segunda-feira, 26 de abril de 2010

11º ENCONTRO DA CCAÇ3491


Ao fim de 36 anos após o nosso regresso a C. CAÇ 3491 vai realizar o seu 11º Encontro/Convívio. Para tal publicamos a carta do Camarada Joaquim Xavier, que é o organizador do evento.


Caro Amigo e Camarada de Guerra

É com enorme prazer e alegria que venho por este meio convidar-te para mais um convívio entre todos nós e não será demais relembrar que este ano comemoramos o 36º aniversário doa nossa chegada ao país, que nos viu partir para a guerra. A todos os que regressaram e que ainda se encontram entre nós faço chegar esta carta, para mais uma vez nos juntarmos e relembrar-mos juntos os nossos camaradas, os que já partiram e os que não podem estar presentes neste convívio e encontro de camaradagem. Aparece e traz um amigo ou camarada que por algum motivo não tem tido conhecimento ou participado nos nossos convívios. Este ano coube-me organizar o nosso encontro e será com muito prazer que vos receberei na minha terra. Será no dia 15 de Maio de 2010, pelas 12 horas, no RESTAURANTE RESIDENCIAL "ESTRADA REAL" - APARECIDA - LOUSADA, onde vos será servido o almoço.

O almoço será antecedido pelas entradas típicas da região, seguindo-se o BACALHAU À REAL, acompanhados pelos excelentes vinhos verdes branco e tinto, da região. Seguir-se-ão as sobremesas.

O preço a pagar será o mesmo que as edições anteriores, ou seja 30 euros por pessoa.

Resta pedir que tragas o apetite e que confirmes a tua presença até ao dia 30 de Abril de 2010, para o telemóvel: 919 587 806.

Para simplificar-vos a chegada, junta-se mapa com a localização exacta do restaurante.

Sem outro assunto, um abraço amigo,

Joaquim Xavier

(Ex-Condutor auto)

NO DIA 25 DE ABRIL - 36 ANOS APÓS A NOSSA CHEGADA

No dia em que se comemora 36 anos da Revolução do 25 de Abril, lembrei-me de colocar no blogue uns "poemas" elaborados com base na obra do nosso poeta maior, Luís de Camões e feitos em finais de 1972, inícios de 1973, no Dulombi, demonstrativos daquilo que sentíamos e do que passávamos.

Luís Dias


PERDOA-ME HOMEM GRANDE
Perdoa-me Homem Grande!
Por ter tido a prosápia
De em teus eloquentes e maravilhosos versos pegar
E num arrojo
Confuso e hilariante, modificar
com palavras erróneas e secantes
A profundidade e objectividade
Do teu esplendoroso criar
Seja no entanto sincero; que de bom
Mais não espero
Do que sentir vindo do além
Teu perdão
Perdão por esta inocente audácia
Em retractar
Em teus versos de então
O presente aqui vivido
Onde os sonhos
Imensos de realidades, mas também bisonhos,
Foram inesperadamente interrompidos
Diga-se em abono da verdade
que também eu canto uma epopeia
Porém esta mais difusa e matreira
Mas que no seu albergar
Matou; talvez sem reparar
Muita gente válida e forte
Tu cantaste os gloriosos feitos
Eu agora vejo-os desesperados
Neste lugar de aclimatado quente
Em mágoas e pranto entorpecente
Olhando a morte; veneno destas terras
Bem mais estranhas
Que nossas planícies e serras
E que num justo ódio
Simples e feroz
Pelo abandono de antigos
Pela história já idos
Se vingam em nós
Que somos restos de imagens não esquecidas
Culpas de colonialismo já sem voz
Cantaste a nobreza da causa
A pureza da fé e da confiança
A luta de descobrir
O esforço de enaltecer
Os caminhos inseguros do mar
As sereias de belos encantos
As terras e mares
Que nos foram dadas a conquistar
Eu falo da amargura, da saudade, da perdida esperança
Da sede e da fome
Dos gestos cansados,o percorrer e o obedecer
Com os olhos desenganados de perigos tantos
O nosso lamentar
Perdoa-me Homem Grande mais uma vez
Pois serei como tu
Talvez
Um pobre a morrer perdido nesta imensidão
Que poderá restar!
Se já nem os teus poemas
Alegram esta minha solidão
É este triste infortúnio
De quem no fundo
Deste ingrato e incipiente mundo
Tinha tanto para desejar
XXX
OS DULOMBIANOS
I
As cartas e os valores declarados
Que da Ocidental mata Dulombiana
Por trilhos sempre muito empoeirados
Treparam aquém da Djalon montanha
Em perigos e sacrifícios tramados
Mais do que permitia a força humana
entre gente nova levantaram
Muitas tabancas que tanto súor lhes custaram
II
E também as memórias desastrosas
Daquelas gentes que foram lutando
Pela fé, o Império e as terras fabulosas
Que do Corubalo a Padada andaram queimando
E aqueles que por fugas valorosas
Se vão da lei da tropa libertando
-Cantando aldrabarei por toda a parte
Se a tanto me expuser na comissão e arte
III
Cessem do "pézudo" e do "paradas picando"
As grossas asneiras que fizeram
Calem-se os de Bissau: ar condicionado andando
As bocas e bacoradas que deram
Que eu canto o peito ilustre Dulombiano
A quem o "turra" e a sorte obedeceram
Cesse tudo o que nesta Guiné se canta
Que o valor do Dulombi mais alto s´alevanta
x X x
GUINÉ MINHA SENIL
- x-
Guiné minha senil donde saíste
Com medo desta vida indecente
Repousa lá no inferno até sempre
Para que vivo saia eu desta chatisse
-
Se lá no momento sério para onde seguiste
Memória desta vida te atormente
Não te esqueça, esta sorte decadente
Tal qual pão duro que aqui viste
-
E se topares que pode aborrecer-te
Alguma coisa no tipo que te findou
Das mágoas de tédio de ter-te
-
Roga a Zeus, que te levou
Que tão cedo não me leve a ver-te
Fica lá na "madre que te parió"
x X x
ESTA TRISTE MALTA SEMPRE CHATEADA
-x-
Esta triste malta sempre chateada
No mato com falta de água e comodidade
Enquanto viver esta "trindade"
Isto continuará a mesma "chachada"
-
Só à granada e à rajada
Erguendo a voz das verdades
Lutando contra estas "santidades"
Se acabará com os "tachos" desta cambada
-
Gente pobre que riquezas nunca viu
Por daninhas almas sempre saqueadas
Enchendo eles os bolsos fundos como um rio
-
Por isso andamos nós aqui aos tiros e morteiradas
Rações de combate comendo dias a fio
Sem poder dar descanso às pernas mal tratadas
x X x
ESTE CALOR QUE NOS ABRASA SEM SE VER
-x-
Este calor que nos abrasa sem se ver,
Que nos corrói o corpo e a mente;
É um tratamento muito a quente;
Para quem já trabalha para aquecer
-
É o combater mais do que querer,
É o destruir desta jovem gente;
É o estagnar, afogando-nos lentamente;
É um pensar que se ganha estando a perder
-
É o querer viver sem falsidade
É servir a quem serve de dominador
É saber perdida a liberdade
-
Como continuar assim sem ardor
Nos corações humanos, a igualdade
Se tão penosa e rouca é esta dor
x X x

domingo, 11 de abril de 2010

INAUGURAÇÃO DA PLACA TOPONÍMICA DA AV. MARECHAL ANTÓNIO DE SPÍNOLA, EM LISBOA - OS MEUS CONTACTOS COM O COMANDANTE-CHEFE

Spínola na inauguração das instalações do renovado quartel do Dulombi, em Abril de 1972. Com o General está o Cap. Milº Fernando Pires, comandante da CCAÇ3491 e mais atrás o Alf. L. Dias.
O Editor (Luís Dias) junto da nova toponímia da cidade de Lisboa (Em 11 de Abril de 2010)

A chegada de Cavaco e Silva e comitiva ao local onde se iria realizar a cerimónia


A tribuna das altas individualidades, onde se encontrava o General Almeida Bruno, sentado na primeira fila, onde é o quarto a contar da esquerda e que lançou a polémica entre os combatentes das Guiné, após as suas infelizes declarações no documentário do jornalista Joaquim Furtado, sobre a guerra naquele território)

Cerimónia do descerramento da placa com o nome do Marechal António de Spínola, com o Presidente da República, o Ministro da Defesa e o Presidente da Câmara.

O descerramento da placa por Aníbal Cavaco e Silva e António Costa

António de Spínola - Presidente da República Portuguesa


Caros Camaradas

O Marechal António de Spínola, que foi o nosso Comandante-Chefe, durante a maior parte da nossa comissão na Guiné, foi hoje homenageado, dia do centenário do seu nascimento, com o descerramento de uma placa toponímica que deu nome a uma nova avenida da capital, numa cerimónia presidida pelo Presidente da República, o Professor-Doutor, Aníbal Cavaco e Silva.
A homenagem foi da iniciativa do Presidente da Câmara de Lisboa, Dr. António Costa, contando com a presença do Ex-Presidente, General Ramalho Eanes, com as Chefias Militares, da PSP e da GNR.
Discursaram o sobrinho do Marechal, o seu antigo chefe da casa civil, o Presidente da Câmara de Lisboa e o Presidente da República. Do resumo dos discursos todos destacaram a coragem, a dignidade, a sua personalidade, o seu empenho e o amor à Pátria. Afirmou o Chefe do Estado:
Como todas as grandes personalidades, António Sebastião Ribeiro de Spínola foi uma figura controversa que suscitava paixões. O seu carisma não deixava ninguém indiferente. Portugal concedeu-lhe as mais altas distinções, mas não estou certo que tenhamos sempre estado à altura do exemplo de vida que nos legou.
António Spínola nasce em Estremoz, em 11 de Abril de 1910, no ano da implantação da República. Foi aluno do Colégio Militar entre 1920 e 1928 e entra para a Escola de Guerra em 1930. Em 1939 torna-se Ajudante de Campo do Comando da Guarda Nacional Republicana. Em 1941 partiu para a frente russa como observador das movimentações do exército alemão no início do cerco a Leninegrado.
Em 1955 é nomeado administrador da Siderurgia Nacional, sem, contudo, largar a carreira militar.
Em carta dirigida pessoalmente a Salazar, em 1961, oferece-se como voluntário para combater em Angola, onde se notabilizou no comando do Batalhão 345, entre 1961 e 1963.
É nomeado Governador-militar da Guiné em 1968 e reconduzido em 1972. Obtém um grande prestígio, quer junto dos militares, quer junto das populações africanas, em especial devido à organização dos Congressos do Povo e a uma política de respeito pela individualidade das diversas etnias guineenses e à associação das autoridades tradicionais à administração. Em diplomacia, chegou a manter contactos secretos com o então presidente do Senegal, Leopoldo Senghor e a tentar que quadros do PAIGC integrassem o lado português, mas militarmente continuou a guerra com todos os meios ao seu dispor, apoiando, por exemplo, uma invasão por mar da capital da Guiné-Conakri, com opositores daquele país, apoiados por comandos e fuzileiros especiais africanos (Operação Mar Verde - 1970) e também a incursão a uma base IN no Senegal (Operação Ametista Real, em 1973), destinada a aniquilar ou desarticular as forças do PAIGC que pressionavam a zona Guidage-Bigene.
Em Maio de 1973 o PAIGC está empenhado em atacar as posições portuguesas dos três G´s; Guidaje a norte, Guileje a sul e mais tarde Gadamael, também a sul. As forças portuguesas passam por dificuldades, em virtude do surgimento dos mísseis "strella", que abatem vários aviões da nossa força aérea. Em Guidaje as forças portuguesas conseguem resistir, sofrendo dezenas de baixas, mas conseguindo estancar o avanço do PAIGC sobre aquele aquartelamento.
No entanto, em Guileje, a situação seria diferente e, por exemplo, entre os dias 18 e 21 de Maio, o aquartelamento iria sofrer 40 flagelações da artilharia dos guerrilheiros. As condições de vida no quartel deterioram-se rapidamente (cerca de 500 pessoas dentro dos abrigos, com água racionada e sem meios rádio) e, por decisão do então Major Coutinho e Lima, os portugueses retiram para Gadamael, na manhã do dia 22 de Maio, onde conseguiram chegar incólumes. O PAIGC, então, atira as suas forças contra este último aquartelamento sobrelotado, em 1 de Junho. Os ataques irão continuar e prolongar-se até finais do mês de Julho. As forças pára-quedistas foram importantes quer na defesa de Guidage (C121) e em Gadamael (C122), ajudando a manter as posições. A resistência irá custar aos portugueses 24 mortos e 150 feridos, mas o aquartelamento salva-se.
O Comandante-chefe soube resistir à ofensiva das forças do PAIGC, mas sabia que necessitava de mais reforços e de armamento mais moderno. O governo não o atendeu nas pretensões e aproveitando uma acalmia militar no território goza um período de férias na metrópole em Agosto e já não aceita ser reconduzido, não voltando mais a Bissau.
Em Novembro de 1973 não aceita um convite de Marcelo Caetano para ser Ministro do Ultramar.
Em Janeiro de 1974 é nomeado vice-chefe do Estado Maior das Forças Armadas, por sugestão do General Costa Gomes, cargo de que foi afastado em Março, após o Golpe das Caldas.
Em 22 de Fevereiro publica o livro "Portugal e o futuro", que é uma lufada de ar fresco no cinzentismo da política nacional, ali defendendo o fim da guerra colonial e a liberalização do regime.
Em 25 de Abril de 1974 e como representante do Movimento das Forças Armadas, recebeu no Largo do Carmo, Quartel General da GNR, do Presidente do Conselho, Marcello Caetano, a rendição do governo. Este acto, de certo modo, irá permitir-lhe assumir poderes públicos, apesar de não ter sido essa a intenção do movimento dos capitães.
Presidiu à Junta de Salvação Nacional (que passou a deter a condução do Estado, após a Revolução dos Cravos) e foi escolhido pelos seus camaradas para o cargo de Presidente da República, cargo que ocupará de 15 de Maio de 1974 até à sua renúncia em 30 de Setembro do mesmo ano, sendo substituído pelo General Costa Gomes.
Ligado aos acontecimentos de 11 de Março, Spínola foge para Espanha e depois para o Brasil.
Em 1987, o então Presidente da República, Mário Soares, designou-o Chanceler das Antigas Ordens Militares Portuguesas e condecorou-o com a Grã Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada (a maior insígnia militar portuguesa), pelos feitos de "heroísmo militar e cívico e por ser um símbolo da Revolução de Abril e o primeiro Presidente da República, após a ditadura".
Em 13 de Agosto de 1996, em Lisboa, Spínola morre, vítima de embolia pulmonar, aos 86 anos de idade.

O meu primeiro contacto com o então General Spínola deu-se uns dias depois da chegada do Batalhão de Caçadores 3872, à Guiné, - no qual fui incorporado para o Ultramar - na parada de recepção e apresentação de boas vindas que se realizou no Cumeré, em 26 de Dezembro de 1971, o General proferiu um discurso vivo, apelando ao nosso amor pátrio ("....que a boa estrela vos guie..!").

O segundo contacto foi ainda no início da comissão, mas já no terreno, na Operação "Trampolim Mágico", realizada entre os dias 24 e 26 de Fevereiro de 1972, em que o Comandante-chefe acompanhou as operações de desembarque do BART3873, na ponta Luís Dias - zona do Fiofioli (com o meu nome, mas não tem nada a ver comigo, é claro!), no qual estavam incluídas forças do BCAÇ3872 (o meu grupo de combate e outro da minha companhia - a CCAÇ3491 - reforçámos a CART3493 e outros grupos de combate do meu batalhão reforçaram outras companhias do BART3873). A sua presença foi causa de admiração para os "piras" que nós éramos.

Em 29 Abril de 1972, o General inaugurou as renovadas instalações da CCAÇ3491, no Dulombi, cuja construção fora, praticamente, obra dos velhinhos da CCAÇ2700, "refilando" contra os torreões que cercavam o aquartelamento e verificando o estado dos abrigos, embora evidenciando que os combatentes deviam defender o aquartelamento nas valas e não nos abrigos (por sinal das mais bem feitas da Guiné, segundo observação dos pilotos dos helicópteros que nos visitavam). Também ordenou a retirada a placa com o nome do capitão da CCAÇ2700 (a que renderamos), do heliporto porque, dizia ele; "para ali se ter o nome tinha-se que morrer primeiro na Guiné". Naturalmente o heliporto passou a ter o nome "Heliporto do Dulombi" e acabou-se a conversa.

No dia seguinte ao primeiro contacto que elementos da companhia tiveram com o IN (o 2º GC, que eu comandava, e o 3º GC, comandado pelo já falecido Alf. Farinha), na Operação "Alma Forte", em 11 de Março de 1972 (um dia depois da saída dos velhinhos) e a cerca de 18 km do nosso quartel, recebemos diversas mensagens elogiosas, entre elas do cmd-chefe REPOPER, que dizia:"Cmdt-Chefe felicita essa reacção à emboscada do IN, durante a Op Alma Forte, reveladora de determinação". Esta mensagem é demonstrativa da atenção que ele tinha para os acontecimentos militares, especialmente sensibilizando as forças acabadas de chegar, elogiando o seu comportamento no seu primeiro combate e moralizando, deste modo, as nossas forças (confesso que fomos muito felizes e que o IN terá ficado bastante surpreendido por estarmos naquela zona de acção).

Em 22 de Junho de 1972, todos os oficiais do BCAÇ 3872, deslocaram-se à sede do Batalhão, em Galomaro, para uma reunião com o General Spínola. Foi um encontro muito interessante, um diálogo bastante aberto e dinâmico, onde alguns manifestaram a sua opinião, mesmo contrária às posições oficiais e em que se chegou a falar de um levantamento militar contra o regime, referindo-se que o General Spínola, com a sua reconhecida capacidade e prestígio granjeado, poderia muito bem liderar esse movimento (julgo que estas questões lhe foram postas, se a memória não me atraiçoa, pelo médico do batalhão, Pereira Coelho e pelo Capitão Rosa da Companhia de Cancolim). Lembro-me que a estas questões o Comandante-Chefe apenas esboçou uns sorrisos e abanava a cabeça num sinal que interpretámos de concordância - prenúncio do movimento que iria surgir 2 anos depois e que, como se sabe, teve o seu início na Guiné. Recordo-me ainda das palavras de apreço que teve para com os oficiais milicianos, mormente para com os capitães.

A 19 de Setembro de 1972, durante a Operação "Água Fresca", na convergência do Rio Cambamba com o Rio Corubalo, em que estavam envolvidos o meu GC e o 3º GC da nossa companhia, detectámos onde o IN atravessava o rio e quando já estávamos junto do Corubalo, tivémos a "visita" inesperada do General Spínola e do Comandante do Batalhão, Tenente-Coronel, Castro e Lemos, obrigando-nos a arranjar segurança num local para poisar o hélio, à pressa, embora o "Lobo Mau", ficasse a rodopiar envolta da zona, enquanto durou a pequena reunião. Spínola falou comigo (comandava a operação) procurando inteirar-se dos locais identificados onde o IN fazia a cambança, dos locais escolhidos para montar as emboscadas e armadilhas, bem como detalhes normais deste tipo de acção. Despediu-se desejando boa sorte e nós saímos do ponto onde estávamos, não fosse o diabo tecê-las, pois com o aparato dos dois hélios, o IN podia perfeitamente localizar-nos e atirar-nos umas "bojardas" do outro lado do Rio, onde era terra de ninguém e onde ele se escondia e passeava bastante à vontade. Contudo, os homens apreciaram muito a coragem do "Velho" ou o "Caco", para estar ali com eles, numa zona muito propícia a surgir o IN e na qual a nossa atenção ficava sempre em alerta máxima.

Em 20 de Dezembro de 1972, após vários ataques do IN na zona de intervenção do Batalhão, quer a tabancas em auto-defesa, quer aos aquartelamentos de Dulombi, Cancolim e especialmente à sede do Batalhão, em Galomaro, o Comandate-Chefe esteve no Dulombi, a fim de inteirar-se das acções que havíamos realizado, em especial depois do ataque à tabanca de Samba Cumbera, em que em uma força, por mim comandada, foi atrás do IN, a toda a "velocidade", a fim de tentar interceptá-los, pois no ataque perpetrado haviam morto uma mulher e uma criança que estavam numa vala, indefesos e nós levá-mos esta acção muito a peito, indo atrás deles cheios de "raiva", com desejos de vingar aquelas mortes. O IN deve ter pressentido o perigo, o quanto perto estávamos deles, pois foram largando material para irem mais leves e mais depressa. Pela frescura do rasto sabemos que foi por um pouco, mas o IN conseguiu atravessar o Corubalo, com muita pouca vantagem de nós, mas fugiu. O regresso foi penoso, com o pessoal muito cansado e desmoralizado, depois de toda a adrenalina gasta na perseguição. O General falou ainda à população, aproveitado a oportunidade, moralizando-as e afirmando que deviam confiar nas forças portuguesas.

Após novos ataques IN na zona do batalhão, com uma emboscada em Anambé-Cancolim, ao pelotão de milícias que fazia a picagem da estrada Anambé-Rio Xancara (8 de Janeiro de 1973), causando dois mortos e um ferido, ataque à Tabanca de Bangacia (1 de Fevereiro de 1973), com baixas entre a população, feridos diversos entre os milícias e a destruição de meia centena de casas e com a colocação de mina A/C, reforçada com granada de RPG, na estrada Galomaro-Dulombi (2 de Fevereiro1973), que foi accionada por uma viatura da CCS, causando um ferido grave (condutor), o General Spínola desloca-se em 4 de Fevereiro a Bangacia, para avaliar os estragos (era uma tabanca modelo, onde eram levados em visita muitos jornalistas, principalmente estrangeiros) e no dia 10 de Fevereiro surge novamente no Dulombi o Comandante-chefe, acompanhado do Comandannte da CAOP2, do Comandante-geral das milícias e do nosso 2º Comandante - segunda visita em tão curto espaço de tempo, havia algo no ar.

Curioso nesta visita foi o Comandante-chefe, ao cumprimentar-me, ter-me tratado pelo nome militar: "Então nosso Alferes Dias, como vai?". Possivelmente antes de falar comigo inteirou-se, previamente, sobre quem era o comandante da unidade.

Nesta visita, que seria a última, quem comandava a companhia era eu, em virtude do capitão se encontrar de férias na metrópole. O General pediu-me para lhe explicar as nossas últimas intervenções, em especial na identificação dos trilhos de aproximação e retirada do IN. Aceitou bem as respostas que lhe dei, sorrindo para os acompanhantes quando lhe expliquei como nós podíamos facilmente perder um trilho de retirada (...) e ouviu as minhas lamentações devido à grande área de intervenção e patrulha que detínhamos, aos enormes espaços que existiam entre nós e as companhias do Saltinho, Cancolim e mais acima Canjadude, que davam muita manobra ao IN, na aproximação e ataque às tabancas da população, das zonas de Galomaro, bem como podia facilitar a passagem para atacarem Bafatá.

Pressenti que o General já tinha outra ideia para a nossa zona de intervenção e, efectivamente, ainda comigo a comandar a companhia, foi ordenada a nossa retirada do Dulombi para Galomaro, onde já se encontrava um GC nosso desde Dezembro e outro em apoio ao Batalhão de Piche, em 9 de Março de 1973, deixando no Dulombi unicamente 13 homens, comandados por um dos meus furriéis e 2 pelotões de milícias. Continuámos a efectuar semanalmente operações na zona do Dulombi, mas a nossa área de intervenção foi substancialmente alargada, com a junção à nossa da área então detida pela CCS.

Foi a última vez que vi o General Spínola no nosso teatro de guerra. A situação parecia ter-se alterado com a ocupação do Cantanhez pelas nossas forças, que implicou o recurso a tropas que tinham chegado para substituir outras, atrasando, deste modo, as rendições. Também o próprio PAIGC se preparava para atacar com toda a força a norte (Guidage) e depois a sul (Guileje e Gadamael) e mais tarde seria também a vez de Canquelifá e Copá. A alteração fundamental foi, todavia, do meu ponto de vista, a introdução da nova arma do PAIGC, o míssil "Strella", que modificou a forma de actuar da força aérea. Passou a existir no seio dos nossos militares o receio de que, em caso de serem feridos, os hélios não viriam fazer a evacuação e teve de haver uma forte componente psicológica por parte dos graduados para evitar males maiores, ou mesmo recusas em ir para o mato, em especial, quando terminado o tempo previsto para a comissão, souberam que não seriam substituídos tão depressa, foi uma quebra moral muito grande.

Lembrou-se a Câmara Municipal de Lisboa, em bom tempo, de dar o nome a uma avenida da capital, ao nosso antigo Comandante-chefe, avenida esta, por sinal bem comprida, e que irá perdurar a memória deste militar que não foi indiferente a todos que o conheceram, causando a admiração de muitos, mas também criando noutros muita embirração. Para aqueles que serviram sob o seu comando não podem esquecer o homem do monóculo, das luvas e do pingalim. O seu carácter, a sua personalidade e de facto a sua coragem, deixaram uma marca indelével e não há dúvidas de que foi um militar de excepção, um homem que marcou o seu tempo e nos marcou a nós combatentes. Fiz bem em ter estado presente e lá estarei, se Deus o permitir, quando for inaugurada naquele local uma estátua em sua honra, conforme prometeu o Presidente da Edilidade Lisboeta.

Luís Dias

Nota: Apontamentos biográficos recolhidos da Wikipédia e do Livro Biografia:Spínola, Senhor da Guerra, Manuel Catarino e Miriam Assor, com a devida vénia.

terça-feira, 23 de março de 2010

O MECÂNICO DO DULOMBI - José Luís Mamadu Djau

Caros Camaradas

O nosso amigo e camarada Manuel Rodrigues (Ex-Fur.Mec), remeteu-me um e-mail, sobre um nosso amigo dos tempos do Dulombi, que ele descobriu, devido ao empenhamento do Ex- Alf. Fernando Barata, da CCAÇ 2700 (os nossos velhinhos). Trata-se do Djau, um africano que era ajudante de mecânico (ensinado pelo Rodrigues) e que desempenhava tarefas como assalariado, contribuindo ele também para que as nossas viaturas estivessem operacionais. Foi um profissional empenhado e bastante activo, tendo, efectivamente, no Rodrigues um amigo, com quem conversava muito, em especial nas horas do calor em que podiam descansar à sombra das várias árvores existentes na tabanca.
Não se sabia muito da história do Djau, de como ele aparecera no Dulombi, quais as suas origens, os seus pais, etc. (talvez a malta da 27$00 saiba mais sobre este assunto), e de como começou a trabalhar na mecânica e a colaborar com a tropa portuguesa. Não lhe eram conhecidos familiares na tabanca, embora fosse um elemento ali respeitado.
Lembro-me que uma das tarefas que ele também desempenhou foi o de intérprete do General Spínola, sempre que este se deslocou ao Dulombi e queria discursar para a população.
O Djau vive actualmente em Bissau onde trabalhou como condutor auto aluguer (taxista), embora seja hoje o seu filho que exerce esta profissão.
O nosso amigo escreveu ou pediu a alguém para escrever uma missiva para o Rodrigues, simples, mas singela, que é no fundo a de alguém que mantêm este sentimento bem português da "saudade", da amizade pelo seu amigo e lhe recorda, com certeza, os tempos da sua juventude.
Caro Djau um grande abraço aqui da malta da CCAÇ 3491 e os desejos de que a vida te corra bem. Um bem hajas pelo teu trabalho em prol da nossa companhia, no fundo em prol de todos nós.

A missiva endereçada ao Rodrigues foi a seguinte:


O Djau no Dulombi no meio de alguns elementos da ferrugem da CCAÇ2700
O Djau no Dulombi numa petisqueira com elementos da ferrugem (e não só) da CCAÇ3491






Fotos actuais do Djau tiradas no mês de Março deste ano em Bissau









































































































quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

FOTOS DOS ÚLTIMOS GUERREIROS DO IMPÉRIO A DEIXAR O DULOMBI

A saída dos últimos elementos da 1ª CCAÇ /BCAÇ4518/73, os nossos "Piras"(O adeus dos últimos soldados do Império português) ao nosso Dulombi.
Elementos da 1ª CCAÇ do BCAÇ4518/73 e guerrilheiros do PAIGC-Dulombi, após 25 de Abril. Segundo refere o A. Morais, parece que nem sabiam onde era o Dulombi e foram convidados pelos nossos a vir ao quartel, após terem contactado com a população num dos trilhos de acesso (falavam em francês entre eles (seriam soldados da Rep. Guiné-Conakri!!!).

A 1ª visita de elementos do PAIGC ao Dulombi, depois do 25 de Abril, aqui com 5 dos Homens Grandes da Tabanca.

Um dos morteiros 81mm do Dulombi em acção.

Muito possivelmente a PPSH-41-"Costureirinha" apreendida a um guerrilheiro do PAIGC, em 8 de Março de 1973 e que o Alf. Dias transportou, posteriormente, para Galomaro.
Piras da 1ª CCAÇ nas matas do Dulombi (ainda muito fresquinhos!).

O António Morais com uma Kalash AK-47.

O Morais com o cão que foi do Costa, (o nosso amigo alentejano e cantineiro da CCAÇ3491), o qual foi mais tarde abatido (ao que parece já em Galomaro).

O A. Morais e o Fur. Cariru das Trms da 1ª CCAÇ/BCAÇ4518/73. Por trás podemos obervar as antigas instalações da secretaria, quarto do capitão, quartos dos alferes, quartos dos furriéis e quarto do 1º Sargento.

O António Morais com o Jamanca e a família.

O António Morais e o caçador Jamanca a atravessarem a parada do Dulombi para irem ao mato recolher um javali abatido por este último. Ao fundo vê-se o abrigo onde estava instalado o paiol e à frente a casa do gerador.


Apelidado pelos elementos da 1ª CCAÇ, como "Um filho da CCAÇ3491" (parece ser o Samba Djuma!).

O camarada António Morais na porta principal do aquartelamento do Dulombi, com a tabuleta que assinalava a "zona" de perigo, de onde surgiam os ataques do PAIGC.


A despensa do Dulombi (que diferença dos nossos tempos!).

Os 12 elementos da 1ª CCAÇ/BCAÇ4518/73, que ficaram no Dulombi, após a retirada da companhia para Nova Lamego.

O camarada António Morais da 1ª CCAÇ do BCAÇ4518/73 (que nos substituiu no Dulombi), remeteu-nos algumas das suas fotos, dos últimos tempos que passaram no Dulombi. A companhia tinha saído para ir intervir na zona Leste (Nova Lamego) e ali deixaram 12 elementos, que tiveram de se "orientar", até sairem definitivamente do aquartelamento. Foram autenticamente abandonados pelo batalhão, segundo relato pelo próprio no blogue dos nossos velhinhos - a CCAÇ2700.
Ao António Morais os nossos agradecimentos e temos a certeza de que gostaríamos de contar com ele no nosso próximo encontro, para melhor nos contar das suas "aventuras", após a nossa saída do Dulombi.
Luís Dias















sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ANIVERSÁRIO DO LUÍS GRAÇA, O "COMANDANTE" DO BLOGUE "TABANCA GRANDE"

Fotos do Camarada Luís Graça, retiradas do blogue:"Luís Graça & Camaradas da Guiné", com a devida vénia.
O nosso Camarada Luís Graça, combatente da Guiné, ex-Fur. Milº da CCAÇ2590/CCAÇ 12, Bambadinca 1969/71, faz hoje 63 anos e foi ele o fundador do magnifico blogue; "Luís Graça & Camaradas da Guiné" - www.blogueforanadaevaotres.blogspot.com, onde muitos dos combatentes escrevem e dão conta das suas "aventuras" e das emoções passadas na Guiné. Tem sido um lugar de encontro, de recordações e de partilha. O Luís Graça, conjuntamente com os seus co-editores, Carlos Vinhal, Virginio Briote e Magalhães Ribeiro, têm feito um excelente trabalho e tido uma dedicação exemplar, para o esforço gigantesco de manter de pé este imenso blogue.

O editor deste blogue, associando-se a largas dezenas de amigos, enviou-lhe a mensagem que publicamos em baixo, a qual foi editada hoje mesmo no blogue da Tabanca Grande.


Caro Amigo e Camarada Luís Graça


Permite-me que te trate como Amigo, embora nunca tenhamos falado pessoalmente, mas já trocámos alguns e-mails. Em primeiro lugar e neste dia venho apresentar-te os meus sinceros parabéns, com votos de longa vida, recheada de coisas boas, na companhia, naturalmente, da tua família.


És, por direito próprio, o nosso "comandante" aquele que, em conjunto com os restantes editores, foi capaz de criar o nosso blogue e com isso dar proveito a que muitos de nós pudessem conhecer outros camaradas, trocar impressões, dar corpo a ideias, libertar o que há muitos anos julgávamos fechado para sempre. As amizades que têm surgido, os abraços, a solidariedade, são componentes inegáveis da nossa "Tabanca Grande". Esta base tertuliana que paulatinamente tem vindo a ser alargada, terá ultrapassado, se calhar, as tuas/vossas próprias expectativas.


Se hoje, muitos de nós têm a merecida voz exposta neste imenso blogue, a ti, creio que fundamentalmente, devemos isso. Conseguiste pôr de pé, talvez, a melhor homenagem ao combatente da guerra colonial, em especial daqueles que lutaram na Guiné, que é o de todos reconhecerem que, naquelas terras, muitos deram a vida, outros voltaram gravemente feridos, física ou psicologicamente, mas todos que por lá passaram deixaram muito da sua juventude e trouxeram um alto sentimento de camaradagem, uma referência por aquelas terras e por aquelas gentes, bem expressa nos belos escritos com que muitos nos têm contemplado no blogue e nas lágrimas com que recordamos aqueles que, por lá tombaram. Como dizia o General António de Spínola: "Chegastes meninos! Partis homens!".


Amigo Luís Graça, hoje é um dia festivo para ti, para os teus e para todos aqueles que, como eu, te admiram. Assim, permita Deus, que possas continuar a percorrer o teu caminho com muita saúde, com o amor, o carinho dos teus familiares e com a companhia dos teus imensos amigos.


Felicidades e um grande bem hajas.


Um abraço do tam anho do Rio Corubalo


Luís Dias



quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

AINDA HÁ UÍSQUE DA GUINÉ


Fotos das "belezas" com os selos da Alfândega da Guiné!

Chegada a Galomaro da CCAÇ3491, no dia 9 de Março de 1973. No jipe podemos ver o Alf. L. Dias, atrás o Fur. Baptista do 1º GC e ao lado, a sorrir, um guerrilheiro do PAIGC que, no dia anterior, se tinha entregado a uma patrulha nossa na área do Dulombi. A arma é uma Shpagin PPSH 41, no calibre 7,62 mm Tokarev, mais conhecida por "costureirinha" e com a particularidade de ter um carregador curvo de 35 munições, em vez do habitual tambor de 71.

Caros Camaradas e Amigos

É verdade! Ainda tenho 5 garrafas de uísque das que trouxe da Guiné (!!!!). Ou seja, estas já estão em minha casa desde 1974 (o BCAÇ 3872 regressou da guerra e atracou na Rocha Conde de Óbidos-Lisboa, em 4 de Abril, mas elas chegaram antes dessa data. São elas uma "President", uma "Something Special", uma "Dimple", uma "Smugler" e uma "Logan". Umas autênticas belezas.

Alguns dirão que isto é um sacrilégio; porque será que o Dias não tratou destas "meninas" em conformidade? Outros dirão que ele não é muito de beber e por isso as foi deixando andar lá por casa. Eu respondo: fui bebendo algumas, deixei outras ao meu pai, ainda outras ao meu tio Armando - este sim um grande apreciador - e fui ficando com outras e olhem, ganhei-lhes amizade, porque olhava para elas e ía-as destinando a grandes momentos. Bebi uma, já não me lembro a marca, quando o meu filho nasceu há 30 anos. Tinha uma bela "Monks", em bilha de barro, que muitos amigos, quando me visitavam, diziam que era melhor eu abri-la enquanto era tempo, pois tinham tendência a evaporar. Provei-lhes o contrário ao abri-la e bebê-la quando fiz os meus 50 anos. Abri uma "Chivas", creio que aos 55 anos e agora ainda tenho estas, embora com destino certo. Vou abrir a "Dimple" quando fizer os 60 anos, se Deus permitir que eu lá chegue e as outras serão para "special ocasions", uma, nomeadamente, se o meu Glorioso Benfica voltar este ano a ser Campeão Nacional.

O uísque na Guiné era, como todos sabem, uma bebida altamente apreciada e usada inclusive, como tratamento anti-bacteriano. Quando regressava ao quartel depois das operações no mato e ainda antes de tomar o retemperador e refrescante banho, a primeira coisa que fazia era beber um uísque com água de castelo para matar a bicharada (parasitas) que, possivelmente, tivesse engolido quando bebia água das bolanhas, dos riachos ou das poças, mesmo com recurso às pastilhas, ao lenço a fazer de filtro, antes de ela entrar no cantil, muitas vezes após afastar a baba dos macacos ou de outros animais que tivessem lá estado a tirar a sede.

Durante a comissão fui adquirindo diversas garrafas do precioso néctar, em especial das marcas que eu entendia serem mais prestigiadas. Encaixotava-as devidamente acondicionadas e pumba lá iam direitinhas para casa dos meus pais, através do correio. E nunca desapareceram e chegaram sempre inteiras!

Na nossa companhia (Dulombi), ao que julgo também nas outras, depois da cerveja, o uísque era das bebidas mais comercializadas (o vinho...bem, o vinho não era lá grande coisa como sabemos), embora existissem boas aguardentes velhas (como a excepcional "Adega Velha", em garrafa numerada). O gin com água tónica também era muito apreciado entre os graduados (mais na sede do batalhão em Galomaro do que na nossa companhia) e até a Coca Cola tinha alguma saída (esta bebíamos juntamente com uísque, normalmente em convívios, despejando uma garrafa de uísque corrente numa terrina de sopa, com uma grande pedra de gelo e Coca Cola a atestar. Depois seguia-se o ritual de passar a terrina de mão em mão, de boca em boca, bebendo o líquido fresquinho até acabar e, às vezes, como não chegava, iniciava-se novamente o processo).

A cerveja era muito popular e bebia-se em quase todas as alturas. Em Janeiro de 1973 a companhia teve de pedir um reforço de cerveja, porque a mesma esgotou-se e, segundo a Manutenção Militar de Bissau, a nossa companhia havia batido o recorde de cerveja bebida!!! Raio de malta, esta nossa rapaziada!!!

A aquisição do uísque das melhores marcas era uma luta em que o nosso 1º Sargento Gama, quase sempre me levava a melhor. De facto, a título de exemplo, nunca consegui adquirir a "Martin" de 20 anos, porque se esgotava sempre!!!! E ele sempre na boa. Mas eu vinguei-me, como vos relato a seguir.

Em finais de Fevereiro ou princípios de Março de 1973, eu estava a comandar a companhia, devido ao Capitão estar de férias. Então engendrei com os operadores criptos que, num determinado dia, depois do almoço, me apresentariam uma mensagem falsa, relacionada com a nossa transferência urgente para outra zona de acção. Os outros alferes e a maioria dos furriéis estavam alertados sobre a "marosca".

No dia aprazado, um dos criptos vem entregar-me uma mensagem urgente à messe de oficiais e sargentos, trazendo um ar preocupado e quando eu, pretensamente, a li, mostrei um ar de estupefacção, que levou a que os outros graduados perguntassem o que tinha acontecido.

Depois de alguns segundos de silêncio, eu disse-lhes, com voz dramatizada, que estávamos quilhados. Tínhamos recebido ordem de marcha para a zona do Cantanhez, para onde seguiríamos, dentro de 3 dias. Foi como uma bomba! É claro que a maioria sabia do engano, mas alinhou na "tanga".

Mas, onde é que entra aqui o nosso 1º Gama? O problema é que o 1º Sargento havia comprado, uns dias antes, mais um grande lote de garrafas de uísque e assim que ouviu isto deu um salto como que impelido por uma mola.

-Como é isso meu Alferes? Vamos todos para o Cantanhez? Isso é verdade? Perguntou o 1º Gama.
- Nosso primeiro a coisa é bem séria! Vamos todos para o Cantanhez! Confirmei com a cabeça.

Depois da confirmação, o nosso 1º Sargento entrou em desespero...! Gritava o que é que iria fazer com a pôrra das garrafas de uísque que havia comprado, que nem ía ter tempo de as remeter para a metrópole, que tinha gasto tanto dinheiro na sua aquisição, etc. Estava fulo e chamava nomes a tudo o que era comandante, recorrendo ao seu vernáculo de bom alentejano. É claro que a malta alvitrou logo que o melhor era já começar a bebê-las e que todos nós estávamos dispostos ao sacrifício, dávamos o corpo ao manifesto, ajudando-o em tão árdua e imperiosa tarefa...!!! O nosso 1º estava desfeito. Eu sentia-me vingado.

Deixámo-lo com estas preocupações durante algum tempo, mas não me contive e disse-lhe a verdade. Ficou tão aliviado que me perdoou a maldade.

A cena poderia ter ficado por aqui, o problema é que uns dias depois, exactamente depois do almoço, surge um dos operadores cripto na messe a entregar-me uma mensagem e dizendo logo que o assunto era sério e que a mensagem era verdadeira.

Peguei na mensagem e li-a, primeiro com os olhos, depois com a alma, e lá estava, preto no branco. O comandante do batalhão solicitava a informação de quantas viaturas iríamos precisar para transferir a companhia para Galomaro, no prazo de 3 dias. É claro que não era a mesma coisa que sermos transferidos para o Cantanhez, eram apenas 20 km de distância, mas a malta ficou em polvorosa e muitos ficaram a pensar que era mais uma brincadeira. O 1º Gama lá deve ter pensado para com os seus botões, que afinal não seria assim tão mau e não me resingou os ouvidos como seria de esperar.

A verdade, é que tivémos de nos organizar para retirar a companhia do Dulombi, deixando ali, unicamente, 13 bravos, comandados, primeiramente, pelo Furriel Gonçalves do meu GC, posteriormente rendido pelo Furriel Soares das Trms e dois pelotões de milícias. O que começara por ser uma brincadeira para atesanar o nosso 1º Gama, acabou, uns dias depois, por ser realidade e a vida operacional da companhia iria ser muito diferente. Mantivémos as operações na zona do Dulombi, mas alargámo-las à zona de intervenção de Galomaro, tendo ainda um GC, em permanência, de intervenção em Piche, depois em Nova Lamego e até em Pirada. Era a companhia que detinha a maior área geográfica de intervenção em todo o território.

Assim, no dia 9 de Março de 1973, uma coluna de viaturas com a CCAÇ 3491, por mim encabeçada, entrava em Galomaro. Só regressaríamos ao Dulombi para realizar operações e em Janeiro de 1974, para preparar a recepção à companhia dos piras.

Luís Dias