoa

Já não me recordo porque a pista estava do Dulombi estava colocada como tu referes, ms posso acrescentar que a pista foi feita pela minha companhia e que o heliporto já ali estava, porque foi contruído pela CCAÇ2700, nossa antecessora. Devo acrescentar que sempre ali pousaram DO-27, mas com as chuvas ficava impraticável, tendo de ser reparada com frequência. Tinha até garrafas de cerveja enterradas (contendo gasolina ou petróleo?) para iluminar a pista durante a noite em caso de qualquer emergência. Vou contactar o ex-capitão Pires para ver se ele se lembra da construção da pista e depois informo-te do que apurar.

Um abraço do tamanho do Rio Corubalo
Luís Dias
Ex-Alf. Mil da CCAÇ3491
Guiné 71-74 (21/6/2010)

Caro Miguel Pessoa

Conforme referi no comentário anterior, contactei o ex-Capitão Fernando Pires, cmdt da CCAÇ3491, instalada no Dulombi entre Janeiro de 1972 e Março de 1973 (a companhia foi para Galomaro - sede do Batalhão e regressámos novamente ao Dulombi em Janeiro de 1974, para preparar a recepção aos piras, embora semanalmente ali continuassemos a efectuar operações e colunas e onde tinham ficado 13 homens e 2 pelotões de milícias, comandados por um Furriel) e tendo-o questionado sobre o problema da pista para DO-27 que tu referes, ele disse-me que dado o tempo decorrido já não se recorda dos pormenores da construção da mesma.

O que te posso dizer mais é que o lado da pista era um dos melhores protegidos do aquartelamento (2 morteiros 81mm e vários 60 mm tinham os espaldares desse lado), sendo também o lado da saída da picada para Galomaro.

Um abraço do tamanho do Rio Corubalo

Luís Dias (23/6/2010)

Olá Luís

Certamente terás visto no blogue do Luís Graça um post colocado pelo Miguel Pessoa, em que este se referia à pista do Dulombi.

Relatava que após um período em que a nossa pista esteve inoperacional incumbiu-lhe a ele fazer o voo de teste à mesma.

Ora acontece que durante o nosso "reinado" a pista foi fechada, presumo após um pilto se ter queixado que a mesma tinha certas irregulariedades, sendo preconizado como solução a construção de uma caixa de gravilha com determinada altura o que seria, como deves imaginar, uma tarefa ciclópica atendendo aos meios que possuíamos. Assim, o nosso capitão abandonou liminarmente a ideia de recuperação, com muita pena minha pois volta e meia recebíamos alguns voos que nos traziam o correio e alguns frescos.

Como te referi o Miguel Pessoa foi ao Dulombi para aprovar a pista. A minha pergunta é: Foram vocês que fizeram todos os trabalhos necessários (a tal caixa de gravilha) de molde a tornar a pista operacional?

Abraço
Barata

Caro Barata

Como acima refiro o Ex-Capitão Pires não se recorda dos pormenores da construção da pista e eu sinceramente também não sei se foi efectuada ou não a tal caixa de gravilha, mas julgo que não (?). O que acontecia é que arranjávamos continuamente a pista no tempo das chuvas para que ela pudesse estar operacional. Vivemos uns tempos conturbados em matéria de abastecimentos de frescos, com as primeiras chuvas e com as dificuldades de efectuar colunas a Galomaro/Bafatá/Bambadinca para reabastecimento e com os problemas com a pista. Segundo penso, chegámos a receber material lançado em voo baixo, de páraquedas.

Como tu dizes a pista era um meio importante de reabastecimento e para receber o correio e nós enquanto pudemos aproveitámos. Muitas das vezes era também o helio que nos trazia o correio.

Um abraço
Luís Dias



terça-feira, 1 de junho de 2010

A (IM)PREPARAÇÃO DOS NOSSO OFICIAIS MILICIANOS PARA A GUERRA COLONIAL

Caros Camaradas


O blogue do Luís Graça & camaradas da Guiné publicou no dia 1 de Junho, um comentário do editor deste blogue, ao Post 6488, do camarada Mário Pinto, sobre a preparação dos oficiais milicianos para a Guerra Colonial, conforme segue:


Guiné:Zona Leste - Gallomaro/Dulombi -C.Caç 3491 (1971-1974). O Alf.Milº Luís Dias empunhando a famosa AK-47 (ou Kalash).

Foto:Cortesia de Luís Dias (2010). Fonte:Blogue Histórias da Guiné 71-74- A CCAÇ 3491-Dulombi.

Comentário do Luís Dias ao Poste P6488:

Caro Mário Pinto

Ainda tenho os célebres manuais militares que nos eram fornecidos para estudo: Manual do Oficial Miliciano - Parte Geral, 1º e 2º Volumes e o famoso Operações Contra Bandos Armados e Guerrilhas.

No entanto e de facto o que nos acontecia era um aprender rapidamente que tudo aquilo que nos ensinavam, com certeza de boa fé, não servia no teatro de guerra em que nos envolveram.

No primeiro contacto com o IN, em que que 2 GR.COMB da minha companhia, por mim comandados, se viram debaixo de um fogo intenso, ao cair da noite, no dia a seguir à partida dos "velhinhos", eu vi de imediato os erros que tinha cometido, por não saber estar/abordar um zona de mato cerrado, em formação deficiente, com grandes dificuldades de ripostar com os morteiros, LGF´s e Dilagramas, numa primeira fase e que só nos correu a contento devido a uma grande dose de sorte e a um soldado africano muito experiente (ex-guerrilheiro), que conseguiu sair da zona cerrada, obter uma clareira e como o morteiro 60 colocado à barriga - parece incrível, mas foi verdade - lançou duas ou três granadas que atingiram os guerrilheiros, pondo-os em retirada. Foi ainda importante o IN ter sido detectado por dois elementos nossos, tendo um deles aberto fogo da HK-21 sobre um guerrilheiro, o que desencadeou a emboscada que estava a ser montada.

Esta primeira acção, aliada a outras que encontrei no início da comissão, levaram-me atambém a tomar outras opções tácticas, mais de acordo com o que estávamos a enfrentar no terreno.

No armamento também deixámos a bazuca em casa, só a levando em colunas (também chegámos a usar um RPG2 apreendido). Largámos as granadas defensivas, ficando unicamente com as granadas ofensivas. Aumentámos os elementos com dilagramas e também usámos 2 Hk21. em determinadas zonas mais cerradas o homem da frente levava uma caçadeira calibre 12, com zagalotes. Recorremos a armas do In para fazer fogo contra os mesmos (Kalash AK-47 e PPSH41).

É como tu dizes, tivemos de efectuar uma revolução do que aprendêramos na metrópole.

Um abraço

Luís Dias

A foto apresentada é de 1973 e para além da Kalashnikov AK-47 (ao que creio de fabrico chinês), tinha à cintura uma pistola Tula Tokarev TT-33, no calibre 7,62mm Tk, de origem soviética.

Como se lembram, nesse célebre contacto de 11 de Março de 1972, às 18h00, na Operação "Alma Forte" e junto ao rio Lemenei/Paiai Lemenei, o 2º e 3º GC, reforçados por uma Sec. do Pel.Milª. 288, tiveram alguma sorte em sair com ligeiros feridos da troca de tiros e de rebentamentos entre as nossas forças e o PAIGC. Quer a acção do soldado Manga Camará, quer do 1º Cabo Amílcar Costa, com a sua HK21 e ainda do Furriel E. Santo (fixando o fogo do IN, com os elementos da sua secção), foram fundamentais para resolver a nosso favor uma emboscada que nos poderia ter custado pesadas baixas.

Outro elemento importante era o pouco conhecimento que tínhamos do armamento IN. Neste contacto, que se deu ao cair da noite, a determinada altura eu via rebentamentos no ar, por cima de nós e pensei que seriam dilagramas nossos, atirados em desespero pelos nossos homens, perigosamente à vertical das nossas posições e fiquei arrepiado. Afinal, tratavam-se de granadas de RPG7 do IN que, como as do RPG2, rebentavam ao contacto com um alvo, mas para além disso também rebentavam por tempo, ou seja ao fim de alguns segundos sem adquirirem um alvo concreto, o que eu desconhecia.

Como todos sabemos à medida que o tempo decorria íamos aprendendo quer através dos ensinamentos colhidos por nós nas nossas andanças pelo mato, bolanhas e picadas, quer através de elementos colhidos da experiência de outros camaradas, noutras companhias e em outras zonas e ainda de alguma literatura sobre o seu armamento e sobre a sua forma de manobrar.

As deslocações no mato eram cuidadososas, com o mantimento das distâncias entre os elementos, variando consoante o tipo de terreno e de vegetação. Nunca ficámos instalados em círculo quando as nossas forças eram superiores a um GC (quando inferiores poderíamos adoptar a instalação em círculo). Nunca pernoitávamos junto a um rio a não ser para que o objectivo fosse efectuar uma emboscada perto do mesmo, nem em matas demasiado cerradas. Ficando instalados em linha havia que reforçar os extremos. Silêncio rádio a partir do anoitecer até ao amanhecer (só quebrado em caso de contacto com o IN). Na deslocação a sinaléctica entre nós era importante, evitando-se falar, porque podíamos ser detectados. Havia alguma liberdade no transporte das armas pessoais, porque cada um usava-a conforme lhe dava mais jeito para uma resposta efectiva em caso de contacto inopinado (Eu próprio usava a arma e a respectiva bandoleira cruzadas na frente e com um gesto rápido punha-a em posição de disparar). Em caso de acção eminente, então a arma seguia nas mãos e em posição de fogo.

Os elementos do armamento de apoio estavam bem adaptados à sua arma e tinham sempre alguém que formava com eles um binómio, uma unidade perfeita. As granadas de morteiro 60 mm eram transportadas por quase todos os elementos, com excepção dos apontadores de metralhadora ligeira, daqueles que os apoiavam e que transportavam mais fitas, do apontador de LGF e seu apoiante, dos atiradores com dilagrama, do homem do rádio e do enfermeiro. Em caso de contacto as granadas iam sendo passadas até ao apontador do morteiro. Nas colunas as granadas seguiam agrupadas, muitas das vezes, em caixas apropriadas que eram puxadas para o chão aquando de alguma emboscada, ficando junto do apontador.

A acção de picagem era uma das tarefas mais importantes que podíamos efectuar e os picadores tinham uma missão de muita importância e sempre que os meus homens me mostravam os calos que tinham nas mãos por causa daquele trabalho eu sempre lhes disse que isso tinha sido importante para o levantamento das minas que nos colocaram e deviam ficar orgulhosos do seu meticuloso trabalho. Usávamos normalmente duas fiadas de 4 homens de cada lado da estrada a picar, com recurso a espetos de ferro. Em determinada altura, como tivéssemos sido informados que o IN usava umas minas anti-carro, em que a própria acção da pica de ferro fazia accioná-la (rasgando duas placas de papel de prata e conectando-as) passámos a usar dois picadores de cada lado da estrada com picas feitas de madeira, que eram substituídas na coluna seguinte.

Nas deslocações para um objectivo por meio de viaturas, estas tinham sempre os taipais em baixo (ou eram removidos), com o pessoal sentado ao meio e virado de costas uns para os outros, de forma a poderem saltar das mesmas sem qualquer dificuldade (má experiência resultante da trágica emboscada no Quirado/Saltinho, em Abril de 1972, à CCAÇ3490 do nosso batalhão com 11 mortos-uma das piores de sempre no TOG). Quando por informações recolhidas ou por serem localizados sinais da possibilidade do IN estar no local, a deslocação era feita apeada, seguido as viaturas enquadradas, até nos certificarmos de que as coisas estavam normais. No cimo da viatura constituíamos um melhor alvo para o IN, do que num deslocação apeada.

Deslocações em viatura durante a noite eram de todo a evitar (ensinamento colhido da emboscada em Bangacia aos elementos da CCS do Batalhão que fomos render).

A defesa do aquartelamento do Dulombi estava planeada devidamente por sectores, ou seja cada oficial era responsável por uma área, contando com o apoio dos furriéis do seu GC. As armas de apoio estavam espalhadas pelo perímetro, de forma a cobrirem e a baterem todas as áreas de onde o IN nos atacasse. Os espaldares dos morteiros 81 mm possuíam indicações colocadas em pequenas estacas dos locais de onde o IN mais vezes nos atacava, de maneira a rapidamente alcançarem esses pontos, colocando o morteiro virado para essas indicações. Na frente de onde normalmente o IN nos atacava (também já do tempo da CCAÇ2700), a cerca de 800 m do quartel estavam colocadas minas anti-pessoais, em fileira, encimando estacas de ferro, a uma altura de um metro/metro e meio do chão, ligadas por arame de tropeçar. Existiam também dois fornilhos, nessa mesma frente, junto de baga bagas, existentes na orla da mata.